AODISSEIA
Filmes

Critica: Macbeth – Ambição e Guerra


11 de janeiro de 2016 - 14:00 - Flávio Pizzol

Entre Shakespeare e Game of Thrones

macbeth_ver5_xlg

Adaptar qualquer coisa de William Shakespeare nunca é uma tarefa fácil, principalmente quando se trata de uma das suas peças mais adaptadas em diversas mídias. O interessante é que a proposta desse Macbeth foge um pouco do comum e o resultado acaba mostrando que tragédias britânicas e contextos épicos podem coexistir.

A história é a mesma de sempre e acompanha os conflitos de um bem sucedido general escocês após a revelação de uma profecia que o garantiria como rei. A partir daí, influenciado por sua mulher e por sua gigantesca ambição, Macbeth toma atitudes que podem representar tanto o seu poder quanto a sua total ruína.

Uma história digna de Shakespeare e contada da maneira como merece por um roteiro extremamente fiel ao material original do plano de abertura até o último segundo. Inclusive, o aspecto que chama mais atenção é justamente a forma como o trabalho realizado por Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso se compromete a desenvolver o longa da maneira mais próxima possível e a usar em muitos momentos o texto do próprio autor sem tirar uma só vírgula.

É uma escolha interessante para um filme que possui ambições comerciais e um lançamento relativamente grande na Europa e nos EUA, considerando que o inglês arcaico, os floreios e os monólogos gigantescos poderiam tornar o longa confuso e cansativo. Isso pode acabar acontecendo em alguns momentos, mas a direção de Justin Kurzel sabe como utilizar essa teatralidade a seu favor na hora de levar o público para dentro da história.

Mas é fácil perceber que isso só foi possível com a ajuda de um elenco de peso, onde os protagonistas Michael Fassbender e Marion Cotillard demonstram ter o porte e a presença necessária para dar vida a personagens tão complexos. Eles sabem como lidar com todas as nuances e conflitos sem perder a musicalidade ou a força presente no texto, mas impossível deixar passar que as participações de Sean Harris e Paddy Considine são impressionantes quanto a dos dois.

Infelizmente, os únicos problemas do roteiro estão no desenvolvimento muito rápido de algumas passagens e na quantidade de sutileza usada para tratar de alguns assuntos, inclusive a influência de Lady Macbeth sobre o seu marido. Essas escolhas acabam tirando um pouco do espaço para alguns personagens crescerem e fazendo com que alguns conflitos fiquem irreais, afinal falta um pouco de maturação e preparação para algumas consequências.

Apesar disso, essas falhas são facilmente perdoadas quando se leva em conta a ótima direção de Justin Kurzel, já que o maior diferencial dessa adaptação está exatamente na maneira como ele escolheu levar essa história para as telas. Seu trabalho tem um apelo visual incrível que consegue explorar todo o espaço de cena nos momentos mais calmos e reunir a grandiosidade de Shakespeare com cenas de ação cheias de câmera lenta, que lembram um pouco de Game of Thrones e outros filmes épicos.

Entretanto, isso só é possível porque ele conta com uma equipe técnica de dar inveja em muitos filmes maiores, destacando a edição de Chris Dickens, a trilha musical de Jed Kurzel (irmão do diretor) e a fotografia de Adam Arkapaw. Os dois primeiros aspectos não deixam que o filme fique arrastado demais e ajudam a marcar o ritmo pulsante dos momentos mais importantes, enquanto Arkapaw (que já trabalhou na primeira temporada de True Detective) faz um trabalho marcante com a utilização das cores.

O verdadeiro resultado de tudo isso é um filme eloquente, grandioso e extremamente bonito que possivelmente entraria para os melhores filmes de 2015. É verdade que ele tem alguns errinhos de desenvolvimento, mas Macbeth apresenta muito apreço pelo texto original e consegue comprovar que filmes de guerra podem sim coexistirem com roteiros complexos. Na verdade, o maior trunfo desse longa é justamente mostrar que Shakespeare pode ganhar ares de blockbuster sem perder sua profundidade.

OBS 1: O que mais me animou no final desse filme foi lembrar que Michael Fassbender, Marion Cotillard, o diretor JUstin Kurzel, o roteirista Michael Lesslie e o diretor de fotografia Adam Arkapaw vão se reunir no longa de Assassin’s Creed, que estréia em dezembro desse ano.