AODISSEIA
Filmes

O Date Perfeito é um romance feito sob encomenda

Netflix mergulha nos clichês, repete as fórmulas de sucesso e se contenta com o básico.


15 de abril de 2019 - 17:32 - Flávio Pizzol

As comédias românticas são um tipo de filme que não precisa de mais do que alguns clichês e um orçamento simples pra sair do papel e acertar seu público em cheio. No entanto, mesmo sendo consideravelmente barato, o gênero foi jogado para escanteio nos últimos anos e amargou o banco de reservas do cinema até receber um embrulho mais atual – e adolescente – nas mãos da Netflix. Após o sucesso certeiro de alguns títulos, o serviço de streaming mergulhou de vez nos clichês de ensino médio, pegou carona na fama instantânea de algumas figuras carimbadas e selecionou, com precisão metalinguística, as características que poderiam transformar O Date Perfeito no encontro filme dos sonhos entre os fãs do gênero.

A história acompanha Brooks, um garoto de classe média que cria um aplicativo de encontros customizados com o objetivo de juntar o dinheiro da faculdade e alcançar o status que sempre quis. Como já era de se esperar, as coisas complicam quando ele fica preso em sua própria rede de decisões idiotas e mentiras, perdendo até mesmo um possível amor de verdade. Em outras palavras, um grande pacote de clichês movido por repetições e amores idealizados.

E pode acreditar: dizer isso não é nenhum exagero no caso de O Date Perfeito, porque o longa realmente reúne os principais chavões e estereótipos do gênero como se precisasse completar uma espécie de bingo imaginário. Tem a abertura com o protagonista se apresentando ao público através de uma narração in off “descolada”, os antagonistas sem grande desenvolvimento que fazem de tudo para diminuir os outros, as montagens ágeis que estabelecem o dia-a-dia dos personagens da maneira mais estilizada possível, a trilha sonora recheada de músicas pop, as escolhas errôneas que o protagonista precisa cometer antes de perceber quem é seu verdadeiro amor e a reviravolta final mais do que óbvia.

Ou seja, o filme é uma mistura padrão desses elementos que marcam as comédias românticas adolescentes desde a década de 80. Teoricamente, isso deveria um ponto negativo do filme, porém uma coisa precisa ser levada em consideração: O Date Perfeito não tem a pretensão de fugir das fórmulas ou ser mais do que essas reunião de situações que seu público-alvo sonha em viver. Logo, dentro de certos parâmetros, o longa cumpre seus objetivos com louvor. Claro que a criatividade poderia ajudar no crescimento da produção como obra cinematográfica, mas, ao mesmo tempo, fica difícil ignorar que ele encontra sua própria maneira de funcionar dentro do gênero sem precisar de tanta inventividade.

Dentro disso, vale dizer que alguns pontos se destacam razoavelmente no roteiro de Steve Bloom (James e o Pêssego Gigante) e Randall Green (Billions). Os diálogos são honestos e muito bem conectados com a geração retratada, o ritmo ágil ajuda na hora de prender a atenção do espectador e os personagens possuem carisma suficiente para superar seus desenvolvimentos rasos. E, por mais que a previsibilidade da trama seja escancarada, os protagonistas acabam tomando algumas decisões que desarmam a expectativa e surpreendem durante um piscar de olhos. É uma pena que esses pequenos e esparsos flashes de originalidade não consigam gerar uma reviravolta de verdade, mas nem por isso merecem ser ignorados, afinal mexem com o status quo de um filme que poderia seguir o caminho fácil de aproveitar seu padrão durante todo o tempo.

Em contrapartida, as subtramas são um problema que nenhum flash de esperteza – ou sequer a aceitação primordial de O Date Perfeito como uma peça simplória e despretensiosa – consegue salvar. Na verdade, a combinação do excesso de linhas narrativas para coadjuvantes com a evolução que nunca sai da superfície dos personagens resulta em algo que realmente atrapalha a produção. E os exemplos são os mais variados possíveis, indo de relacionamentos paternos que teriam potencial se não fossem jogados para o terceiro plano até amizades sem química, potencial e valor narrativo. Nesse caso, os minutos dessa trama se tornam quase insuportáveis e ressaltam a superficialidade da realidade que cerca o protagonista sem convencer ninguém.

Contando com tantos clichês, um texto que não tenta ser diferente e uma direção – comandada por Chris Nelson (Saindo do Armário) – que se contenta apenas com o mediano, é natural que muito do peso do filme recaia sobre as costas de um elenco que, por sorte, é bastante carismático. Mais do que isso: esse é o ponto onde fica claro que o filme foi uma encomenda preparada para fazer sucesso na Netflix. É só observar como os protagonistas são interpretados por atores que estão fazendo sucesso em projetos similares. Ou você também pode notar que Noah Centineo repete basicamente o mesmo papel que o fez explodir na internet em Para Todos os Garotos que Já Amei. E, ainda que Brooks esteja alguns degraus abaixo em relação ao dinheiro, tal repetição é proposital e muito bem amarrada com os objetivos da produtora.

A quase brasileira Camila Mendes (The New Romantic) também não parece ir muito além do que faz em Riverdale, mas, em sua defesa, precisa se virar com muito menos tempo de tela do que o trailer sugere. Diante disso, a grande surpresa acaba sendo Laura Marano (Lady Bird: A Hora de Voar) e sua interpretação honesta, expressiva e pontuada por algumas camadas. Infelizmente, Celia Lieberman não foge do doloroso padrão de personagens que sem aprofundamento, no entanto ganha bons pontos por contar com uma atriz que domina o carisma da personagem com mais autenticidade que os seus colegas de elenco. Isso faz com que o fato dela ser a responsável por algumas daquelas surpresas citadas acima funcione quase como uma justiça narrativa para com uma personagem que, na minha humilde opinião, merecia mais.

Na real, considerando todos os fatores, pode-se dizer que o próprio filme merecia ser mais do que uma produção desenvolvida por um aplicativo semelhante ao do filme, selecionando todos os elementos que costumam agradar a galera que gosta de Barraca do Beijo e seus nobres semelhantes. O Date Perfeito merecia – e poderia – dar um passo além para se diferenciar um pouquinho, seguindo os passos do próprio Para Todos os Garotos que Já Amei e saindo de fininho da lista de produções originais genéricas da Netflix. Entretanto, ao mesmo tempo, o longa também não merece ser completamente desprezado por escolher abraçar os clichês para não correr riscos, principalmente porque (com exceção das subtramas) possui uma construção narrativa decente. Em outras palavras: temos um filme mediano que poderia ser melhor, mas escolheu não fugir nem um centímetro do que o seu público escolheria como seu date perfeito…