AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Caseiro


7 de outubro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Um passo para o cinema de terror brasileiro


211017Uma das principais discussões sobre o cinema nacional gira em torno da nossa pequena diversidade de gêneros, sendo que poderíamos estar apostando em um faroeste no meio do sertão ou um longa daqueles feitos para assustar de verdade. Dentro desse contexto, O Caseiro surge como uma boa tentativa de levar um filme de terror para os cinemas e, apesar de insistir em erros comuns, mostra que existem pessoas talentosas dispostas a desbravar esse universo.

O filme segue um professor de psicologia (Bruno Garcia) que, atendendo ao pedido de uma aluna, viaja para uma cidade do interior com o objetivo de investigar os eventos por trás de todos os machucados que aparecem misteriosamente no corpo da irmã mais nova da moça. A crença de todos é que ela está sendo atacada pelo antigo caseiro da casa, um homem misterioso que cometeu suicídio durante a infância do patriarca da família.

Essa trama da família que sofre com eventos sobrenaturais em uma casa isolada, apesar de ainda gerar bons filmes como Invocação do Mal e A Bruxa, é bem antiga dentro do gênero, então a principal sacada do roteiro de O Caseiro é centralizar a trama em volta de Davi, um professor cético que só age pela curiosidade científico. Com isso, boa parte do texto de João Segall e Julio Santi (que também dirige o longa) trabalha justamente com o suspense de saber o que é real, psicológico e religioso.

O choque entre esses elementos cria um mistério relativamente interessante que a dupla de roteiristas conduz com uma dose de tensão muito grande, apresentando as pistas e as possíveis soluções aos poucos pra subverter tudo alguns minutos depois. Eu não posso dizer que a primeira reviravolta em si é ruim, mas ela acaba prejudicando o filme ao excluir as possibilidades realistas. Em outras palavras, o filme perde muita qualidade quando se entrega ao sobrenatural.

Tudo bem que o filme está preparando o terreno para outras reviravoltas focadas no suso, mas até chegar lá o roteiro fica unidimensional, as atuações caem no exagero e pressa acaba entregando a grande virada da trama antes da revelação. É um espaço de tempo de cinco minutos que concluiria o trabalho de direção de Julio com chave de ouro, já que a movimentação sutil da câmera pelo ambiente funciona muito bem, prende o espectador e mantém o nível durante o terceiro ato. Mesmo assim, a reviravolta é apoiada em uma boa ideia e renova o fôlego do filme para os últimos minutos até tudo isso ser completamente descartado em uma tentativa desnecessária de alcançar o recorde de reviravoltas por minuto na última cena.

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O elenco também entrega o suficiente na maior parte do longa, mas a direção deixa clara a falta de experiência com atores naqueles poucos minutos em que tudo fica caricato. Até esse momento, Leopoldo Pacheco (Ligações Perigosas) funcionava como o pai quase louco, Denise Weinberg (Salve Geral) assustava com as sutilezas e crenças de Nora e Bruno Garcia (Nada Será Como Antes) passava toda a credibilidade e curiosidade que Davi precisava para se equilibrar na tênue linha entre o real e o imaginário. Considerando que Malu Rodrigues (Tapas & Beijos) e as meninas mais novas também fazem um trabalho razoável, eu só faço ressalvas em relação ao padre que Fabio Takeo (O Circo da Noite) interpreta com caretas demais.

No final das contas, o filme tem um roteiro mediano, uma direção que sustenta a tensão e atuações funcionais, mas acaba escorregando mais do que deveria no terceiro ato. Um longa que erra ao se vender como um terror, já que encontra os seus melhores momentos nas discussões sobre a mente e no suspense psicológico. Apesar de tudo isso, O Caseiro merece sua atenção por ser uma produção independente e disposta a desbravar novos espaços do cinema brasileiro.


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