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Filmes

Critica: Mad Max – Estrada da Fúria

20 de maio de 2015 - 01:35 - Flávio Pizzol

 

Depois de 30 anos, uma das maiores referências cinematográficas quando pensamos em mundo pós-apocalíptico está de volta aos cinemas. O que vemos é um filme com os mesmos moldes, que se passa no mesmo universo desolado sob o comando do mesmo George Miller sádico dos anos 80, mas um pouquinho mais de dinheiro e loucura fazem com que esse seja o melhor filme da franquia e, possivelmente, um dos melhores do ano.

 

Assim como todos os seus antecessores, Estrada da Fúria vai seguir Max Rockatansky em outra missão recheada de velocidade e violência pelo deserto australiano. Dessa vez, ele acaba indo parar, por coincidências do destino, no meio da fuga da Imperatriz Furiosa e outras cinco garotas da cidadela comandada por Immortan Joe, um líder perverso que comanda várias facções e uma espécie de seita religiosa por controlar a água daquela região.

 

Antes de mais nada, acho importante ressaltar que Estrada da Fúria não é uma continuação ou um reboot, porque não se encaixa em nenhum lugar exato dentro da franquia. O filme até faz algumas referências ao primeiro filmes para criar um fundo psicológico de um protagonista que boa parte do público atual não conhece, mas a história é completamente fechada. Na verdade, eu vi todos os anteriores completamente desordenados, não senti dificuldade nenhuma para compreendê-los e acho que todos funcionam como se fosse uma antologia onde só o protagonista e o cenário se repetem.

 

 

Inclusive, eu acho que é nesse cenário que está a grande força da franquia. Nenhum dos Mad Max anteriores tem grandes roteiros, grandes diálogos e momentos filosóficos, sendo que esse segue essa mesma métrica com ainda mais simplicidade para se encaixar no mercado de grandes franquias atuais, mas todos eles funcionam como partes de um quebra-cabeça que constrói esse universo que serve como referência para todos os filmes pós-apocalípticos lançados após ele.

 

Nitidamente inspirado nos faroestes americanos, George Miller criou um futuro desolado e triste que, mesmo localizado nos desertos australianos, pode vir a se tornar realidade em qualquer lugar do planeta e antes do que se espera se os problemas com a água e com o combustível continuarem no mesmo caminho. Em Estrada da Fúria somos apresentados a uma parte desse universo que é controlado por diversas facções que arrumam seus próprios meios de sobreviver, enquanto seguem uma religião suicida.

 

 

Eu realmente gostaria de ver o filme se aprofundar um pouco mais nas peculiaridades dos modos de vida de cada facção ou na própria religião, mas me contentei com o simples por dois motivos: 1) é melhor fazer o simples e não errar do que tentar ser mais inteligente do que deveria e atrapalhar todo o desenvolvimento do longa; 2) o que é feito aqui é o suficiente para nos apresentar de maneira interessante um novo lado desse futuro louco sem perder o foco na ação, que é o que importa.

 

E é nesse quesito que o filme supera tudo o que já foi visto em uma orgia visual e sonora única que une trilha sonora, edição e fotografia de maneira perfeita na criação de algumas das cenas de ação mais loucas de todos os tempos. Então quando você acha que já viu o momento mais foda do filme, acontece outra coisa que te deixa espantado e por aí vai, fazendo com que Estrada da Fúria seja uma sequência implacável de momentos catárticos e alucinantes aliados a um 3D sensacional.

 

É verdade que a grande quantidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo e as imagens propositalmente aceleradas em alguns pontos podem incomodar parte do público que está desacostumado com essas cenas de ação que fazem parte da franquia desde o início, mas tudo funciona muito bem. A diferença é que antes algumas coisas coisas eram realmente confusas para não mostrar tudo e economizar dinheiro e aqui Miller teve 200 milhões de motivos para deixar a imaginação voar.

 

 

E esse dinheiro está todo muito bem investido na tela, principalmente no grande uso de efeitos práticos que dão ainda mais beleza à ação. O que quero dizer é que tudo aquilo já seria surtado se estivéssemos vendo imagens montadas no computador, mas o fato dos carros (mais tunados, despirocados e poderosos do que nunca) e dos acidentes terem sido feitos de verdade durante as gravações dão um gosto ainda mais espetacular ao longa.

 

É tudo muito bem enquadrado e dirigido por George Miller interessado em encher os olhos do seu público. Além do 3D, ele usa muito bem a câmera lenta em momentos certeiros, as cenas noturnas em contraste com as cenas quentes do deserto e a computação gráfica em alguns pequenos pontos. Ele também acerta em cheio na caracterização cada vez mais louca dos habitantes desse universo futuristas e merece ser, pelo menos, indicado a alguns prêmios técnicos no Oscar 2015.

 

 

Acho que ele também manda muito bem no desenvolvimento e no espaço dado para os personagens. Uma das grandes reclamações do público mais nostálgico é que Max é coadjuvante em seu próprio longa, mas eu só veria isso como um problema se seu substituto no cargo de protagonista fosse fraco. Isso não acontece aqui, já que a Imperatriz Furiosa é uma personagem tão forte quanto Max e que consegue ser mais interessante que ele em alguns aspectos. Inclusive, devemos considerar que essa pode ser a melhor atuação de Charlize Theron desde sua vitória no Oscar em 2004.

 

Por mais que a Furiosa seja a força motriz do filme, Max ainda está ali e tem grande importância, porque só estamos acompanhando aquela história porque ele está nela. Tom Hardy faz um serviço decente como substituto de Mel Gibson, mesmo sendo muito estranho ver um personagem icônico ser interpretado por outra pessoa. Gibson tem mais cara de louco, mas Tom tem um pouco mais de carisma e adiciona uma bem vinda força física ao personagem.

 

 

Nicholas Hoult e Hugh Keays-Byrne (que também interpretou o vilão do primeiro Mad Max) também têm um tempo legal de tela, sendo importantes para o desenvolvimento mitológico do filme. Immortan Joe é um personagem caricato que funciona muito bem como o antagonista que tem seu próprio jeito distorcido de ver aquele universo, onde ele realmente se vê como dono das noivas e da água. Já Nux tem um arco extremamente óbvio, mas que funciona como principal ponto de desenvolvimento da seita religiosa criada por Joe.

 

Mad Max acerta em basicamente tudo o que faz. O roteiro não se aprofunda, mas desenvolve muito bem a história e acrescenta algo novo aquele universo criado por George Miller em 1979 através de conceitos e personagens muito interessantes. As cenas de ação são grandiosas e recheados de efeitos práticos e malabarismos que enchem os olhos e fazem valer o ingresso. E tudo isso ainda vem acompanhado de uma dose cavalar de catarse e insanidade que faz total jus a franquia original e coloca Estrada da Fúria como um dos melhores filmes do ano.