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Ainda um tabu para alguns, “Never Rarely Sometimes Always” fala sobre tomar posse do próprio corpo…e da própria vida


Histórias sobre gravidez não planejada, adoção e possíveis abortos, são sempre pesadas, e foram pinceladas em vários filmes e séries nos últimos anos. “Juno” decidiu tratar isso de forma bastante colorida e didática. Já séries como “Sex Education”, “Glow” e “Little Fires Everywhere“, decidem ir para um lado mais dramático. “Never Rarely Sometimes Always” e seu título nada comum, decidem seguir a última linha.

Na história, ​​Autumn (Sidney Flanigan) e a melhor amiga e prima Skylar (Talia Ryder), vivem na pacata Pensilvânia rural. Autumn engravida inesperadamente, e ao tentar lidar com a situação, esbarra num conservadorismo caipira típico. Com o apoio da amiga e poucos recursos, ambas partem para o estado de Nova York, que possui leis abortivas mais amenas, e enfim, encontrar a ajuda que Autumn precisa.

never rarely sometimes always

Com cuidado, sensibilidade e cercada por um fotografia meio indie, a diretora Eliza Hittman (do bom “Ratos de Praia“), entrega em “Never Rarely Sometimes Always” um filme simples e cru, onde as personagens precisam cumprir uma missão e ir do ponto A ao ponto B, lidando com perguntas e situações desagradáveis no processo. Não espere grandes viradas no roteiro da própria Hittman, o que pesa aqui é são as silenciosas decisões.

A calada e introspectiva protagonista de 17 anos, guarda a maioria de suas dores para si. Monossilábica, Autumn é orgulhosa, mas demonstra afeto em simples olhares e apertos de mão simbólicos. A forma como a maioria dos homens da produção são retratados (como monstros geralmente), se relaciona com a forma que ela os vê.

Os traumas em “Never Rarely Sometimes Always” são sutis, mas impactantes. A cena que revela o título do longa é uma das mais emocionantes do cinema em 2020. Assim, a produção se torna feminista mas não panfletária e gera momentos dramáticos, bem distantes do pieguismo e do melodrama.

Essa forma de retratar a feminilidade e todas os percalços que a acompanham, torna a relação de Autumn e Skylar mais forte. São coisas que não precisam ser ditas. Uma solidão antiga e ao mesmo tempo bastante atual, evidenciada numa luta incessante contra o machismo, o direito de mudar o próprio corpo e de fazer o que quiser, quando quiser.

“Never Rarely Sometimes Always” respeitosamente não nos leva ao momento do ato, porque não interessa ter essa percepção e não cabe a nós julgarmos a figura de Autumn, e nem taxá-la de irresponsável. O fato de ser dirigido por uma mulher contribui para que os corpos não sejam sexualizados e muito menos romantizados, perante um cotidiano frio e nada amoroso, nos lembrando que às vezes, ser explícito não é o melhor caminho.


“Never Rarely Sometimes Always” estreou nos EUA na semana de início da quarentena e foi disponibilizado para aluguel em VOD logo depois.

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Never Rarely Sometimes Always

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Tiago Cinéfilo
Há 4 anos nessa viagem. Estudante de Rádio, TV e Internet. Ex-Clock Tower, ex-Cinema Com Rapadura e ex-fã de The Walking Dead.

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