AODISSEIA
Filmes

Crítica: Maria Madalena

Um novo e ótimo ponto de vista para a história mais antiga do mundo

20 de março de 2018 - 02:46 - Flávio Pizzol

Eu já devo ter usado essa introdução em alguma crítica desse site, mas vou reciclar meu discurso para falar sobre os grandes épicos bíblicos que marcaram o cinema. O gênero foi um dos carros-chefe de Hollywood até a década de 60 e, independente de religião, resultou em alguns filmes que marcaram época, como Ben-Hur (o de 1959, lógico) e Os Dez Mandamentos. O sucesso dessas produções de escala gigantesca não é mais o mesmo, então vale a pena esperar por um filme que renova o gênero ao mudar os pontos de vista e abrir mão dos elementos fantásticos para construir um belo conto sobre a humanidade. Esse é Maria Madalena!

Como o próprio nome indica, a trama mostra Maria Madalena e as mudanças que acontecem na sua vida após a decisão de seguir Jesus Cristo em suas peregrinações. Nesse caso, o roteiro de Helen Edmundson (An Inspector Calls) e Philippa Goslett (How to Talk to Girls at Parties) acompanha a transição de pescadora a frente do seu tempo e que, logicamente, não conseguia encontrar um lugar no mundo patriarcal que dominava a época para a principal testemunha ocular dos milagres e ensinamentos do Filho de Deus.

A personagem, que por muito tempo foi falsamente tratada como prostituta pela Igreja Católica, é definitivamente a protagonista do projeto e as roteiristas usam isso a seu favor. Mais do que isso, a maneira como Helen e Philippa usam esse diferencial para dar estofo ao longa é uma das coisas que mais me chamam atenção no longa. Elas preenchem as duas horas de exibição com críticas a sociedade predominante naquele período histórico, discussões sobre o papel da mulher que poderiam tranquilamente se passar nos dias de hoje e, acima de tudo, encontram maneiras novas – e inclusivas – de apresentar uma história que, querendo ou não, sempre foi narrada por homens europeus brancos. Além disso, o fato de assistirmos o que Maria Madalena presenciou é a “desculpa” que o filme precisava para substituir as repetitivas adaptações do nascimento de Jesus, a negação de Pedro, seu diálogo com Pilatos e a crucificação por momentos que humanizam e complementam a história de outros personagens.

É justamente dentro dessa aspecto que está aquele que seria, na minha humilde opinião, o segundo grande acerto do roteiro: o bom uso da licença poética como uma ferramenta narrativa que ajuda o filme a crescer. A Bíblia não é o melhor exemplo de livro quando o assunto é descrição de espaço, tempo e personagens, então o longa ganha alguns pontos quando usa a criatividade, o bom senso e talvez algumas escrituras apócrifas (aqueles textos que não fazem parte do cânone criado pela Igreja) para construir uma adaptação mais completa. Dentro disso, as roteiristas juntam acontecimentos para construir motivações críveis, agilizam a trama quando se faz necessário, modernizam diálogos para ajudar na transmissão da mensagem e criam backgrounds que complementam e humanizam alguns personagens.

Destaque para a maneira como o ciúme de Pedro e sua relação com Maria Madalena influenciam suas escolhas ou para todo o arco de crença, descrença e traição que acompanha Judas até sua morte. Esse último, apesar de contar com uma queda de fé um tanto quanto brusca, ajuda a “justificar” o que levaria uma pessoa a seguir Jesus por tanto tempo e decidir o trair após o chacoalhar de algumas moedas sem valor. Ainda que seja impossível dizer que isso ou aquilo seja verdade, eu, como católico, preciso admitir que sempre tive dificuldades para comprar a troca de lados do discípulo e gostei da maneira como as escolhas do texto de Helen e Philippa funcionam narrativamente.

Acompanha a boa qualidade do roteiro, a direção de Garth Davis (Lion: Uma Jornada Para Casa) merece ser aplaudida de pé. A maneira como ele filma os cenários desérticos que já são majestosos por conta própria, os planos centralizados de Jesus em cenas-chave, a alternância entre planos abertos e fechados como uma ferramenta para criar sensações, a construção de paralelos visuais cheios de significado – tem um momento que iguala a morte de Jesus e o sacrifício de um cordeiro de maneira magnífica – e a sensibilidade com a qual sua câmera se aproxima dos atores com o objetivo de capturar as emoções mais sutis. Tudo funciona e se encaixa perfeitamente com a proposta mais singela do longa.

No entanto, um filme nunca consegue sair do papel sem trabalho em equipe. A direção de arte é peça decisiva na inserção do espectador na época, e escolha eclética de elenco ajuda a transmitir uma realidade histórica que comunga com a proposta do longa, a trilha sonora (que conta com a colaboração do recém-falecido Jóhann Jóhannsson) dita o tom épico sem soar aventuresca demais e a beleza da fotografia de Greig Fraser (Rogue One: Uma História Star Wars) não pode ser descrita com palavras. Ele se esforça para filmar tudo com a luz mais natural possível, coloca sua identidade na escolha dos enquadramentos e, ao lado de Garth Davis, entrega momentos visuais de puro brilhantismo. A crucificação de Jesus e a posterior chegada de Maria Madalena ao local em um plano contraluz que os transforma em um só estão presos na minha cabeça desde a saída da sessão.

Rooney Mara (do brilhante e pouco conhecido A Ghost Story) constrói sua Maria Madalena, à primeira vista, a partir do desconforto que surge em uma personagem deslocada de sua sociedade, mas evolui isso para um olhar apaixonado que exala fé, solidariedade e, logicamente, amor. São emoções genuínas que casam perfeitamente com uma interpretação de Jesus que foge do senso comum em relação à personalidade. É interessante como Joaquin Phoenix (Ela) decide apoiar sua versão “hipster” do Filho de Deus na dor do personagem, aproveitando suas reações a cada cura como forma de humanização e insistindo certeiramente naquele olhar doloroso de quem já sabe seu destino.

Estamos diante de alguém que, mesmo sendo santo, precisa aceitar que vai morrer para salvar os homens e Phoenix encontra o tom desse sentimento com perfeição, principalmente quando está contracenando com a própria Maria Madalena, Pedro e Judas. Falando neles, Chiwetel Ejiofor (Doutor Estranho) transmite as emoções controversas de Pedro com muita facilidade, enquanto o pouco conhecido Tahar Rahim (Samba) rouba os holofotes com as dúvidas de Judas. Inclusive, este último possui uma cena de diálogo com Jesus que representa seu ponto de virada ao mesmo tempo em resume o trabalho de Phoenix como Jesus quando deixa claro, nos detalhes corporais, que ele tem plena consciência de que precisa fazer seu discípulo sofrer para que o destino se concretize.

Não posso negar que o filme peca um pouco no ritmo (ele fica em cima da linha tênue que separa o lento do arrastado) e sofre com a ausência de um clímax levemente mais impactante, entretanto também tenho plena noção de que ambos os aspectos fazem sentido dentro da proposta narrativa escolhida. É um filme muito bonito e contemplativo que vai acabar encontrando mais conforto nos braços de cristãos e católicos, mas sua mensagem de amor, paz, simplicidade e perdão pregada por Maria Madalena é – ou, pelo menos, deveria ser – universal.


OBS 1: Entendo que o fato de ser católico pode influenciar minha análise, mas o fato de odiar quase todos os filmes religiosos que costumam fazer sucesso garante que Maria Madalena é diferente e merece ao menos ser conferido.

OBS 2: Apesar de não mudar minha conclusão, preciso avisar que não são todos os cristãos e católicos que vão curtir o longa. a maneira como Maria Madalena foi tratada pela Igreja como instituição ainda está enraizada na visão de muita gente e essa parcela deve ter alguns problemas para aceitar a versão do longa, apesar de sua essência ser retirada dos textos oficiais.