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Séries

Crítica: Love, Death & Robots – A obra-prima da Netflix

Conjunto de animações é um exercício genial de pura criatividade.


18 de março de 2019 - 21:36 - Flávio Pizzol

Houve um tempo – não muito distante, podem acreditar – em que os formatos “televisivos” eram bastante quadrados: os produtores de conteúdo tinham que escolher entre série ou filmes; episódios de drama tinham entre 45 e 60 minutos, enquanto uma comédia não poderia ultrapassar 30; e as temporadas poderiam até abordar casos separados, mas precisaram trabalhar com alguma trama maior que prendesse o público por meses a fio. Regras que foram evoluindo com a chegada do streaming, o eventual controle do consumidor e outras mudanças tecnológicas e sociais que chegaram pra abalar sementes plantadas tão fundo. E, caso alguém duvide, basta abrir a Netflix, procurar Love, Death & Robots e apreciar a genialidade de uma obra que deixa claro como as possibilidades estão cada vez maiores.

E, nesse caso, todo esse papo sobre a expansão dos formatos começa pela proposta antológica da série criada por Tim Miller (diretor do primeiro Deadpool) e David Fincher (que já trabalhou com a Netflix nas ótimas House of Cards e Mindhunter). Isso significa que todos os episódios possuem histórias independentes e fechadas em si, possibilitando a criação de contos que nascem, se desenvolvem e chegam ao seu clímax sem a preocupação de precisar se estender por grandes arcos. Um formato libertador que, mesmo não sendo necessariamente uma inovação, passou a chamar mais atenção graças a esse desprendimento que parece se relacionar muito bem com um público que prefere escolher – sem pressão – quando vai ver algo.

Então, ao invés de longas temporadas de 22 episódios que sempre deixam ganchos para novos anos ainda maiores, a vibe tem sido criar histórias mais curtas que se fecham dentro de uma temporada – como é o caso de True Detective – ou até mesmo dentro de um único episódio. Esse é o caso de Black Mirror, Além da Imaginação, Room 104 (outra indicação imperdível), Philip K. Dick’s Electric Dreams e, enfim, minha já tão querida Love, Death & Robots. Uma lista grande que até poderia incluir mais alguns nomes, considerando que este que vos escreve gosta bastante desse formato que possui algumas qualidades gerais que merecem ser citadas.

Entre as principais, vale destacar que: a) o tamanho limitado e a diferença estilística entre os episódios cria uma rede de pequenas histórias que raramente enjoam o espectador, visto que ele pode não gostar de um episódio e se apaixonar por outro; b) antologias sempre surgem como oportunidades para novos contadores de história (e estúdios de animação, no caso de LDR) assumam o controle de projetos que não carregam consigo a responsabilidade de um filme ou uma série longa; c) sem tempo para muitas explicações, as tramas antológicas tendem a ir direto ao ponto e colocar um único acontecimento, como uma fuga ou um caso policial, no centro de tudo; d) essas restrições costumam obrigar diretores e roteiristas a usarem a criatividade na construção do episódio, já que a tarefa de conquistar um espectador em pouco tempo pode ser mais desafiadora do que no caso de uma narrativa mais longa; e) por fim, antologias permitem que seus criadores experimentem novas técnicas ou soluções com o objetivo de diferenciar ideias que, geralmente, ficam presas em um mesmo tema, gênero ou proposta.

No entanto, como eu disse, essas são qualidades gerais que boa parte das antologias vão compartilhar. Love, Death & Robots abraça tudo isso, mas alça voos ainda maiores graças a sua identidade visual única, seu discurso cheio de metáforas e suas demonstrações de avanço tecnológico que impressionam qualquer ser humano. Tudo dentro de episódios que só precisam ter a animação como elemento central e abordar pelo menos uma das palavras que compõem o título. Limitações pequenas (em comparação com Room 104, por exemplo) que abrem espaço para tramas que percorrem diversos gêneros, como o horror, a ficção científica e a comédia, usando técnicas que vão do 2D até a captura de movimentos.

Um combo que, no geral, mexe com a imaginação de quem está assistindo, deixa qualquer espectador preso na ponta da poltrona e surpreende tanto por conta de algumas reviravoltas impecáveis, quanto pelas possibilidades exploradas com níveis de violência, tensão, bizarrice e acidez dignas da filmografia de Fincher. Um combo realmente genial que, apesar dessa merecida “babação” de ovo,  jamais conseguiria ser contido por uma crítica que não incluísse uma pequena análise individual (bem resumidas mesmo) de cada mergulho feito no louco universo de Love, Death & Robots. Em outras palavras: terminei a versão genérica do texto, porém separei uma palavrinha ou outra sobre os episódios.


Episódio 01: Sonnie’s Edge

Um conto insano e violento que concentra seus maiores acertos no subtexto sobre medo e manipulação, na ambientação mais cyberpunk possível e numa reviravolta impecável. Uma daquelas viradas de trama que você pode antecipar, mas nunca acertar todos os detalhes (por mais que eles estejam escondidos no todo). Um cartão de visita poderoso que impressiona, surpreende e mostra exatamente a vibe de Love, Death & Robots.

Episódio 02: Three Robots

Já aviso logo de cara que a premissa desse curta tinha tudo pra ser uma piada de bar, afinal estamos falando sobre três robôs de férias que decidem usar a folga para explorar uma Terra pós-apocalíptica e completamente devastada. Three Robots não é exatamente uma anedota, mas usa essa pegada como ponto de partida para uma comédia recheada de ótimas reflexões sobre o cotidiano da nossa sociedade. Uma combinação entre bons personagens, acidez na medida certa e até mesmo uma subtrama com gatos que coloca esse entre meus episódios favoritos.

Episódio 03: The Witness

Uma mistura sensual e bizarra do universo de Blade Runner com a linguagem visual de Homem-Aranha no Aranhaverso que descamba para uma perseguição alucinada que reúne medo, assassinato e abuso e ainda se encerra com uma reviravolta de explodir cabeças. The Witness é um episódio surtado e profundo que esconde diversas alegorias e metáforas sem torná-las peças fundamentais. Isso quer dizer que a história é ótima e consegue prender ou deixar embasbacado até mesmo quem não fica preso aos subtextos.

Episódio 04: Suits

Uma versão de Um Lugar Silencioso que troca o silêncio pelas armaduras robóticas e a tensão implacável por uma ação surtada que cairia como uma luva num jogo mobile. Em outras palavras: uma história sobre famílias isoladas que precisam lutar como podem para sobreviver que acerta no traço amigável e super colorido, na relação ente os personagens que convence em pouquíssimo tempo, na ação de qualidade e na reviravolta (mais uma) que brilha nos últimos minutos. Definitivamente, outro dos meus favoritos no meio da genialidade de Love, Death & Robots.

Episódio 05: Sucker of Souls

Com traços que remetem a uma história em quadrinhos, Sucker of Souls é um conto de horror sanguinário e cheio de referências a cultura pop que conquista o espectador através da mistura entre simplicidade e bizarrice. Ou seja, não tem uma história tão complexa e profunda, mas compensa isso com tensão bem construída, gore à vontade, sequencias de ação divertidas e diálogos que ajudam na construção imediata do relacionamento dos personagens. Tudo junto com um toque de absurdo que fica por conta da ótima subtrama envolvendo os gatos (outra vez…).

Será que os gatos são os verdadeiros criadores de Love, Death & Robots???

Episódio 06: When the Yogurt Took Over

Mais um episódio que parte de uma premissa menos “séria”, a história do iogurte (como vem sendo chamada pelos íntimos) me conquistou instantaneamente e deve ficar entre minhas favoritas por algum tempo. O absurdo de ver um iogurte dominar o mundo, o contraste entre o cenário realista e o caricatural dos personagens que parecem stop-motion, a crítica afiadíssima ao governo americano, as piadas que colocam o dedo em outras feridas do ser humano. Tudo funciona perfeitamente nos cinco minutos de episódio e isso é mais do que o suficiente.

Episódio 07: Beyond the Aquila Rift

Uma trama clássica de sci-fi que, logo de cara, ganha muitos pontos com uso ultra realista da captura de movimentos. Fora isso, não apresenta nada de novo até sua boa reviravolta. E, por mais que tal virada seja bastante comum dentro do gênero, o todo de Beyond the Aquila Rift é visualmente impressionante, sensual e cercado por bons mistérios. Um episódio que, mesmo sem arriscar, entrega tudo que se espera de Love, Death & Robots.

Episódio 08: Good Hunting

Esse episódio possui uma animação tradicional que mistura traços ocidentais e orientais de uma maneira muito parecida com Mulan. E talvez essa proximidade seja proposital em alguns pontos, incluindo os elementos mágicos, as subtramas cercadas de empoderamento e o caráter mais épico de um texto que se propõe a mistura a história da China com ficção científica. No entanto, as comparações param nesse ponto, visto que Good Hunting deixa a inocência pra trás no decorrer de sua trama sombria que chega quase ao ponto de se tornar um hentai. Talvez perca a mão nessas transições de gêneros e na condução do clímax, mas jamais perde a exuberância e a vontade de abordar temas complexos.

Episódio 09: The Dump

Desde o momento em que o episódio começou, eu já sabia que iria gostar por um simples motivo: o visual é tão realista que dá a volta e chega perto do caricato que marca as esculturas de Ron Mueck. O nível de detalhes dos personagens e do cenário é tão impressionante que fica difícil parar de falar sobre ele. É claro que a ideia por trás de The Dump é boa, a narrativa inventiva e a reviravolta envolvendo o Otto também, mas não foge de uma simplicidade que mantém o visual como grande destaque. Eu acho que é um bom combo…

Episódio 10: Shape-Shifters

Outro episódio que ganha muitos pontos por seu visual impressionante (que inclui uns planos abertos que poderiam facilmente ser parte de um filme live-action), Shape-Shifters segue um caminho um pouquinho diferente do anterior ao apresentar a história nada comum de dois lobisomens que lutam ao lado do exército americano. E a premissa funciona muito bem: a maneira como eles são tratados constrói várias alegorias sobre pessoas fora do padrão “hétero top” no exército, as sequências de guerra funcionam e a evolução pro horror deixa tudo melhor e mais sangrento.

Episódio 11: Helping Hand

Dentre os realistas, esse é o que, na minha opinião, possui o visual mais surpreendente e o motivo também passa pela história, já que a riqueza de detalhes é essencial nessa mistura de Gravidade com 127 Horas. A trama é bastante simples e direta, mas a combinação entre texto e visual ajudam a transmitir a sensação de isolamento e desespero que conduzem a protagonista a algumas decisões que também acertam o espectador em cheio. Dá pra sentir o peso de cada pancada e isso só aumenta uma sensação de agonia que coloca Helping Hand entre meus favoritos de Love, Death & Robots.

Episódio 12: Fish Night

Depois de três episódios super realistas, Fish Night surge como uma fuga que mistura quadrinhos, rotoscopia e profundidade de campo. Tudo isso misturado com uma história psicodélica, uma montagem brilhante, uma iluminação que mistura cores e estilos com perfeição e uma beleza que mexe com a imaginação do espectador. Ainda não cheguei a uma conclusão sobre todas as metáforas que reenchem a narrativa, mas sei que gostei muito do episódio.

Episódio 13: Lucky 13

De volta ao realismo, temos uma mistura de Halo com sci-fi clássico desenvolvida com muita qualidade pela Sony (não sei se isso necessariamente significa algo em relação ao visual). É uma história de sacrifício que, mesmo trabalhando dentro de uma margem básica, acerta ao inverter algumas saídas típicas, criar boas cenas de ação, se apropriar de diálogos sobre coragem, sorte e conexão sem escorregar, e entregar uma protagonista idêntica a sua interprete, Samira Wiley (Orange Is the New Black).

Episódio 14: Zima Blue

O mais artístico dos episódios, Zima Blue reúne amor, morte e robôs numa trama sobre arte que justifica as cores e formas chapadas, uns toques de expressionismo, e o contraste entre o traço da cidade e dos personagens. O desenvolvimento do texto acaba sendo um pouco mais apressado do que deveria, mas o conceito de “redução” (pra não dar nenhum spoiler), as metáforas e os segredos compensam esses pequenos escorregões na borda da piscina. Merece sua atenção.

Episódio 15: Blind Spot

Não entendi a mistura entre traços infantis, cartunescos e orientais que compõem o visual dessa animação, mas admito que gostei graças ao contraste com a trama cheia de velocidade e violenta. Também admito que a história não foge muito de uma trama típica do principal gênero de Love Death & Robots, mas os diálogos rápidos constroem uma ótima relação entre os personagens, as cenas de ação se apropriam muito bem da pegada de Velozes e Furiosos e a resolução entrega o prometido sem se arriscar. Não é o melhor, mas passa longe de ser ruim.

Episódio 16: Ice Age

Uma antologia de animação com orçamento razoável não poderia perder a chance de reunir “pessoas reais” e animação pelo menos uma vez. Dirigido pelo próprio Tim Miller e estrelado por Topher Grace (Infiltrado na Klan) e Mary Elizabeth Winstead (Rua Cloverfield, 10), Ice Age faz isso dentro de uma trama que inclui toques de fantasia, Uma Noite no Museu e um caráter meio épico que mexe com a história do mundo. O resultado é algo inesperado e divertido que chega ao seu ápice quando trabalha uma visão de que a nossa sociedade é cíclica.

Episódio 17: Alternate Histories

Construído a partir da metalinguagem em seu estado mais puro, esse é o episódio mais aleatório, debochado e diferente de Love, Death & Robots. Os mesmos motivos que fizeram com que a trama do app que apresenta linhas alternativas da história se tornasse a minha favorita. É um show inventivo, bizarro e completamente fora da casinha que usa o seu visual caricato com muito talento, enquanto surpreende o espectador com doses cada vez mais gigantescas de subversão, sangue, sarcasmo e diversão. Pode ser um pouco estranho falar isso sobre uma narrativa que gira em torno da morte, mas não posso mudar o fato de Alternative Histories é totalmente hilário.

Episódio 18: The Secret War

Contando com um cenário fotográfico e personagens que mantém o realismo até quando falam, The Secret War poderia ser facilmente um longa de terror de primeira linha. Tudo isso graças ao visual de cair o cu da bunda, a fórmula que mistura história e ficção sobrenatural numa pegada meio Operação Overlord, e ao texto que entrega tanto bons personagens quanto reviravoltas bem posicionadas. Isso sem contar com uma direção que transmite o desespero da guerra, percorre as cenas como se filmasse uma exposição de miniaturas e preenche o resto dos planos com muito sangue. Outro episódio que certamente está entre meus favoritos…


Agora tudo o que você precisa fazer é mergulhar nesse universo pra encontrar a sua história favorita, já que, assim como acontece em toda antologia, cada um pode gostar mais ou menos de um ou outro episódio no meio desses 18 contos que são, no mínimo, bons. Não existe um episódio ruim na primeira temporada de Love, Death & Robots, logo podemos garantir que a Netflix entregou um produto cheio de estilo e identidade que surpreende e não perde o fôlego. Mais do que isso, Love, Death & Robots é um exemplo genial do que o streaming pode fazer quando decide experimentar e quebrar certas barreiras.