AODISSEIA
Filmes

Critica: O Abutre


5 de janeiro de 2015 - 13:00 - Flávio Pizzol

 

Fazia tempo que eu não ficava tão surpreso e tenso com um filme. O Abutre é uma obra brilhante que existe para mostrar o quão desagradáveis podem ser os seres humanos e sua sede incansável por sangue. É um filme pesado, sufocante, angustiante e sádico, mas que não conseguimos tirar da mente por um bom tempo. A história acompanha Louis Bloom, um sujeito solitário, ambicioso e meio pirado – ou psicopata, se você preferir – que vive de pequenos furtos. Sem muitas opções na sua vida, ele decide comprar uma câmera e virar um “nightcrawler”, que seria uma espécie de paparazzi de tragédia. Através de um rádio policial, ele fica sabendo de crimes ou acidentes e tem que tentar chegar primeiro no local para conseguir a melhor imagem e vendê-la mais cara para o jornal que desejar o vídeo.

O roteirista Dan Gilroy (Gigantes de Aço) estreia na direção com o pé direito, criando uma história espetacular, um texto amarrado e, principalmente, um protagonista de força inigualável. Interpretado com perfeição por Jake Gyllenhaal, Louis Bloom consegue ser carismático e aterrorizante ao mesmo tempo. Ele te cativa na mesma levada que te deixa tenso e surpreso com sua personalidade e suas ações. Alguém que não mede esforços para conseguir o que deseja, manipulando e chantageando quem for preciso da maneira mais fria possível.

Mas claro que uma história digna teria que acompanhar um personagem desses para que o filme realmente funcionasse. Roteirista veterano, Gilroy desenvolve tudo de maneira sutil e certeira, casando tudo com uma direção sublime. O primeiro terço do filme está ali para nos apresentar de maneira segura aquele universo e seus participantes. Não é necessário muito tempo para isso, porque somos nós que estamos sendo retratados e dissecados no filme. Ainda que o filme se passe uma Los Angeles soturna, tudo aquilo poderia acontecer em qualquer lugar do planeta, inclusive no Brasil. Depois disso, começamos a entender a real função do filme e um pouco da personalidade de Bloom, principalmente quando ele passa a manipular cenas e provocar acidentes. Nós criamos uma certa repulsa dele e de suas ações, mas queremos mais daquilo. Em outras palavras, é bem interessante como o longa mostra o desagradável sem nenhum pudor e ainda usa isso a seu favor.

E isso só funciona porque tudo está girando em torno da nossa sede por sangue. A reação natural de alguém perante uma tragédia seria virar para o outro lado, entretanto o ser humano gosta e quer cada vez mais desse sangue. E é essa a função dos abutres. Eles estão no mundo para buscar as cenas mais sangrentas possíveis e se alimentar desses restos. A questão é que aqui eles têm câmeras para que esses restos também alimentem o jornalismo sensacionalista e a população que liga a TV só para ver as tragédias. E não vai dizer que o filme critica a sociedade americana, porque o Brasil não fica para trás com seus Datenas liderando as audiências.

É claro que esse tema já esteve em cheque nas telonas, mas esse filme retrata tudo isso de uma maneira atual e extremamente crua. A direção de Gilroy e muito veloz e documental, passando muito bem a sensação de um mundo onde tudo é corrido e um vídeo pode ser feito até com seu celular. O próprio Louis começa com uma câmera de mão sem muitos recursos e ganha dinheiro suficiente para trocar de carro e de equipamento em pouco tempo. Assim Gilroy fez um estudo inquietante e verdadeiro de uma sociedade vampiresca, além de explorar quais são os limites éticos das televisões e dos seres humanos. E o melhor é que isso é feito sem que o filme deixe de prender a respiração do espectador, já que O Abutre é um thriller que vai crescendo e sufocando o público aos poucos até chegar a um clímax destruidor e recheado de ação.

Claro que Dan não merece ganhar o destaque sozinho. Seu talento é evidente, mas não posso deixar de elogiar a edição de John Gilroy (irmão de Dan), a trilha sonora e a fotografia do filme. A última característica chama mais atenção, já que praticamente todo o filme é filmado a noite e em alta velocidade. Todo esse clima dark chama a atenção e dá mais peso à história, graças ao brilhante trabalho do fotógrafo Robert Elswit (Sangue Negro).

O elenco também é praticamente perfeito. Com os olhos esbugalhados e o corpo encurvado, Gyllenhaal (Os Suspeitos) chama muita atenção e carrega o filme nas costas. Acompanhado de mudanças físicas (ele emagreceu 15 kg para dar vida a Louis) e psicológicas, Jake faz uma das construções de personagem mais interessantes dos últimos tempos. Ele merece pelo menos uma indicação ao Oscar, assim como alguns dos ótimos coadjuvantes. Marcam presença o jovem Riz Ahmed (Circuito Fechado), Bill Paxton (Dose Dupla) e Rene Russo (Thor: O Mundo Sombrio), que ganha aqui um dos melhores papéis de sua vida ao dividir a tela com Gyllenhaal. Seu papel é bem interessante e ajuda a escancarar a realidade jornalística de que tudo é um negócio e que o que vale é o lucro.

O próprio protagonista fala que se você está vendo ele, é porque esse está sendo pior dia da sua vida. Entretanto não é ele que lucra com sua tragédia. Não é só ele que quer sua tragédia. Pessoas sociopatas como Bloom ajudam, mas só fazem isso porque existe um mercado. Quem é o culpado? O público ou o canal de notícias? Não sabemos e o filme não tem a função de responder essa pergunta. Sem levantar bandeiras moralistas ou fazer julgamentos, Gilroy apenas expõe a realidade de maneira instigante, cruel, intensa e preocupantemente engraçada. É um filme que incomoda, mas o grande segredo de O Abutre é ser uma obra interessante e importante tanto cinematograficamente, quanto socialmente. Não é só cinema, é vida real.


OBS 1: Esse foi o último filme que eu vi em 2014 e entrou na lista de melhores de última hora, mas com méritos.