AODISSEIA
Séries

Crítica: Merlí 1ª temporada

Um achado hablando español

11 de Março de 2018 - 23:34 - felipehoffmann

 

Imagine acordar num belo dia de sol e descobrir a existência de uma série que é a mescla de Malhação com Dead Poets Society, que as personagens falam catalão e que o tema principal é a filosofia. Imaginou? Pois então, essa série se chama Merlí. Chega a ser grosseiro comparar Merlí com a perseverante global e muita insensatez compará-la ao imaculado Dead Poets Society mas é a primeira coisa que vem à mente quando se lê a sinopse do seriado:

É uma série de televisão sobre um professor de filosofia homônimo que, usando alguns métodos pouco ortodoxos, incentiva seus alunos a pensar livremente, dividindo as opiniões de alunos, professores e famílias.

Ironias a parte, a série é uma pérola escondida. A atração catalã produzida pela TV3 e exibida pela Netflix na América Latina e Estados Unidos estreou em 2015 e já está em sua segunda temporada.

 

 

Escrita e criada por Héctor Lozano, a comédia dramática se inicia com o professor de filosofia Merlí Bergeron (Francesc Orella) que, desempregado, passa a morar com sua mãe, Carmina (Ana Barbany), após ser despejado de seu apartamento e ainda recebe a notícia de que terá de criar seu filho adolescente Bruno (David Solans), já que sua ex-esposa se mudara para a Itália. Merlí consegue um emprego na escola onde seu filho estuda e logo de cara desperta o fascínio dos alunos, causando desconforto entre os professores, pois se utiliza de métodos não ortodoxos e moralmente questionáveis.

Os personagens de Merlí são enquadrados em vários arquétipos clássico-sociais. O gay, o mulherengo, a rebelde, o nerd e por aí vai. Mas o ponto chave é que a série parte de estereótipos, mas ninguém se
mantém neles. O personagem principal é mostrado como malandro, com tendência a rejeitar regras e quase sempre o mais esperto, que inspira e cativa seus alunos ao mesmo tempo em que não passa de um egocêntrico, um devasso aos costumes morais.

Todos estão a par de egoísmos e altruísmos. Não se trata de uma caminhada rumo à iluminação, ao nirvana, ao suprassumo intelectual em que os alunos estão sujeitos às aulas de filosofia, e sim os impasses levantados pelas aulas no drama das personagens.

Cada episódio de Merlí leva o nome de um filósofo ou uma escola filosófica, contudo, os temas não são
aprofundados a nível acadêmico, mas são zelados no nível da reflexão cotidiana. Os alunos tem uma relação com o que vivem e aprendem nas aulas, guiando suas ações e diálogos ao decorrer da história.

 

 

Já o enredo sempre tem três planos entre os episódios. O principal, que prossegue Merlí e suas
peripécias, a dos alunos e seus atos consequentes das epifanias nas aulas e a dos pais e professores que de alguma forma são atingidos pelas ações indiretas e diretas de Merlí. De uma forma ou de outra o professor está sempre relacionado aos conflitos.

Quase todas as cenas há uma iluminação natural, normalmente através de grandes janelas que
entram no misancene. O espectador pode entender de duas formas. Seria Merlí a janela, a receptividade e abertura para as influências vindas de fora? A luz e o lampejo da consciência? Em contrapartida o ambiente onde mora, na casa de sua mãe, é escuro, pacato apesar de grande. A fotografia é mais cinza como se fosse os bastidores de um teatro, contrapondo com a ideia de que ali Merlí é só mais um qualquer. Vale frisar também o figurino e o tom conservador quando a sala dos professores é mostrada, regada a tons pastéis e frios. Outro fator interessante é que em quase todos os episódios Merlí está em contato, de alguma forma ou de outra, com seu pôster de Nietzsche, enfatizando a índole niilista do protagonista.

Merlí é uma série que provoca, brinca com nossos preconceitos e concepções, retrata as objeções da vida por uma perspectiva filosófica, critica o obsoleto e arcaico sistema de ensino e fere as entranhas das relações de poder. Tudo isso com uma excelente dose de comédia e ironia, com uma pitada de drama e atuações bem temperadas.


Nota: Esse texto é originalmente uma obra acadêmica do aluno William Caldeira, estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Espírito Santo. Com seu consentimento, o texto foi alterado para adaptação ao site e editado, retirando alguns possíveis spoilers da série.