AODISSEIA
Filmes

Crítica: Me Chame Pelo Seu Nome

A sensível descoberta da sexualidade.

9 de fevereiro de 2018 - 00:33 - Tiago Soares

Chega uma fase na nossa vida em que pensamos: O que de fato nós somos? Até hoje, seja num âmbito profissional ou acadêmico, sempre vivemos nos questionando sobre nossas escolhas pessoais, por mais simples que sejam. Me Chame Pelo Seu Nome é um filme de escolhas, na maioria delas sensíveis, sejam esteticamente, textualmente ou emocionalmente falando.

O filme de Luca Guadagnino, baseado no livro de André Aciman, conta a história de Elio, um jovem que vive um entediante verão na Itália, até que a visita de um amigo de seu pai chamado Oliver, mexe com seus sentimentos, fazendo-o questionar quem de fato ele é e o que sente. O filme, muitas vezes comparado com Moonlight, é bem mais simples no quesito “temas abordados”.

Na trama do ano passado acompanhamos a história de Little/Chiron/Black em todas as facetas, sejam elas sociais, raciais e sexuais. Aqui a questão é bem mais “simples” por falta de palavra melhor. Repleto de camadas, Lucca aborda uma crise de identidade que pode ser confundida como “forçada”, mas que acontece naturalmente a cada movimento.

Elio começa a se afeiçoar a Oliver e tem dúvida se ele sente o mesmo. Quando acontece ele pergunta: “Porque perdemos tanto tempo?” Não seria essa a síntese de todo pré-relacionamento, seja ele homoafetivo ou não? Elio se envolve com uma amiga e posteriormente com Oliver mas a questão não é apenas de escolha, mas sim de entender a própria sexualidade.

Num dado momento Elio fica com a garota e Oliver num pouco intervalo de tempo e está se masturbando entre um instante e outro, a ponto de se perguntar sobre sua própria sanidade. Em sua idade isso seria perfeitamente normal, mas é aí que mora o questionamento e as contantes indagações sobre o sentir, o viver e o ser.

Timothée Chalamet é um achado. O jovem de apenas 24 anos se entrega totalmente em uma atuação sóbria e vigorosa, valendo sua indicação ao prêmio máximo da Academia, enquanto Armie Hammer não vejo muito da linha sedutora e misteriosa de papéis anteriores, embora traga um pouco mais de ponderação ao seu Oliver. Meu destaque fica com o pai de Elio vivido por Michael Stuhlbarg, que merecia uma indicação a coadjuvante.

O ator começa tímido, mas seu monólogo próximo do fim é um dos melhores diálogos entre pai e filho já vistos no cinema recente. A cumplicidade e condescendência em que aborda um assunto tão delicado emociona em grande parte pelos atores, o belo texto de James Ivory e a direção de Luca, que apesar de começar de forma lenta, ganha força na hora final.

Não estou falando aqui de lentidão narrativa. Sei da necessidade de se apresentar os personagens no início para que possamos nos afeiçoar a eles, mas a ausência de conflito – por menor que seja – é um problema na primeira parte da produção. Dito isso, Me Chame Pelo Seu Nome não é um filme perfeito, mas encontra sua força na virtude de suas intenções e realizações.