AODISSEIA
Filmes

Critica: Livre


2 de fevereiro de 2015 - 12:00 - Flávio Pizzol

Wild-Poster

E minha missão de assistir todos os indicados ao Oscar continua com esse road-movie intenso e interessante, estrelado por Reese Whiterspoon. Livre não é um filme inovador ou exemplar, mas consegue contar sua história com beleza e sensibilidade acima da média.

O filme, baseado em fatos reais, conta a história de Cheryl, uma mulher que resolve, após perder sua mãe e se entregar as drogas, largar tudo e fazer a trilha de Pacific Crest, um caminho perigoso e cansativo que atravessa os Estados Unidos de norte a sul. Uma jornada intensa que vai mudar a vida dela.

Eu tenho que admitir que essa é uma premissa piegas e extremamente batida, mas o roteirista Nick Hornby (britânico mais conhecidos por seus livros super populares) opta por contar a história de um jeito que dá uma aliviada nisso. O desenvolvimento da história é completamente não-linear, então vamos descobrindo um pouquinho da vida de Cheryl e tudo o que aconteceu com ela aos poucos em flashbacks curtos e muitas vezes confusos. Isso é realmente um fator importante, porque obriga o público a prestar atenção em uma história que é bem lenta.

Então, os acontecimentos picotados ajudam no desenvolvimento dos personagens e na agilidade do longa, mas Hornby também comete erros que prejudicam o todo do filme. Eu acho que ele peca no significado dessa jornada para Cheryl, por mais que as motivações sejam claras e justas. Em alguns momentos parece que estamos acompanhando uma espécie de rito de passagem, no entanto algumas cenas depois parece que é uma jornada de auto-descoberta. E o que fica mais evidente, no final, é que Cheryl está fazendo a trilha mais por penitência do que por qualquer outra coisa. Isso ainda acaba prejudicando o desenvolvimento da protagonista.

Eu também fiquei com a sensação de que o filme chega no seu ápice muito cedo. Claro que não tem muita coisa para contar, mas o filme acaba perdendo um pouco da sua força depois de um certo ponto mais intenso e emocional, que ocorre com pouco mais de uma hora. Aquela história, que é muito simples e lenta, ainda perde sua força emocional muito cedo e isso torna o fim da trilha – o real final da jornada de Cheryl – um pouco fraco e pasteurizado.

A direção é do canadense Jean-Marc Vellée, que ganhou notoriedade ano passado após o ótimo Clube de Compras Dallas. Ele faz um trabalho bem interessante, conseguindo transmitir toda a beleza e emoção envolvida naquela jornada com uma sensibilidade única. De fato, a maneira como ele trata os dramas de Cheryl me lembrou um pouco seu filme anterior, que também tocava em pontos complicados sem forçar ou julgar. É um bom trabalho, mas ainda acho Clube de Compras mais balanceado e superior.

Seu trabalho como editor, sob o pseudônimo de John Mac McMurphy ao lado de Martin Pensa, também merece destaque, já que possui grande interferência na maneira como a história é contada. Ele consegue fazer com que a maioria das transições entre presente e passado sejam fluidas e bem sutis. A fotografia de Yves Bélanger também é muito boa, deixando a trilha mais bela do que ela já deve ser.

As atuações também são ainda mais importantes em filmes que envolvem jornadas emocionais e situações de superação. Aqui o destaque é, basicamente, de Reese Whiterspoon e Laura Dern, ambas indicadas ao Oscar. Reese cria uma personagem bem complexa, que tem que lidar com muitas emoções conflitantes e com o esforço físico. Ela realmente mostra que pode ser muito mais do que o rostinho bonito das comédias românticas com um papel forte.

Entretanto, na minha opinião, Laura Dern tem um papel melhor, que passa uma mensagem positivista muito mais interessante e intensa do que a de Cheryl. Ela tem menos tempo para mostrar seu trabalho, mas faz valer sua experiência e capacidade. Ela manda tão bem que as melhores cenas do filme são aquelas em que Reese contracena com ela.

É um filme que passa longe de ser perfeito ou ser imperdível, mas tem uma história interessante. Não tem tantos erros, mas também não tem nada que seja tão sensacional. É simplesmente uma boa história adaptada em um filme legal, que foi indicado por suas ótimas atuações e só. Vale ser visto, mas não com tanta pressa.