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A nova cinebiografia de Nelson Mandela ganhou uma adição emocional gerada pela morte do ícone da luta contra o racismo. Entretanto, o filme sobre a sua vida é instável e só merece ser assistido pelo biografado.

Obviamente, o filme segue a vida de Nelson Mandela, começando na sua infância, com algumas pinceladas, passando pelo inicio da sua luta e finalizando com sua libertação e posterior vitória nas eleições.

Não posso dizer que o roteiro é ruim, por que o autor, William Nicholson, faz o possível para resumir 60 anos de história em duas horas e meia de filme. Seria melhor se Peter Jackson dirigisse o filme e resolvesse transformá-lo em uma trilogia.

Essa dificuldade cria um problema na construção do filme. Muitos acontecimentos importantes são deixados de lado ou são mostrados com uma velocidade que torna a cena desnecessária.

Um exemplo é a infância de Madiba, que é construída através de relances inconstantes. Essa parte poderia ser facilmente retirada para dar espaço a fatos mais interessantes como o começo da luta de Mandela, que também é mostrada de maneira unidimensional e rápida.

Outro problema relacionado a grande quantidade de acontecimentos dentro do filme são os saltos temporais que não são nem um pouco sutis e deixam as cenas desconexas. Isso deixa o filme mais difícil de ser acompanhado.

A primeira hora do filme é recheada com esses problemas e a situação só melhora depois do julgamento que condena Nelson e seus companheiros à prisão perpétua. A partir desse ponto, o filme passa a ser conduzido de maneira acertada e ganha em conexão e emoção.

Esses problemas são reflexos do trabalho do instável Justin Chadwick, que já dirigiu o filme A Outra (2008), com Scarlett Johansson. Parece que o diretor sempre resolve focar nos fatos errados e quando está no lugar certo corre de medo. Senti falta de o filme ter trabalhado um pouco mais o fato de Mandela não ser totalmente pacifista, já que ele ordena diversos atentados violentos.

Mesmo que esse ponto de vista da vida de Nelson não seja bem trabalhado, as cenas de manifestações e os confrontos com a polícia são chocantes e emocionantes, sendo as mais bem dirigidas.

Ainda que o filme seja tremendamente instável, seu terceiro ato – e um pouco da parte da prisão – é muito bem conduzido, emocionando e tocando o público da maneira correta.

As atuações são a melhor coisa do filme, mas não escapam de criticas. Muitos personagens importantes são unidimensionais demais e não evoluem da maneira correta, inclusive Winnie, a mulher de Nelson  e peça importante da sua luta.

O foco acaba ficando só sobre Idris Elba, que não decepciona, mesmo com sua maquiagem estranha e travada nos últimos momentos do filme. Seu carisma e a força de sua atuação ajudam a compor a personalidade de um ícone querido no mundo inteiro.

Naomie Harris, que faz Winnie, não envelhece e aparenta ter 30 anos quando tem 65, mas não decepciona. Podemos dizer que ela faz milagre, já que tem em mãos um personagem importante que foi muito mal escrito. Harris salva a transposição de Winnie para as telas.

Mesmo com uma condução estranha, falhas históricas e um roteiro atrapalhado, as atuações e a força do ícone criado em torno de Nelson Mandela seguram o filme e emocionam o público. Um longa que merece ser assistido por causa do biografado e não por si mesmo.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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