0

Os grandes dilemas da vida de um mascote


68s7tkjtuskspfalhixu8bq93qyUfa… Eu mal publiquei a crítica de The Siege of Jadotville e já estou aqui escrevendo sobre Mascots, aproveitando que a Netflix está realmente investindo no seu conteúdo próprio. É uma quantidade absurda de material que preenche quase todos os finais de semana e permite que uma enorme variedade conceitos sejam aproveitados. Considerando que esse cardápio vai de Adam Sandler até dramas de guerra super emotivos, pode ser importante dizer que, por enquanto, nenhuma ideia é tão bizarra quanto a desse novo filme.

Isso não é necessariamente ruim, mas também não torna menos inusitada a ideia de explorar os bastidores do universo dos mascotes esportivos. O desenvolvimento da trama não faz nada para mudar essas expectativas, já que o longa usa a produção de um documentário falso para contar as histórias de pessoas do mundo inteiro que se reúnem anualmente em uma competição voltada para a apresentação dessa arte perdida.

O resultado dessa mistura é inexplicável, mas efetivo para quem gosta de um humor que se equilibra entre a idiotice e a sutileza das comédias britânicas. O motivo é que o roteiro de Christopher Guest e Jim Piddock apela para a simplicidade e aparenta ser extremamente bobo, enquanto o seu verdadeiro foco está em tirar sarro dos absurdos da sua própria situação. Grande parte das piadas acabam sendo voltadas para o público americano pela força cultural que os mascotes tem lá, mas o longa também investe tempo em gags inteligentes e universais que vão de um velório para mascotes idosos até a representação histórica dessa arte nos hieróglifos egípcios.

Mesmo assim, a grande força do filme continua sendo os protagonistas estereotipados e excêntricos que guiam o espectador através das próprias entrevistas. A maior parte deles possui carisma suficiente para prender nossa atenção durante o desenrolar relativamente lento da trama e até conquistar alguma torcida durante o evento final, apesar do vencedor do concurso ser bem óbvio. Claro que a presença de um elenco estrelar e hilário ajuda bastante, destacando as participações de Zach Woods (Silicon Valley), Sarah Baker (Go On), Tom Bennett (Amor & Amizade), Chris O’Dowd (Um Santo Vizinho), John Michael Higgins (Community), Ed Begley Jr. (Better Call Saul), Jane Lynch (Glee), Fred Willard (Tudo Por um Furo) e Bob Balaban (O Grande Hotel Budapeste).

netflix-mascots-trailer-002-1280x720

No entanto, eu acredito que o filme seja muito prejudicado pela sua própria escolha estilística, porque isso o deixa completamente engessado em um formato batido e amplamente utilizado no cinema e na televisão. Até existem algumas piadas que dependem dessa técnica para funcionar, mas no geral o que sobra é um monte de entrevistas – muitas vezes longas demais – que cansam, passam a impressão errada e não conseguem enganar o espectador como This Is Spinal Tap fez na década de 80. O fato é que essa grande comédia, que também foi escrita por Christopher Guest, marcou época porque soube tirar proveito da crença do espectador para arrancar ainda mais risadas.

A grande quantidade de mockumentaries produzidos inibe essa “crença” e deixa o longa preso na casca de um documentário tradicional, chegando assim muito perto de se autossabotar. Apesar disso, seria muito injusto dizer que eu não gostei do filme. Todas situações em torno do evento acabaram sendo hilárias, a maioria das piadas funcionam e a projeção como um todo não demora tanto assim pra passar, entretanto eu mantenho o aviso de que o riso é algo muito pessoal. Mascots é bom, mas depende de algum desprendimento da realidade e um senso de humor no mínimo excêntrico para ser aproveitado.


OBS 1: Para efeito de curiosidade, o Fantástico do último domingo exibiu uma reportagem sobre um desconhecido e inusitado concurso de ventriloquismo. Por ironia do destino, a reportagem foi ao ar enquanto esse texto estava sendo escrito. Não significa nada, mas foi engraçado e interessante.


odisseia-08

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

Assassino à Preço Fixo 2 – A Ressurreição

Previous article

O Contador

Next article

You may also like

Comments

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Séries