AODISSEIA
Séries

Crítica: Luke Cage (2ª Temporada)

O herói do Harlem está de volta!

4 de julho de 2018 - 11:39 - Flávio Pizzol
[Aviso: Os spoilers sobreviveram aos tiroteios e vieram parar nesse texto. Cuidado!]

A parceria entre Marvel e Netflix foi responsável por aproveitar heróis até então esquecidos e nos transportar diretamente para  universo urbano. E não se engane, apesar dos altos e baixos, esse continua sendo um mérito intocável. Por outro lado, o fato é o tempo começou a desgastar essa fórmula de adaptar as ruas de Nova York através de uma visão mais violenta, sombria e realista, criando obras perdidas em seus próprios desejos e objetivos. Depois de uma estreia cheia de identidade, a segunda temporada de Luke Cage caiu nesse limbo justamente por não ter certeza dos caminhos que queria seguir e acabar se auto boicotando.

Dessa vez, a trama – que já não possui mais amarras de origem – acompanha um Luke cheio de status, aplicativos sobre si mesmo e até propostas de patrocínio graças às suas façanhas contra o crime. No entanto, tudo isso é uma fachada que esconde um homem cheio de dilemas que não sabe lidar com o passado, a raiva e as responsabilidades que o consomem. E é claro que, como sempre, a chegada de um novo e poderoso antagonista, ligado ao passado de Mariah, não vai facilitar sua vida.

O roteiro começa bem: reorganiza as peças do tabuleiro sem enrolar, apresenta personagens novos com eficiência e logo imerge o espectador nesse universo onde o ritmo é ditado pela cultura negra. Mas, como eu disse, a série parece gostar de atrapalhar seu próprio desenvolvimento, mergulhando nos repetidos problemas com diálogos artificiais, momentos sem nenhuma relevância narrativa, personagens que somem da trama sem nenhuma explicação ou mudam de opinião por pura conveniência do roteiro, a previsibilidade cada vez maior das reviravoltas que surgem sempre no sétimo episódio e um vilão que não atinge todo o seu potencial. E, nesse caso, o Bushmaster (que até tem uma história interessante como motivação e funcionaria no papel) fica preso num texto que precisa dividir o foco entre ele e Mariah para sustentar essa métrica idiota de ter 13 episódios quando tudo poderia ser resolvido com menos.

Isso torna alguns episódios extremamente arrastados e prejudica, desde o início, o trabalho de diretores que tentam imprimir significado em alguns planos (a coroa continua sendo o melhor exemplo) e dar uma cara mais interessante para as cenas de ação que tanto incomodaram no ano anterior. Luke Cage assume seu caráter de tanque e gera bons momentos de pancadaria, mas a apresentação do vilão através de duas cenas fraquíssimas já entrega algumas dificuldades na escolha dos ângulos e na montagem, cujo o desleixo vai deixando rastro no decorrer dos episódios. Tudo isso cercado, logicamente, pelas recorrentes dificuldades que essas séries tem com os efeitos especiais de segunda e cenários que parecem de isopor.

Por sorte, esses escorregões não conseguem afundar a série de vez por causa dos bons personagens e, principalmente, das relações construídas entre eles. É claro que nem todos são grandes personagens, nem recebem toda a atenção que mereceriam, porém a maioria significativa tem identidade e evolui a partir de suas decisões, sejam elas boas ou ruins. Mariah, por exemplo, recebe uma surra de desenvolvimento durante seu processo de transformação em uma verdadeira gangster, enquanto Luke Cage e Misty precisam vencer, separadamente, uma montanha-russa de emoções variadas com passar dos episódios. São movimentos coerentes e bem construídos – até certo ponto – que Alfre Woodard (Desventuras em Série), Mike Colter (Viagem das Garotas) e Simone Missick (Ray Donovan) carregam com eficiência e presença de cena.

Entre as relações, o destaque fica para os embates entre pais e filhos que se tornam melhores momentos da segunda temporada. Mariah e sua filha, Tilda, tem uma cena que desenvolve um senso de empatia muito grande em relação a vilã e, ao mesmo tempo, joga na cara do espectador o quanto ela pode ser odiosa, garantindo, todavia, que a origem do seu desprezo seja compreendida. Já o protagonista cresce muito sempre que precisa lidar com seu recém-chegado pai (Reg E. Cathey em uma despedida primorosa) e, apesar da fonte do que os separou ser pouco explorada, o final dessa subtrama injeta uma dose de emoção genuína que tem sido rara nas outras séries do universo urbano.

E os acertos do roteiro no quesito relacionamentos entre personagens é tão positivo que até mesmo Danny Rand, que não precisaria necessariamente estar ali, funciona em uma das melhores participações da produção, gera uma ótima cena de luta e ainda dá um gostinho do que seria ver os Heróis de Aluguel na TV, contando com os litros de carisma e química que ditam os trabalhos de Colter e Finn Jones. O problema surge justamente no tal do auto boicote que eu tanto falei, já que a participação do Punho de Ferro encerra uma série de referências a dupla dos quadrinhos para dar lugar a uma subtrama de chefão do crime que precisaria ter sido o foco da temporada desde o início pra funcionar. Isso sem contar que, no meio dessa confusão, a produção decide sumir de vez com o Sr. Cage Pai (eu sei que ele cumpre sua função, mas algumas referências sobre seu paradeiro deixariam a passagem menos brusca), oferecer uma morte anticlimática pra Mariah e levar Tilda para uma segunda fase que também é bastante difícil de engolir.

Eu sei que pode soar estranho dizer isso, já que alguns desses acontecimentos estão ligados a evolução de personagens que eu tinha comentado anteriormente. No entanto, a questão aqui é que a transição do herói do Harlem todo certinho para um possível líder criminoso surge do nada para concluir as tramas da temporada. A raiva de Luke no começo da temporada poderia até ser um pista, se ela não fosse largada em segundo plano por todas subtramas propostas entre as referências a uma possível introdução dos Heróis de Aluguel. É fraco e pouco embasado para convencer, porém pode funcionar, caso os roteiristas tenham coragem de realmente mergulhar nessa possibilidade de Luke não ser à prova de corrupção e, assim como Legion fez, transformar seu herói em um possível vilão. Ou, no mínimo, um anti-herói bem casca grossa…

A única coisa que não pode ser danificada por esse processo sombrio é a trilha sonora maravilhosa que continuando ditando o ritmo e mantendo a identidade do show, usando o hip hop e o R&B da melhor forma possível com as linhas de baixo do reggae jamaicano dando mais estofo ao plano de fundo. Só nos resta esperar que essa alma (vulgo a melhor coisa da série) continue atravessando os tiroteios do Harlem como um herói à prova de balas, enquanto os roteiristas abraçam a ousadia sem essa indecisão que destrói Luke Cage de dentro pra fora. Que esperança de tempo melhores acompanhe a chegada de uma possível terceira temporada então!


OBS 1: A advogada falando DO NADA que o Shades matou o filho dela e abandonando o caso está entre as coisas mais aleatórias, bizarras e artificiais que eu já vi na televisão.