AODISSEIA
Filmes

Crítica: Não Olhe – o aterrorizante reflexo de nós mesmos

Terror psicológico acerta quando trabalha a dualidade e peca na exposição.


3 de março de 2019 - 14:02 - Tiago Soares

Produções com adolescentes introspectivos tendo que conviver em colégios repletos de “predadores” sociais são feitas aos montes. Eles tem que conviver com o bullying diário, a solidão e a falta de ter alguém em quem confiar. Até mesmo no ambiente familiar, às vezes a ausência de apoio é evidente. A adolescência é uma fase difícil e a vida de Maria (India Eisley) não é diferente. “Não Olhe” é um terror psicológico que está interessado em mostrar as diversas faces de um ser humano que aparentemente não tem muito o que dizer.

Acompanhar a trajetória de uma jovem extremamente tímida que com o tempo passa a conversar com o próprio reflexo, sendo tomada por ele (o reflexo que possui o nome dela ao contrário “Airam“) – discute sobre sua própria personalidade. Seria o reflexo uma outra identidade ainda não descoberta ou realmente algo místico? Enquanto permanece no mistério e no campo da dúvida, o terror do diretor isralaense Assaf Bernstein é eficiente e arranca uma poderosa atuação de Eisley nas duas versões.

No campo do suspense a história cresce e todos os personagens masculinos parecem ameaçados pela presença de uma mulher forte e determinada, uma grande metáfora sobre aceitação e amor próprio (que às vezes flerta com o narcisismo). Criativo em alguma cenas, principalmente em enquadramentos que omitem a violência, Assaf resolve ser expositivo e perde a mão ao não saber guiar sua própria história (também roteirizada por ele).

O que torna “Não Olhe” interessante é a pluralidade de narrativas – que podem seguir por diversos caminhos, principalmente em seu desfecho ambíguo. Mesmo assim o que fica é a sensação de que a produção poderia ter sido mais do que aquilo que foi se tivesse um direção mais autoral e menos verborrágica. Os diálogos às vezes fogem do natural e o uso dos reflexos logo se esgota, faltando a mesma coragem vista no início e no fim, tornando o meio no máximo assistível.