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Séries

Crítica: Maniac é a Netflix em sua melhor forma

Criatividade e loucura juntas em uma das melhores séries do ano.

26 de setembro de 2018 - 15:09 - Flávio Pizzol

Quem acompanha o site provavelmente vai notar que muitos dos nossos textos começam falando da memória, da percepção da realidade ou de alguma investigação cinematográfica – geralmente louca – pela mente humana. E, sim, eu sei que pode ser repetitivo bater na mesma tecla outra vez, mas sou obrigado a fazê-lo quando Maniac se mostra como mais um exemplar dessa mesma premissa. A diferença da nova minissérie (até que se prove o contrário) da Netflix está no fato de que utilizar o mesmo ponto de partida passa longe de ser um problema quando seus ingredientes principais são grandes nomes da indústria, a liberdade oferecida pelo streaming e muita criatividade.

A trama, mantida em total segredo durante a campanha de divulgação, acompanha dois jovens com supostos problemas mentais que decidem participar de um teste para um droga que curaria qualquer coisa em três dias. Uma ideia comum que a criação de Cary Joji Fukunaga (True Detective) e Patrick Somerville (The Leftovers) consegue subverter quando entra – literalmente – em uma viagem profunda, surtada e cheia de mistérios pela mente de protagonistas, coadjuvantes e até mesmo de um computador sofrendo com o luto.

É uma mistura bastante curiosa e extravagante que se reflete em cada canto de uma série que anseia em ser diferente da maioria das coisas que já foram produzidas pela Netflix. No entanto, Maniac não chega chutando a porta e entender a dinâmica da série acaba sendo um exercício primordial para extrair o máximo dessa experiência dividida em dez episódios com as mais diversas durações. E digo isso com total clareza, porque encarar os dois primeiros episódios pode ser algo, no mínimo, inesperado para quem esperava algo colorido e pirado que seguisse a pegada de uma Legion da vida.

Maniac anseia por ser um produto mais amarrado e cinematográfico que a maior parte das produções originais da Netflix e coloca esses objetivos na mesa quando escolhe, conscientemente, fazer episódios de estréia que exploram os dilemas familiares e motivações de cada um dos protagonistas com toda a calma e minúcia necessárias. Essa decisão acaba resultando em um começo de temporada um tanto quanto arrastado e confuso que só revela sua importância lá na frente. Afinal, como eu disse, uma de suas pretensões é ser um desses projetos condensados que podem ser classificados com um grande filme dividido em blocos. Dessa forma, esses dois primeiros episódios se uniriam ao terceiro para tornar-se algo próximo de um primeiro ato.

É só depois dessa introdução que o roteiro começa a mostrar suas garrinhas, ganhar ritmo e entregar seu desenvolvimento multifacetado que parte de uma mistura criativa de gêneros e referências para retratar a loucura da mente humana. Assim o texto vai conduzindo o espectador por universos que atravessam a ficção científica oitentista (a “realidade”), as comédias de humor negro que usam o subúrbio como plano de fundo, os filmes de assalto, certos recortes da máfia dignos de Scorcese, os longas de espionagem e até mesmo produções medievais, enquanto descasca uma “cebola narrativa” que se apropria de vários elementos familiares que são apresentados nos primeiros episódios para revelar mais e mais sobre os traumas de cada peça do tabuleiro.

Pode parecer complexo no papel, mas a realidade se mostra diferente por um simples motivo: o começo supostamente incômodo acaba, acima de tudo, sendo decisivo na construção da empatia entre Annie, Owen e o espectador, tornando-se então peça fundamental na hora de seguir em frente, compreender cada elemento bem posicionado e até mesmo ignorar certas coincidências que incomodariam bastante em uma produção que não conseguisse prender a atenção da audiência. Afinal, a verdade é que Maniac é um quebra-cabeça que depende, entre tantas coisas, dessa torcida criada pelo público (antes mesmo de um objetivo ser estabelecido) justamente para dar voz e usar seus protagonistas como guias de uma viagem que poderia sim ficar enrolada em sua própria criatividade sem esse artifício.

A sacada funciona, mas por sorte passa longe de ser a única boa ideia de uma minissérie que ainda guarda muitos truques nas mangas da direção. Cary Fukunaga (que, além de criador, roteirista e produtor, é o diretor de todos os episódios) sabe exatamente como contar a história dessa dupla improvável que fica presa em uma jornada de autodescoberta mental e usa todo o conhecimento adquirido durante sua filmografia para juntar elementos que fogem exclusivamente das estratégias propostas pelo roteiro. Em outras palavras, ele é o responsável por usar direção de arte, cabelo, maquiagem e tudo mais para dar credibilidade ao futuro velho e solitário em que a série se passa, lembrando ainda de dosar certos elementos fantásticos que incluem desde um computador falante que precisa de uma psicóloga até um capítulo perdido e mágico de Dom Quixote. E, por mais que todas essas loucuras e mundos citados recebam o mesmo cuidado, esse primeiro merece mais atenção por ser o ponto onde os traumas dos protagonistas nasceram, se enraizaram e vão encontrar alguma resolução quando tudo se encaixar.

Entretanto, isso não significa que a direção ficou presa nesse ponto que necessitava de foco. Maniac permitiu que Fukunaga se soltasse, aproveitasse vários elementos que estão se tornando sua marca e deixasse a criatividade comandar o flerte com tantas linguagens diferentes, criando um show visual completamente novo a cada parada. A realidade, por exemplo, possui cenários quadrados e simétricos que lembram boa parte da filmografia de Wes Anderson. No entanto, o episódio do lêmure (que é genial, por sinal) tem outra pegada, o do golpe na mansão caminha por escolhas estéticas inéditas e por aí vai. São tantas particularidades que a direção pode passar, sem medo, da violência exagerada e tarantinesca que brilha na passagem da máfia para um ousado plano-sequência no meio de um tiroteio – bem na vibe de True Detective – durante a fuga dos espiões. É uma liberdade criativa que ajuda em duas missões: dar força pra proposta de explorar a mente e manter a atenção do espectador.

E, pra finalizar, o elenco super estrelado entra como a cereja de um bolo que, como já foi dito, depende muito de seus personagens para se sustentar. Jonah Hill (Anjos da Lei 2) comprova – mais uma vez – seu talento de indicado ao Oscar ao alternar, com versatilidade, entre um personagem sóbrio na realidade e personas mais caricatas e até mesmo enraizadas na comédia nas viagens mentais. Emma Stone (La La Land), por sua vez, demonstra ter a mesma facilidade de transitar por tipos diferentes, porém recebe mais destaque graças a construção de uma personagem forte que se torna a dona dos momentos mais emotivos de Maniac. E, mesmo que os donos da festa tomem conta de tudo, ainda sobra um pouquinho de espaço para Justin Theroux (The Leftovers)Sally Field (Uma Babá Quase Perfeita), Billy Magnussen (A Noite do Jogo),  Julia Garner (The Americans), Gabriel Byrne (Hereditário) e Sonoya Mizuno (Ex_Machina: Instinto Artificial) roubarem os holofotes com coadjuvantes importantes pro contexto geral.

O resultado da união de todas essas loucuras que eu tentei descrever sem me embolar é um combo incrivelmente cinematográfico e criativo que reúne estilos, propostas e ideias de um jeito inovador. Preciso admitir que às vezes esse conjunto fica maçante ou confuso (exigindo que o espectador fique muito atento), porém não se pode ficar muito tempo preso nessa zona quando seu maior trunfo é ser mais que a junção de referências que compõe nossa mente. Maniac encontra muita força e diversão nesse aspecto, mas cresce de verdade porque ainda apresenta uma história bem montada cuja mensagem final possui uma simplicidade inesperada, uma direção cheia de identidade e atuações que seriam dignas de uma indicação ao Oscar, caso não estivessem restrita a um formato diferente. É certamente um dos melhores e mais insanos produtos originais da Netflix!


OBS 1: Vida longa a essa dupla incrível que nasceu em Superbad!