AODISSEIA
Filmes

Crítica: Legítimo Rei – Um verdadeiro espetáculo visual!

Filme peca no roteiro, mas compensa em quase todo o resto...

12 de novembro de 2018 - 02:24 - Flávio Pizzol

Eu já disse isso em vários textos, mas não canso de repetir que tenho um certo fetiche por filmes que retratam passagens históricas decisivas para povos ou países. Ver que praticamente tudo é cíclico ou como pequenas decisões podem reverberar através de gerações e gerações exerce um encanto quase inexplicável neste ser que vos escreve. Isso acaba dando certa “vantagem” para filmes como Legítimo Rei que, seguindo os passos do maravilhoso Coração Valente, flertam com a realidade e transformam a guerra pela independência da Escócia em espetáculos visuais.

E, apesar de qualquer comparação ser muito injusta, a trama do novo longa original da Netflix representa sim uma espécie de continuação do clássico dirigido poe Mel Gibson em 1995, incluindo até mesmo o próprio Wallace como parte importante nas decisões do protagonista que continuaria liderando a Escócia rumo à liberdade. Um homem –  o príncipe e futuro rei Robert Bruce – que acaba sendo, de certa forma, exilado em suas próprias e precisa lutar em nome tanto da sua família massacrada, quanto do seu povo cansado das atrocidades inglesas.

Toda essa história focada no tal rei fora-da-lei (como o nome original, Outlaw King, deixa claro) tem grande potencial e merecia chegar ao grande público, mas o primeiro problema do longa está justamente na sua proximidade enorme com o citado Coração Valente. Por mais que eu tente ao máximo não comparar as duas obras, o roteiro escrito por Bathsheba Doran (Boardwalk Empire), James MacInnes (The Rocket Post) e David Mackenzie (Olhar do Desejo) insiste em entregar as mesmas saídas narrativas ou recursos estilísticos a cada virada de roteiro. É claro que as temáticas criaram esse atrito de qualquer forma, mas escolher conduzir personagens e tramas na mesma toada enfraquece um pouquinho a história.

No entanto, isso é um incômodo que possui força apenas no começo da produção e talvez em alguns pontos bem específicos, dependendo da relação do espectador com as outras produções que abordam o mesmo tema. Na verdade, o principal problema do testo de Legítimo Rei está na falta de desenvolvimento de grande parte dos coadjuvantes. Isso dificulta a conexão emocional do público com as pessoas envolvidas na batalha (algo determinante em um filme de guerra) e tira a força de seus próprios clímax, visto que não houve construção de nenhum desses conflitos pessoais. A montagem – que também escorrega algumas vezes – evidencia isso, principalmente quando elipses mais longas do que o normal marcam a transição do segundo para o terceiro ato. Considerando que vinte minutos do longa foram cortadas após as primeiras exibições, existe a possibilidade – não confirmada – de parte dessas coisas que fazem certa falta estarem perdidas nesse bolo.

Por sorte, os protagonistas não seguem o mesmo caminho e isso ajuda a “salvar” o longa de uma condenação injusta, visto que Robert e sua esposa funcionam como os condutores emocionais que deveriam ser. É verdade que Chris Pine (Mulher-Maravilha) incorpora isso no piloto automático, mas ainda cumpre seu papel de liderança em momentos-chave de Legítimo Rei, como o clássico discurso pré-batalha ou os combates individuais com o príncipe interpretado pelo interessante Billy Howle (Dunkirk). Já a jovem Florence Pugh (Lady Macbeth), por sua vez, rouba os holofotes justamente por se entregar à personagem e adicionar emoção para uma subtrama que tinha tudo para ficar em segundo plano. Por fim, juntam-se a eles o nome de Aaron Taylor-Johnson (Animais Noturnos), interpretando – de maneira enérgica e efetiva – um louco que entra pra lista daqueles personagens que infelizmente não saem de uma única nota, mas fazem seu nome nas cenas de ação.

Estas, por sinal, são justamente um dos maiores destaques de Legítimo Rei, graças ao trabalho primoroso de David Mackenzie (A Qualquer Custo) como diretor. Com direito a um plano-sequência magnífico no começo do longa, ele comprova seu domínio da linguagem e seu talento por trás das câmeras quando abusa dos ângulos diferenciados para dar uma cara moderna à história, constrói cenas de batalhas imensas sem perder o controle e ainda captura a violência com um realismo cru e pesado que combina com o período histórico. Pra completar, Barry Ackroyd (Jason Bourne) assume a função de ser a cereja do bolo com uma fotografia que explora de maneira impecável tanto as belezas naturais da Escócia, quanto a sujeira e tensão presente nos combates.

Eles acertam em todos os aspectos presentes  nesse âmbito e isso, na minha concepção de cinema, compensa muitos erros do roteiro. É lógico que o todo poderia ser melhor se investisse com mais tranquilidade no desenvolvimento dos personagens, porém Legítimo Rei ainda é um belo investimento da Netflix que ganha seu lugar no meu coração graças a representação histórica realista, aos recursos estilísticos que transformam em um bem-vindo espetáculo visual  e ao trabalho brilhante de um jovem diretor que merece mais espaço em Hollywood. Vida longa a David Mackenzie, ao streaming e ao rei!


OBS 1: O pai de Robert Bruce é interpretado pelo ótimo James Cosmo e a curiosidade é que o ator também participou de Coração Valente.