AODISSEIA
Filmes

Crítica: Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo

Uma sequência cheia de romance, emoção e ABBA

7 de agosto de 2018 - 13:46 - Flávio Pizzol

Para o ódio de muitos, já vou começar esse texto tirando o elefante da sala: não sou um grande fã do primeiro Mamma Mia. Ele tem energia, tem um elenco carismático e músicas muito boas, mas não tem a criatividade e a força necessárias para quebrar a barreira que eu tenho com musicais. A continuação – chamada Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo por causa do clássico refrão do ABBA – segue o mesmo caminho e não consegue convencer com uma grande obra cinematográfica, mas ao menos ganhou pontos por construir um elo mais emocional com esse pobre cinéfilo que vos escreve.

A trama simples e óbvia acompanha, paralelamente, as tentativas de Sophie de reinaugurar o hotel em homenagem à sua mãe e a primeira visita de Donna a ilha grega onde toda a trama se passa. Assim, nessa vibe meio O Poderoso Chefão II, o longa cria uma continuação direta para o primeiro longa, enquanto relembra as histórias já contadas pela protagonista com mais detalhes e emoções. É uma ideia interessante que, no papel, acaba gerando confusão e passando longe do resultado alcançado por Coppola no seu épico sobre a máfia.

E isso acontece, principalmente, porque a trama do presente é completamente vazia durante a maior parte do tempo, sentindo falta de uma personalidade mais forte e magnética como Meryl Streep (The Post – A Guerra Secreta) e tendo muitas dificuldades para convencer o público de sua necessidade. Algo que fica ainda mais perceptível quando se nota que a protagonista – sem nenhum objetivo ou risco palpável em mãos – só fica correndo de um lado pro outro, sofrendo com a ausência de alguém e reclamando.

Era muito mais fácil, na minha opinião, o filme assumir sua vontade de ser um prelúdio e apostar mais fichas em uma viagem pelo passado que tem energia suficiente para ganhar até mesmo aquele espectador que já sabe tudo o que aconteceu no período retratado. A nostalgia funciona com uma precisão assustadora aqui ao passo em que a produção ainda ganha alguns pontos com o escolha perfeita de uma Lily James (Em Ritmo de Fuga) que, apesar de não ter a presença de cena de Meryl, coloca o filme nas costas e usa o seu carisma infinito para carregá-lo até o ótimo final sobre o qual ainda vou comentar daqui a pouco.

É claro que esse carisma – que já era uma das melhores coisas do primeiro filme – também marca presença nos trabalhos de Amanda Seyfried (Querido John), Dominic Cooper (Preacher), Julie Walters (Brooklyn), Christine Baranski (The Good Fight), Pierce Brosnan (O Estrangeiro), Colin Firth (O Discurso do Rei) e Stellan Skarsgård (Borg vs McEnroe), mas eles tem pouco pra fazer e acabam esbarrando na falta de novidades disponibilizadas por uma direção que está claramente mais interessada pelo antigo. Pode até ser suficiente para um filme que abraça o cafona a cada esquina, porém, enquanto um lado investe toda sua capacidade de mexer com o público em pequenas aparições de Cher e da própria Streep, o passado revela que pode ser muito divertido ver os pouco conhecidos Alexa Davies (Harlots), Jessica Keenan Wynn (Billions), Hugh Skinner (Os Miseráveis), Josh Dylan (Aliados) e Jeremy Irvine (Cavalo de Guerra) interpretarem versões mais novas dos personagens já conhecidos com todos os seus trejeitos pré-estabelecidos.

É uma pena que, além dessas dificuldades impostas pelo roteiro, o filme sofra bastante com a direção pouco inventiva e inexperiente do próprio roteirista Ol Parker (Agora e Para Sempre). Os números musicais demoram pra atingir a grandiosidade necessária pra chamar a atenção, os momentos mais singelos que povoam a primeira hora da produção sofrem com a ausência de emoção, e a edição truncada e cheia de transições mal programas deixa tudo desconexo. Mesmo tendo as ótimas músicas do ABBA à sua disposição, Parker parece estar em uma constante indecisão de como extrair o máximo de emoção e energia daquele contexto.

Ele demora para se encontrar e parte da culpa também pode ser depositada no roteiro, já que a metade inicial de Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo é extremamente bagunçada e desconexa dentro os períodos temporais e entre eles. Por sorte, ambos conseguem se acertar a tempo de finalmente conectar as tramas de verdade, acertar em cheio no clímax e salvar a experiência nos últimos quinze minutos de jogo. Apesar de bastante batida, a sequência do batismo chegou muito perto de arrancar algumas lágrimas e justamente por isso deixou aquela sensação de que o longa podia ter investido numa história mais enxuta e certeira desde o começo. Uma verdade inconveniente e incontestável que, graças a Deus, é muito bem substituída pela ilusão e alegria transmitidas pelo estrondoso número musical de Super Trouper conduzido pelo elenco completo. E aí vamos ser sinceros: independente dos problemas do filme, se você for fã do ABBA, é só aproveitar o ritmo do tamborim e sair dançando da sala…