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Com uma junção de gêneros necessários para uma cinebiografia, filme empolga e mostra evolução de Afonso Poyart.


Ao sair da sessão de Mais Forte Que o Mundo A História de José Aldo, um casal comentava “Filme nacional bom é assim, 1 em 1 milhão”. O casal não perde a razão, já que, 1 milhão de porcarias são produzidas todo ano. É claro que há o trigo no meio do joio e muita coisa boa, que não chega ao mainstream é produzida e vemos a ascensão de muitos diretores que possuem talento, mas pouco recurso. Felizmente Afonso Poyart do bom 2 Coelhos e do médio filme de estúdio americano, Presságios de um Crime, tem os dois. O diretor já possui assinatura e faz um bom filme.

É interessante ver a evolução de Poyart, que abusa da câmera lenta, da ofuscação, sempre filmando o protagonista de baixo para cima e conforme ele evolui a câmera se projeta em sua posição. Temos aqui a cinebiografia de José Aldo da Silva Oliveira Júnior, lutador brasileiro de MMA e ex-campeão mundial da categoria peso-pena do UFC, que permaneceu invicto por 10 anos. Da infância e vida difícil em Manaus, até a chegada ao Rio de Janeiro, o envolvimento com sua mulher e o sucesso.

É incrível ver o trabalho de fotografia de Carlos André Zalasik, repetindo a parceria de 2 Coelhos com Poyart. A escuridão e as cores amareladas, evidenciam que o primeiro ato começa tímido, sem pretensão igual seu protagonista. José Loreto entrega a melhor atuação de sua carreira, e se entrega. Escalado no lugar de Malvino Salvador, Loreto parece uma escolha acertada, já que é melhor ator e tem competência tanto nas cenas de luta, como nas dramáticas. Vive em constante conflito com seu pai José vivido por um ótimo Jackson Antunes, e em total preocupação com sua mãe Rocilene, a competente Claudia Ohana.

Além disso vive um relação amorosa com seu primeiro amor Luiza (a linda Paloma Bernardi) e convive com um dos maiores acertos do filme, que se torna um erro depois pelo excesso, na figura do amigo Fernandinho do excelente Rômulo Neto. Personificar o mal é sempre difícil, e Poyart opta por deixar a figura do amigo/inimigo caricata, Fernandinho está em todos os momentos em que o protagonista passa por dificuldades e crises de identidade. A inclusão de Rômulo em cenas que não esperamos sua presença é bem vinda, sem falar em sua atuação sempre explosiva. Mas como dito anteriormente, usada em excesso acaba se tornando piegas demais.

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Exagero que é necessário nas cenas de luta que envolvem o filme, Poyart sabe filmar ação, isso é fato, e consegue deixar tudo grandioso, inclusive uma briga de bar ou durante uma tempestade sem ninguém assistindo, além de nós. Nas cenas do octógono, utiliza planos abertos e câmera girando ao redor do mesmo, para depois cortar para planos fechados no rosto dos lutadores, ressaltando a mudança de ângulo das câmeras, além dos giros em 180º e 45º.

É interessante notar que o filme muda completamente quando vai para o Rio, a fotografia se torna mais clara e cheia de vida, a trilha sonora que era manauara, torna-se carioca da gema, mas não se perde na intensidade. Trilha essa que foi uma das responsáveis por gerar meu interesse já no trailer, na versão de Everybody Wants To Rule The World da cantora Lorde. A ausência da trilha nas cenas de luta no octógono, prezando pela concentração dos lutadores e apenas com os gritos da plateia, também se destaca.

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No Rio, a química com o amigo Loro (o engraçado Rafinha Bastos), o envolvimento amoroso com a futura esposa Vivi (a linda e esforçada Cléo Pires) e o primeiro técnico Dedé (na figura autoritária de Milhem Cortaz), dão ao filme ares de comédia, romance e drama. Tornando-o uma cinebiografia de fato, afinal, na vida esses três gêneros estão sempre presentes. As montagens de treinamento e os primeiros empregos de Aldo na chegada a cidade, com câmeras colocadas em lugares impensáveis à la Breaking Bad são muito bem realizados.

A montagem de Lucas Gonzaga dá ritmo e torna empolgante um filme que tinha que ser ágil. Nunca deixando a peteca cair, e sem apelar para a mesmice, auxiliado pelo roteiro de Poyart em parceria com Marcelo Rubens Paiva. Talvez um surgimento de um triângulo amoroso para Aldo em certa altura do campeonato, com brigas típicas de novelas globais tenha sido um erro. Mas são pequenos detalhes que não atrapalham o todo.

Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo consegue ser aquele tal 1 em 1 milhão citado lá no início, e Afonso Poyart em seu terceiro longa, vai colocando seu nome na lista de cineastas brasileiros em potencial. Por favor, prestigiem o cinema nacional de qualidade.

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Mais Forte Que o Mundo

7.5

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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2 Comments

  1. Deu até uma pequena vontade de assistir esse filme nacional

  2. […] No cinema nacional, isso também foi motivo de questionamento. Na cinebiografia de José Aldo (Mais Forte que o Mundo), o ator José Loreto, responsável por ser o protagonista, era bem mais alto, e em nada parecia […]

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