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Filmes

Crítica: Nasce uma Estrela foi feito para brilhar

Se prepare para a estréia luxuosa de Bradley Cooper atrás das câmeras...

16 de outubro de 2018 - 14:49 - Flávio Pizzol

Fazer algo pela primeira vez é, na maioria das vezes, complicado, tenso e até mesmo um pouquinho assustador. E, se isso vale para as coisas mais banais da vida, imagine como deve ser abandonar parte do seus status quo como ator de sucesso para dirigir seu primeiro longa e ainda por cima fazê-lo em uma produção de grande porte com divulgação massiva e cheirinho de Oscar. Um desafio considerável que ainda pode ser ampliado por diversos fatores, como a comprovação do talento de uma protagonista sem carreira cinematográfica ou o fato de sua história ser a recriação do clássico Nasce uma Estrela – um clichê ambulante que já havia sido transformado em longa-metragem outras três vezes com algum sucesso. Um verdadeiro pesadelo que, contra tudo e todos, pode ser transformado em motivação quando se tem algo a dizer…

E, para nossa sorte, é exatamente isso que o astro Bradley Cooper (Sniper Americano) comprova ter em sua estreia como roteirista e diretor, adaptando justamente a velha história da moça desconhecida e talentosa que é descoberta por um figurão da indústria, se apaixona e começa a trilhar sua carreira como estrela em uma jornada que acabará sendo afetada por empresários sem coração e vícios que destroem tudo que veem pela frente. Uma premissa óbvia que repete os mesmos escorregões de sempre, mas se sobressai graças a uma atualização realizada através de músicas intensas, atuações poderosas e, principalmente, uma direção que merece ser exaltada pela sua precisão e sensibilidade.

E acredite quando garanto uma coisa: esse destaque todo para o trabalho de Cooper atrás das câmeras é, assim como tudo num filme, proposital. A verdade é que, na falta de uma história inovadora, grande parte da força emocional do longa recai sobre a direção e o resultado tem potencial pra deixar qualquer um estupefato. A maneira como ele consegue dar voz e significado às imagens é tão impressionante que me ganhou desde a primeira cena, onde a intensidade com que a câmera se movimenta revela a “inquietude” (pra usar um eufemismo) do personagem e a emoção do palco de uma vez só. No entanto, o mais curioso é perceber que essa abertura vibrante funciona ainda mais quando contrastada com a simplicidade da vida que cerca a protagonista feminina de Nasce uma Estrela. É o começo de um jogo que, querendo ou não, marca presença durante toda a produção e usa a sensibilidade de seu diretor como combustível para mexer com o espectador tanto nos momentos mais “explosivos“, quanto naqueles mais contidos.

Junto disso, o astro de Se Beber, Não Case ainda abandona as típicas indecisões de um estreante e se revela um diretor com um forte senso de linguagem cinematográfica. Ele permite que o filme construa seu ritmo de uma maneira bastante particular, aposta no minimalismo para evitar o excesso de ângulos que costumam invadir os musicais, demonstra precisão nos momentos em que decidir trocar de sequência ou até mesmo de plano e, principalmente, mostra que sabe aproveitar bem os talentos de quem está a sua volta. É interessante notar como todas as peças são posicionadas com o objetivo de adicionar algo ao longa, destacando o jeito único como Matthew Libatique (Mãe!) incorpora a luz de palco na fotografia, os cortes precisos Jay Cassidy (O Lado Bom da Vida) e os arranjos brilhantes de cada uma das viciantes canções que compõem a trajetória de Ally e Jack.

Esse conjunto cria um magnetismo visual que gruda os olhos do público na tela durante os longos 136 minutos de produção, superando inclusive as barrigas que puxam a história pra trás, a ausência de um aprofundamento em algumas relações com coadjuvantes e outros pequenos problemas de roteiro. Entretanto vale destacar que nada disso chega ao ponto de tirar o espectador da imersão proposta pela produção, porque a maioria desses “escorregões” não passam de erros pontuais dentro de um texto linear, consciente do seu potencial e que consegue, de maneira surpreendente, construir uma atualização que não dependa de celulares ou redes sociais como muletas narrativas. Em outras palavras, ainda que não consiga ser perfeito, o texto escrito pelo próprio Cooper ao lado de Eric Roth (O Curioso Caso de Benjamin Button) e Will Fetters (Um Homem de Sorte) acerta muito mais do que erra.

E eu acredito que sua maior força está na riqueza temática que entrega uma daquelas histórias que nocauteiam o público por todos os lados possíveis, abrindo espaço para diversas leituras surgirem no meio do caminho e ganharem força de acordo com a percepção de cada espectador. Isso faz com que Nasce uma Estrela possa ser compreendido sem problemas como um filme sobre alcoolismo ao mesmo tempo em que também funciona como um musical clássico, uma crítica à fama e ao mercado do entretenimento, um drama sobre relações abusivas/dependentes ou até um romance genuinamente hollywoodiano. Tudo depende do ponto de vista de quem está assistindo.

Um outro elemento que ajuda na manutenção dessa riqueza de temas (algumas vezes contraditórios) e acaba sendo decisivo para o sucesso do longa é a construção sólida de seus personagens. A maioria deles – com destaque óbvio para o casal protagonista – recebem um tratamento crível, profundo e cheio de camadas que praticamente nos obriga a comprar as histórias por conta da verdade que as cerca, acreditar no potencial de cada um, compreender as motivações dos lados opostos quando surge algum embate e torcer pelo sucesso de todos os envolvidos na trama, incluindo até mesmo os personagens mais contraditórios da produção. O roteiro gasta algum tempo na construção dessa relação forte entre personagens e espectadores nos dois primeiros atos e, apesar dos excessos que já foram citados, o valor dessa escolha é colocado à prova – com sucesso – quando o terceiro ato quebra a agilidade do filme de maneira brutal e apoia toda a sua intensidade no peso deixado pelos protagonistas.

É nesse momento que as ótimas atuações ganham ainda mais importância, já que é impossível falar da força dos personagens sem dar o devido valor às figuras que os compõem. E aqui Cooper acerta ao colocar Lady Gaga (em sua estreia como protagonista no cinema), enfrentando os desafios da primeira vez e saindo vitoriosa quando se torna a alma do longa. Ela constrói uma Ally cheia de camadas que refletem insegurança, ingenuidade, amor e vontade de vencer dentro de uma produção que concentra sua força mais no que não é dito do que naquelas explosões de sentimento que se sobressaem ao resto. Ou seja, ela se dedica a um trabalho minimalista que arranca alguns arrepios durante as canções – uma voz é uma voz, né? – e conduz o espectador às prováveis lágrimas com precisão.

No entanto, ainda que se coloque um degrau abaixo da cantora, Bradley merece um parágrafo só para si por injetar o peso exato nas ações de um personagem tão complexo quanto Ally. Jackson Maine é um sujeito angustiado e bastante machista que desconta suas tristezas e frustrações na bebida (note que traços depressivos são apresentados desde o início da produção), dividindo sua existência entre a solidão reprimida pelo próprio texto e o amor encontrado nos braços da garota dos seus sonhos. São características contraditórias que resultam em alguém que, entre grunhidos incompreensíveis e solos de guitarra tremendamente convincentes, deixa o público com um misto de raiva, pena e torcida pelo sucesso.

Além disso, a ótima química entre Gaga e Cooper resulta em canções brilhantes (muitas foram compostas por eles no próprio set) e momentos de puro glamour são concebidos para fortalecer os personagens individualmente e em conjunto. Uma união que absorve o que o roteiro tem de melhor e aproveita as decisões inteligentes de um diretor que claramente sabe o que está fazendo para transformar a nova versão de Nasce uma Estrela em um filme divertido, inebriante, poderoso e intenso emocionalmente. Um filme que, apesar dos clichês, mostrar ter fôlego para alcançar um novo público com merecimento. Um filme que, mesmo sem ser perfeito, nasceu como dom para brilhar e ser uma estrela no meio da indústria.


OBS 1: Escutem a trilha completa, porque existem algumas canções incríveis que só tiveram pequenos trechos incluídos no corte final.

OBS 2: Dave Chappelle (Chi-Raq) e Sam Elliott (Justified) tem participações bem menores que a dos protagonistas, mas destroem em pelo menos uma cena cada. O suficiente para merecer no mínimo uma citação aqui…