AODISSEIA
Filmes

Crítica: Midnight Special

10 de maio de 2016 - 11:00 - Tiago Soares

Até onde você iria pra salvar seu filho com poderes?


MIDNIGHT-SPECIAL-ADAM_COCKERTON_V2_WEBNo filme a resposta é simples: muito longe. A premissa de Midnight Special é enganosa, porque remete a uma aventura oitentista, quando, na verdade estamos diante de um drama tenso, de muitas camadas e gêneros distintos. De certo modo aproveitando-se da fase atual de filmes de super-heróis, acompanhamos a história de Alton, um garoto de 8 anos que desenvolve poderes especias, fazendo com que seu pai faça de tudo para protegê-lo. De início, a fuga é de apenas fanáticos religiosos extremistas e da polícia local, ganhando proporções maiores no decorrer do filme.

Alton (Jaeden Lieberher impecável, já citado em nossa coluna Fique de Olho) tem o carisma de um protagonista nato, que não pediu esses poderes, viu eles caindo de paraquedas, e os utiliza quando necessário. O filme não se preocupa em explicar de onde vieram ou pra que servem exatamente, deixando muito para a imaginação do público. O fato do garoto ter uma certa “fraqueza” e estar sempre lendo a HQ do Superman é uma decisão sábia de roteiro. O pai Roy (Michael Shannon sempre excelente) como todos os pais, não entende o que o filho é, mas está do seu lado, dando amor e proteção. A facilidade que o mesmo tem de ultrapassar limites pelo bem do garoto é admirável. Joel Edgerton é Lucas, o amigo de Roy que o ajuda nessa “aventura” e é impressionante como ele vem acumulando bons trabalhos e atuações: Joel está contido, quase não fala, mas o personagem é bondoso e tem função na narrativa, algo que não acontece com a mãe do garoto, Sarah, que tem uma Kirsten Dunst competente, mas desnecessária na trama.

Já no início do filme o clima é de tensão, ajudado pela direção com a câmera sempre no rosto dos personagens e uma fotografia escura, até nas cenas diurnas. Algo que acontece pelo menos até uma virada no roteiro, que muda essa visão do mundo. Algo genial vindo do diretor e roteirista Jeff Nichols (também citado no Fique de Olho), que mantém seu modo de trabalho monótono dos bons “O Abrigo” e “Hellion“. Logo não há pressa em avançar muito na história, o que acaba se tornando cansativo às vezes. Se o filme tivesse alguns minutos a menos, não teria sido afetado.

MIDNIGHT SPECIAL

O que não acontece nas poucas cenas de ação que são bem conduzidas, afinal estamos falando de uma perseguição frenética a um garoto com poderes. Quando Alton tem que mostrar seus poderes é um show a parte, o garoto solta uma forte luz pelos olhos e boca (já presente nos cartazes e trailer do filme), além de possuir muita energia e criar ilusões, o que rende belas cenas. Uma em particular me lembrou Super 8.

Talvez o grande “erro” de Midnight Special seja o modo como foi vendido, um filme de aventura e ficção científica. Temos um pouco de cada, mas o filme se resume no drama de um pai querendo salvar seu próprio filho, e isso é bom. Há preocupação e motivação evidente aqui, os personagens estão sempre sérios  e assustados, com raros momentos de descontração que envolvem o Agente Sevier (Adam Driver contido, nada afetado). Talvez a intenção de fato era essa, pelo menos até o fim da trama, que se torna bastante fantasiosa e ainda assim, satisfatória.


odisseia-07