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A auto aceitação é um processo fundamental dentro da formação de um indivíduo, desde o que se refere a ele mesmo até o entendimento que passa a ter sobre a existências daqueles que o cercam. Junto disso, o medo de expor seu verdadeiro eu dentro de uma sociedade que reprime o diferente forma um dilema categórico. Em Luca (Enrico Casarosa, 2021) essas duas máximas colidem dentro de uma aventura fantástica e inventiva, do jeito que a Pixar está acostumada a oferecer.

Acompanhamos a jornada do jovem pastor subaquático que dá nome ao filme, Luca, enquanto ele e seu novo melhor amigo Alberto caem de paraquedas na cidade costeira de Portorosso. Visando conseguir uma Vespa para desbravar a Itália, os meninos se unem a Giulia na expectativa de vencer o prêmio da competição de triathlon local e, para isso, têm de lidar com um garoto mais velho ensandecido, pais preocupados e uma vila inteira com ojeriza a monstros marinhos.

É engraçado ver como existe uma distinção clara dentro do estúdio: enquanto as sequências seguem por estradas mais seguras que apostam na nostalgia, as demais produções tanto extrapolam a fórmula Pixar de animação quanto elaboram alguns conceitos bem abstratos dentro da narrativa. No fim do ano passado isso foi visto em uma escala em Soul (Pete Docter, 2020) e agora essa ousadia encontra seu caminho no filme de Casarosa.

Luca | Disney+

Foto: Reprodução

Do onírico até o aventuresco!

De certo, temas sensíveis já foram abordados em outras obras, mas isso não é nem de longe tudo aquilo que ele tem para oferecer. Existe uma aura onírica em Luca e, nos frequentes momentos em que o garoto se vê sonhando acordado, o filme exibe uma montagem bem diferente de tudo que já havia feito sem deixar de efetivamente parecer um filme da produtora. Em outras palavras, ele transborda personalidade do roteiro inventivo até o design de personagens.

Acima de tudo, é uma trama sobre descobrimento, tanto de si mesmo quanto do mundo que se estende como um playground. Logo, seu trunfo é achar os momentos certos para afundar na sua temática enquanto cava profundidade nos dramas individuais. Um exemplo disso são os dois garotos descobrindo suas respectivas vocações enquanto batalhavam pelo mesmo objetivo de vida, em suma, acham aquilo pelo que vale a pena viver no desenrolar da história.

Em uma afirmação mais ousada, existem muitas semelhanças com o gênero comumente conhecido como coming of age. Em essência, embarcamos em várias proporções desse descobrimento: Luca não só descobre que existe um mundo lá fora e que os “monstros” que conhecia são na verdade humanos ainda mais ofensivos que bestialidades como ele também aprende sobre diferenças e, em um momento final catártico, transporta a sua própria de um artifício narrativo para o cerne da discussão que propõe.

Luca | Disney+

Foto: Reprodução

A descobertas se escondem pelo caminho…

Essa dualidade é muito interessante, já que enquanto por um lado são apenas dois amigos conhecendo a vida, por outro são dois monstros marinhos convivendo com o perigo de sua existência. Ele triunfa ao inserir a adolescência na narrativa, um período em que questões de pertencimento afloram quando o medo da rejeição se torna maior até mesmo que o medo da morte. Assim sendo, não é só sobre desbravar o mundo e conhecê-lo em sua amplitude, é sobre se permitir fazer parte dele em uma viagem tanto externa quanto interna.

Ressaltando o final, é muito bonito ver o filme entendendo sua real força e, uma vez disposto a passar uma mensagem, entregando-a de forma tão aberta. Ver as perspectivas se dobrarem ante às diversas descobertas realizadas pelas personagens é revigorante e, dentro dessa proposta, ele entrega uma variedade muito grande da temática, desde a simples mudança de interesses de crianças até o refinado convívio entre os opostos, aqui representados como marinhos e terrestres.

Luca é um filme despretensioso que guarda tanto em seu texto quanto em sua mise en scène uma mensagem poderosa. Uma doce surpresa da Pixar que, forçando um pouco a barra, se parece com uma versão infantil da união de Me Chame Pelo Seu Nome (Luca Guadagnino, 2017) com as criaturas lovecraftianas. Trocando o horror e o romance por aventura e amizade, ele entrega para o espectador uma verdadeira experiência de férias com grandes doses de amadurecimento.


Luca já está disponível no Disney+!

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Luca

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Em Luca, acompanhamos uma história de amadurecimento sobre um jovem que vive um verão inesquecível repleto de sorvetes, massas e passeios intermináveis de scooter. Luca compartilha essas aventuras com seu novo melhor amigo, mas toda a diversão é ameaçada por um segredo profundamente bem guardado: eles são monstros marinhos de outro mundo, logo abaixo da superfície da água.

Davi Alencar
Estudante de Rádio, TV & Internet, produtor de podcasts e aspirante a crítico de cinema vivendo em um fluxo constante de sonho.

Um Lugar Silencioso 2 é o melhor filme do ano (até agora)!

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