AODISSEIA
Filmes

Midsommar: O fim de um relacionamento abusivo

Ari Aster volta a ser perturbador, desta vez no raiar do dia.


21 de setembro de 2019 - 16:48 - Tiago Soares

Angustiante. Midsommar, novo filme de Ari Aster, diretor de Hereditário, é um horror sobre traumas, relações rompidas e o medo da solidão.

 

Se em Hereditário, o diretor Ari Aster falava sobre o medo e o terror de viver, aqui parece justamente o contrário. A morte é a “vilã” do filme, e por torná-la importante e decisiva para dar rumos a sua nova produção, o cineasta encontra com o perdão do trocadilho, “seu lugar ao Sol”, em “Midsommar: O Mal Não Espera a Noite”. E por falar no longa de estreia do diretor, esqueça-o completamente. Apesar da fotografia e trilha sonora iniciais serem parecidas com o filme predecessor, Aster abandona o visual logo em seguida. Num movimento de câmera inventivo, é como se o diretor falasse ao espectador que vamos acompanhar uma nova aventura (se é que podemos chamar assim).

Na trama, Dani (Florence Pugh, de “Lady Macbeth”) não vive um bom momento em seu relacionamento com Christian (Jack Reynor, de “Sing Street”), ao mesmo tempo em que passa por uma tragédia familiar irreversível (em cena fortíssima). Um dia, ela e os amigos de Christian desejam espairecer e resolvem viajar para participar de um festival do solstício sueco. Lá encontram um culto pagão repleto de rituais um tanto quanto bizarros, que se tornam cada vez mais fortes e perturbadores, a medida que o tempo passa. Sempre pautado na realidade, é notório perceber que houve um trabalho de pesquisa absurdo, devido a riqueza de detalhes.

O cineasta guia os personagens e seu público a um lugar belíssimo, graças a direção de fotografia de Pawel Pogorzelski, figurinha carimbada nas obras de Aster. A ambientação também é auxiliada por uma trilha sonora calma, cheia de cânticos típicos do lugar. Midsommar segue uma linha contínua. Tem momentos catárticos, onde o gore e o excesso de sangue incomodam, mas não existe um momento de maior clímax, o que não chega a ser um demérito. É como se Aster quisesse que você tivesse tão dentro deste mundo, que qualquer coisa (por mais desconcertante que seja), seja encarada como algo “normal” ou até de forma jocosa.

 

O medo de ficar só

midsommar

O humor utilizado no filme, principalmente na figura de Mark (Will Poulter), é bastante provocante. Contesta toda a loucura presente no roteiro, ao mesmo tempo não atrapalha o desenvolvimento da história. Lento, Midsommar é propositalmente angustiante, pois trabalha traumas do passado e do presente, rompe relações de amor e amizade e utiliza das crenças humanas para fazer uma certa crítica a todas as religiões, entretanto não as condena. O elenco inteiro vai muito bem, mas Florence Pugh caminha entre a sensibilidade e o completo desespero. Quando chega ao lugar, é como se a personagem vivesse num relacionamento abusivo com os outros e com ela mesma há muito tempo. Naquela comunidade, encontra um lugar para chamar de seu.

As referências são inúmeras. Longe de serem gratuitas, o diretor se utiliza delas para criar uma clima atmosfericamente macabro. “O Homem de Palha” de Robin Hardy é a principal, tanto em relação ao culto e as roupas, como a luz do dia. Mas também tem “Bebê de Rosemary” de Roman Polanski, “The House of The Devil” de Ti West e surpreendentemente “O Massacre da Serra Elétrica” de Tobe Hooper. Visualmente, Aster se aproveita das substâncias alucinógenas para trabalhar a dualidade dos visitantes, assim como o terror em cada atitude questionável, causando estranhamento imediato.

Dramático, “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite” é um eterno “a curiosidade matou o gato”. Paralelo ao horror de toda a situação, vemos um filme sobre alguém que já estava sozinha há muito tempo. A dor do não-pertencimento. O medo da solidão. Inteligentemente, Aster já deixa claro o conflito da protagonista desde o início, em pequenas atitudes. Menos sutil do que se imagina, Midsommar questiona: O que é estranho pra você? Com o psicológico destruído, seja pelo desconforto ou pela completa repulsa. Dani e nós, sorrimos.