AODISSEIA
Filmes

Critica: No Coração do Mar


4 de dezembro de 2015 - 11:00 - Flávio Pizzol

Apenas mais um duelo contra a natureza


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Todos nós sabemos que a indústria cinematográfica é movida por adaptações de clássicos da literatura e a reutilização de temas consagrados. Um deles é o bom e velho duelo do homem versus a natureza que encontra uma história clássica e é repetida mais uma vez nessa quase adaptação do livro Moby Dick, escrito por Herman Melville no século 19.

Eu disse que essa era quase uma adaptação, porque essa história não é sobre a baleia em si e sim – como o marketing vendeu desde o início – sobre os homens que viveram e inspiraram tal história depois de uma viagem em busca do precioso óleo de baleia. A falta de sucesso e algumas pressões pessoais fazem com que o Capitão Pollard e sua tripulação navegassem para onde ninguém nunca viajou, encontrassem com o tal monstro gigante e precisassem lutar para voltar para suas casas com vida.

O roteiro, escrito por Charles Leavitt (Diamante de Sangue e Warcraft), é interessante o bastante para prender a atenção do espectador e sabe usar muito bem esse “novo” ponto de vista para expandir a sua história. Assim, junto com a aventura garantida pelo duelo entre o Capitão Ahab (que não existe nesse caso, mas pode ser visto em vários personagens) e a tal baleia, também temos um pouco de suspense e uma boa dose de drama garantida pela rápida transformação em um conto de superação.

Apesar de dar pouco espaço para cada um desses aspectos, o roteiro consegue desenvolver tudo de maneira bem aceitável, criar diálogos minimamente interessantes e chamar a atenção do público por conta da boa direção de Ron Howard. O diretor é o responsável por utilizar muito bem o mar para contar a história, construir boa parte da tensão dentro de cenários extremamente parecidos e equilibrar a mistura entre os atores, a recriação de época e a computação gráfica.

No entanto, tudo isso vai se perdendo aos poucos em alguns problemas de roteiro que me incomodaram bastante, principalmente em relação ao uso de um narrador onipresente que sabe até os fatos que não presenciou e a repetição das tão temidas coincidências. O primeiro caso pode ser explicado através da licença poética e é rapidamente perdoado porque funciona na maior parte do tempo, mas também acaba prejudicando as cenas de tensão que envolvem esse personagem que precisa – obrigatoriamente – terminar vivo. Já o segundo, acaba irritando quando o texto justifica a falta de explicação dos problemas alcoólicos de um personagem com um preguiçoso “às vezes, é melhor não fazer perguntas sobre o passado”.

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Apesar disso, o que mais me incomodou foi a constante falta de intensidade em algumas cenas importantes, sendo que o caso mais óbvio é o de uma tempestade que acontece na segunda metade do longa. Ao contrário dos ótimos ataques da baleia onde o trabalho Ron Howard se destaca, esse momento específico, que tem grande importância para o decorrer da história de um personagem, é escrito e filmado sem nenhuma intensidade e a ameaça passa completamente despercebida quando não deveria ser assim.

O problema maior é que momentos assim continuam se repetindo com menor intensidade e acabam sendo um fator que prejudica (e muito) um elenco talentoso e em grande desperdiçado. Chris Hemsworth e Tom Holland acabam sendo o destaque pela entrega física ao personagem, enquanto os ótimos Cillian Murphy e Benjamin Walker precisam se contentar com papéis clichês e poucos momentos onde eles podem realmente mostrar algum talento. Além deles, seria um pouco triste ver atores do calibre de Ben Whishaw, Brendan Gleeson e Michelle Fairley ficarem completamente restritos a narradores da história, se não fosse extremamente recompensador ver eles tirarem leite de pedra e brilharem mesmo com tão pouco.

Considerando tudo isso, posso dizer que No Coração do Mar é um filme interessante e bem executado que se perde em um roteiro problemático e algumas atuações que não ultrapassam a média. Seria injusto dizer que ele não prende o espectador com um drama forte e algumas boas cenas de ação, mas fica claro que ele poderia ser bem melhor se conseguisse trabalhar a luta contra a natureza com mais intensidade. Ainda assim, possui uma boa história de superação e pode ser um bom programa de domingo.


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