AODISSEIA
Filmes

Crítica: Mogli – O Menino Lobo

Não enfrente-o como lobo, enfrente-o como homem.


15 de abril de 2016 - 11:00 - Tiago Soares

Há muito tempo, a Disney é referência no mercado de filmes (animações ou live action), atrações turísticas, brinquedos e grande responsável por trazer um mundo mágico para nós, meros mortais. Com a aquisição da Marvel e da LucasFilm isso só ganhou mais força, mas a empresa do Mickey  foi além. Transformar clássicos da animação em filmes live action, dando uma nova abordagem. Começou com Alice no País das Maravilhas (2010), seguido de Malévola (2014) e Cinderela (2015), todos sucessos. Agora um desafio maior foi apresentado: adaptar o clássico Mogli – O Menino Lobo (The Jungle Book) de 1967, último filme produzido por Walt Disney, para uma versão atual e ao mesmo tempo honrar as origens. E isso é algo que ele consegue fazer com louvor.

A direção é de Jon Favreau (Homem de Ferro) e, apesar de ser suspeito a falar, já que é um de meus diretores favoritos, sabemos que Favreau dispensa comentários. Em entrevistas, o mesmo afirma que quer passar todos os sentimentos possíveis nesse longa, e ele consegue. Para quem não conhece, Mogli foi criado na floresta desde pequeno. Encontrado por uma pantera negra, acaba sendo deixado pela mesma em uma alcateia e passa a viver entre os lobos, se considerando igual a eles. Com um período de seca que aflige a região, todos passam a consumir a água que pertence a sua família. Logo, Mogli é descoberto pelos animais da floresta, causando um ódio ferrenho a um tigre de bengala, que tem um passado traumático com os humanos.

O roteiro de Justin Marks, apresenta de forma clara as motivações de seus personagens, bebendo bastante da fonte original e conseguindo se desprender. Mas o trunfo do longa está na sua ousadia, realiza-lo todo através de motion capture, em estúdio, com todas paisagens em computação gráfica, com a presença apenas de um ator no set, no caso Mogli (Neel Sethi). O menino faz um trabalho excelente, tanto físico, como emocional. Tem um carisma natural, e passa empatia apesar de atuar quase sozinho. É possível perceber que houve um trabalho minucioso para deixar o pequeno ator a vontade, visto que ele se sente em casa no meio da floresta. Ben Kingsley é Bagheera, a pantera negra que encontra Mogli e também serve como narrador da história. O ator tem voz imponente, mas tem o visual menos trabalhado, suas expressões não parecem reais em alguns momentos, além de não ter o mesmo carisma da animação. Lupita Nyong’o é Rakcha, a mãe loba de Mogli. Lupita consegue passar a emoção de mãe com sua voz dócil e cheia de sabedoria, parecida com o que fez com Maz Kanata em Star Wars VIIGiancarlo Esposito é Akela, líder da alcateia, competente em sua pequena participação.

The-Jungle-Book-022_tg_0020_comp_v0455_right.1095

Os melhores trabalhos do elenco ficam a cargo de Idris Elba como Shere Khan. As expressões faciais do tigre são perfeitas e a voz de Idris casa com perfeição, sendo que o excelente ator consegue dar a carga dramática necessária e passar medo com uma simples frases de efeito de fazer inveja a qualquer vilão de filmes de heróis. Enquanto isso, Bill Murray, como Baloo, é o contraponto necessário a todo aquela situação de seriedade e caos que se apresenta. A apresentação do urso é cheia de trejeitos e apesar do trabalho impecável de CGI, vemos muito de Bill no personagem. A canção entoada “The Bare Necessities” funciona e faz uma bela homenagem ao filme original.

Scarlett Johansson como a cobra Kaa, tem toda a voz sedutora e cheia de uma certa sensualidade quando interage com o protagonista. Lembrei muito da sua voz em Ela (Her, 2013). A personagem é importante para trazer o lado mais fantasioso e relembrar o passado de Mogli em um flashback emocionante. Para fechar o time de vozes incríveis, o não menos importante Christopher Walken como Rei Louie. O personagem sofre uma pequena mudança em relação ao filme original, mas se destaque e tem presença. Ao contrário da canção anterior, “I Wan’na Be Like You” não funciona no contesto apresentado e consegue cortar o clima completamente quando apresentada de forma gratuita.

 A fotografia de Bill Pope se destaca, sendo colorida e cheia de vida no clima aventureiro e sombria e escura nas partes mais tensas. Detalhes da chuva na pele dos animais, efeitos do sol e de quando correm, assustam pela sensação de realidade. Tudo isso impulsionado pela trilha sonora de John Debney, que faz a imersão para dentro do filme, algo que o maravilhoso 3D (não usado de forma gratuita aqui) finaliza com perfeição.

maxresdefault

Apesar de ter um tom mais sério do que o filme original, Mogli – O Menino Lobo (2016), tem boas piadas, principalmente quando Baloo e seus amigos estão em cena. Algo necessário para contrapor a seriedade do embate final com Share Khan, que dura mais do que o necessário. A versão atual pode não ser melhor que o clássico filme de 1967 e a tecnologia incrível utilizada aqui pode se tornar ultrapassada com o tempo, mas felizmente o filme é bem mais que isso. Jon Favreau Justin Marks conseguem emocionar. Algo muito importante para mostrar que um filme pode ser perfeito tecnicamente e ter um excelente roteiro e uma história que, apesar de não ser original, pode se tornar um novo clássico da Disney.