AODISSEIA
Filmes

Crítica: Lady Bird – A Hora de Voar

Um retrato do amadurecimento na cinebiografia não oficial de Greta Gerwig.

9 de Fevereiro de 2018 - 11:16 - Tiago Soares

Escrito e dirigido por Greta Gerwig, Lady Bird – A Hora de Voar (que subtítulo é esse?) é praticamente um cinebiografia não oficial da diretora, roteirista e atriz que assim como nossa protagonista nasceu em Sacramento, e coincidência ou não, deu o nome de sua mãe – Christine – a protagonista. Cristine “Lady Bird” McPherson é uma jovem que vive em Sacramento, estuda num ótimo colégio católico, tem apenas uma amiga, um irmão adotivo, um pai bondoso, uma mãe dura, mas extremamente amável e uma vontade enorme de deixar tudo isso.

Meu primeiro sentimento ao ver a obra de Greta é a a identificação, o carinho como ela aborda os momentos mais singelos e aparentemente bobos da vida de Lady são de um cuidado extremo, e é de fato tocante como ela parece estar fazendo um filme sobre ela mesma. Durante boa parte da minha infância e início da adolescência fui como Lady: desesperado para sair da minha terra, com poucos amigos – que realmente valorizavam quem eu era de fato – e com uma leve vergonha das coisas que tinha.

Antes que isso se torne um retrato pessoal, acredito que não seja o único a ter as atitudes “babacas” da juventude. Ao mesmo tempo é fácil compreender as decisões de Lady e sua jornada de amadurecimento. Os rituais de passagem a vida adulta são um marco na vida de todo jovem, e a personalidade forte de Lady torna tudo isso às vezes mais fácil ou mais difícil.

Conversando com pessoas que não gostaram do filme, o principal ponto levantado é o efeito Boyhood: Um filme sobre a vida e só. Na realidade essa é uma reclamação de vários filmes ditos como “filmes de Oscar”, mas Greta Gerwig consegue ir além ao sintetizar até o que nossa protagonista pensa com longos momentos de contemplação. É extremamente fácil saber o que Lady fará em seguida, mas isso torna o filme previsível? Muito pelo contrário.

A busca do sucesso imediato e a não aceitação da mãe Marion (Laurie Metcalf) trazem um ar de conflito. Os melhores diálogos do filme se dão entre as duas:

Lady: Você gosta de mim?

Marion: Claro que eu amo você.

Lady: Não, você gosta de mim? Do que eu sou agora?

Marion: Acredito que você vai aos poucos se tornar uma versão melhor de si mesma.

Lady: E se essa for a versão melhor?

O papel de Julie (Beanie Feldstein), melhor amiga de Lady – diferente dela e ao mesmo tempo igual – é uma parte importante de sua trajetória como pessoa. A medida que Lady sabe que a vida adulta está chegando, ela passa a valorizar mais aquilo com o que ela não terá mais contato. O pai Larry (Tracy Letts) é a figura da sabedoria, a voz do aconselhamento num mundo cercado de oportunidades, tanto boas como ruins. E ainda temos boas participações de Lucas Hedges (Manchester à Beira Mar) e Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome).

Saoirse Ronan e seu nome quase impronunciável é a alma de Lady Bird. Ela passeia entre a doçura e a impulsividade de maneira natural, sem apelar para uma performance caricatural, valendo sua indicação ao Oscar. A direção de Greta é simples, mas repleta de momentos primorosos como os passeios pela casa – muitas vezes com pouca luz natural – percorrendo os cômodos da vida de Christine, que exige ser chamada de Lady Bird. E é claro a maravilhosa Laurie Metcalf, a junção perfeita de pé no chão e sonhadora, com um futuro melhor para os filhos. Ela é racional, mas acredita em milagres, sendo a vida de sua filha um deles.

Franco e enternecedor, Lady Bird é de fato um filme sobre a vida. Mas isso não o torna menos cinema, nem mais ou menos artístico, muito menos apenas um “filme de Oscar” – o torna único.