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Filmes

Crítica: Missão: Impossível – Efeito Fallout

Ethan Hunt chega ao seu ápice com fôlego para ir além...

26 de julho de 2018 - 09:08 - Flávio Pizzol

Missão: Impossível começou, lá em 1996, como uma simples adaptação cinematográfica de uma série de sucesso. Tom Cruise era um astro em plena ascensão no mercado, mas ainda não tinha sua carreira atrelada ao gênero para que uma única continuação fosse o suficiente para caracterizar os longas como franquia. Tudo mudou em 2006, quando J.J Abrams (antes mesmo de usar a mesma tática em Star Trek) ressuscitou a premissa para sua grandiosa estréia nas telonas. O sucesso de público e crítica surpreendeu muita gente, colocando Ethan Hunt em um caminho sem volta que o direcionou justamente para o seu auge nesse Missão: Impossível – Efeito Fallout.

A trama, que pode ser considerada uma continuação direta de Nação Secreta (2015), começa quando Ethan Hunt aceita a missão de recuperar três ogivas de plutônio que foram adquiridas por uma organização apocalíptica conhecida como Os Apóstolos. Uma premissa típica da franquia que se complica quando as consequências de uma decisão difícil iniciam uma corrida contra o tempo envolvendo vingança, desconfiança dentro a própria agência, mulheres dos passado e cenas de ação impossíveis.

A responsabilidade de criar um texto que conseguisse abraçar tantas engrenagens, reviravoltas e loucuras fica mais uma vez com o também diretor Christopher McQuarrie (Os Suspeitos) e eu já posso adiantar que o fato dele também ser o responsável pelo longa anterior injeta uma força que pode ser sentida aqui. O roteirista – que já alcançou sua sexta parceria com o protagonista – sabe exatamente o que o astro quer fazer e não tenta fugir disso para tentar reinventar a roda. Isso pode ser julgado como algo negativo por algumas pessoas, porém assumir sem vergonha que está fazendo um simples filme de gênero, além de ser um dos trunfos da franquia, deixa McQuarrie se concentrar em elementos narrativos que fariam mais falta para o longa do que uma história inovadora, transformando-o basicamente em um “organizador narrativo”.

Entendo e aceito que essa escolha encaminha Efeito Fallout para uma trama razoavelmente repetitiva que pode, sem querer, antecipar alguns dos seus segredos para aqueles espectadores mais fiéis e acostumados com a fórmula seguida aqui. No entanto, é essa mesma decisão que, como eu já disse, permite que McQuarrie foque sua atenção naquilo que um roteiro desse tipo realmente precisa. E, entre as coisas que merecem destaque, esse sexto longa possui diálogos ágeis que se dividem muito bem entre explicar o necessário, oferecer pistas e divertir o público; um encadeamento de acontecimentos que mantém a aceleração constante da trama sem deixar o público confuso; um desenvolvimento conciso e eficiente quando se trata de oferecer momentos de destaque – mesmo que pontuais – para todos os personagens; e, acima de tudo, uma amarração perfeita de peças que pareciam fazer parte de jogos diferentes durante o primeiro ato.

A combinação dessas qualidades é mais do que o suficiente para prender a atenção do público, tirar um ou outro “wow” na hora das revelações e preparar o terreno para o verdadeiro show: as cenas de ação. Elas sempre foram um elemento importante da franquia, mas ganharam status de estrela nos últimos filmes e começaram a obrigar os diretores responsáveis a reinventarem seus limites. Com muita dedicação e uma pitada de ousadia, McQuarrie faz exatamente isso, elevando o nível da pancadaria e superando seu trabalho em Nação Fantasma. Inclusive, fica muito evidente que já ter enfrentado seu protagonista pendurado para fora de um avião há três anos atrás deixou o diretor muito mais confortável com seu posto e preparado para tirar o fôlego até mesmo dos fãs mais acostumados e preparados.

A movimentação de câmera proposta por McQuarrie e pelo diretor de fotografia Rob Hardy (estreando na franquia após Aniquilação) é tão fluída, impactante e realista que consegue, na mesma leva, brincar com todas as expectativas do espectador, abusar dos efeitos práticos até mesmo quando a perna do protagonista está em jogo e coreografar sequências cheias de urgência que figuram entre a melhores coisas que o cinema de ação entregou nos últimos anos. Tudo isso enquanto corrigem uma das poucas coisas que me incomodavam no longa anterior: sai o exibicionismo barato e entram cenas de ação que, por estarem devidamente integradas na trama, evitam que saltos do aviões ou a perseguições em telhados pareçam sequencias feitas só para impressionar o público com a nova loucura de Tom Cruise (Operação Valquíria).

O astro, inclusive, é uma peça extremamente importante nesse quesito das cenas de cação, porque a direção só pode se dar ao luxo de usar tantos efeitos práticos graças ao prazer que Tom tem de flertar mais com a morte a cada continuação. E ele está definitivamente disposto a se superar aqui, deixando realista até mesmo a cena mais mentirosa do planeta graças à mania de filmar o máximo possível sem dublês. Essa escolha torna cada um desses momentos de pura insanidade palpáveis, críveis, tensos e muito mais impactantes, enquanto o carisma e a presença magnética do ator tomam conta do resto, carregando o filme junto os cenários escolhidos a dedo e os ótimos coadjuvantes.

Os retornos de Simon Pegg (Heróis de Ressaca), Ving Rhames (Pulp Fiction: Tempo de Violência), Rebecca Ferguson (O Rei do Show), Sean Harris (Prometheus), Michelle Monaghan (O Dia do Atentado) e Alec Baldwin (Os Infiltrados) são muito bem-vindos, afinal todo grande herói precisa de ajudantes prontos para ajudar nas piadas e nas sequências de ação secundárias com carisma e dedicação suficientes para não perder o público. Todos eles possuem essa qualidades de sobra e roubam os holofotes de Tom uma vez ou outra ao lado dos novatos Vanessa Kirby (The Crown) e Henry Cavill (Liga da Justiça). Esse último, na verdade, chama mais a atenção da audiência por não ter medo de ser canastrão e se sujar, fazendo com que seus duelos com Tom Cruise no banheiro ou nos ares sejam, disparadamente, os melhores momentos do filme.

Momentos esses que compõem uma produção impecável que não perde o pique em nenhum instante, mexe com as emoções do espectador a cada virada de esquina e chega ao seu auge com força para ser a maior franquia de ação da história. Admito que a trama poderia ser menos simplória e o vilão melhor construído, mas tudo isso importa muito pouco quando Tom Cruise mostra que não tem limites na arte de fazer cada continuação de Missão: Impossível ser mais eletrizante que a anterior. Efeito Fallout já é definitivamente o melhor dos seis, mas chegar ao auge aqui com certeza não significa o fim. Afinal de contas, depois dessa insana viagem pelo mundo com Ethan Hunt ninguém vai poder negar que a franquia e seu astro velocista ainda possuem muito fôlego pra queimar.


OBS 1: Tenho quase certeza que esse é o melhor filme de ação que assisto no cinema desde o último Mad Max.

OBS 2: A cena do banheiro foge um pouquinho da regra da franquia por ser basicamente uma trocação franca e violenta, mas está entre as melhores coisas que o cinema de ação entregou nos últimos anos. Sem nenhuma dúvida!

OBS 3: O 3D funciona nas cenas que brincam com a vertigem, mas não é essencial…