AODISSEIA
Filmes

Crítica: La Casa Lobo

Uma animação experimental e surtada

6 de Março de 2018 - 00:43 - Flávio Pizzol

Todo festival é recheado de filmes que desprezam a narrativa em nome da arte do experimentalismo, e minha passagem por Cartagena não poderia se encerrar sem encarar um desses. O longa responsável por me colocar nessa situação foi a animação chilena La Casa Lobo, uma animação em stop-motion completamente surtada e cheia de camadas.

Misturando fábulas, referências claras aos Três Porquinhos e uma espécie de found footage publicitário, o trabalho dos artistas plásticos Joaquín Cociña e Cristóbal León acompanha Maria, uma garota sonhadora que foge de uma seita situada no Chile com o objetivo justamente de guiar sua própria vida. No entanto, isso é o começo de uma experiência no mínimo diferente.

O roteiro possui uma linha narrativa que, se revela bastante poderosa por dar voz ao líder da seita e, com isso, criticar o uso do cinema como propaganda, porém a maior parte do tempo trabalha com um texto lúdico e completamente fora da caixinha. Aproveitando o aspecto fantasioso instaurado na proposta, os autores se permitiram viajar em um conto onde mel cura queimaduras, porcos transformam-se em crianças e lobos salvam seres humanos. Os acontecimentos não possuem um verdadeiro sendo de conexão entre si, apesar de possui uma relação temática no final das contas.


O aspecto visual acompanha isso sem nenhuma alteração na ideia. Estamos falando de um stop-motion que foge totalmente do realismo, mistura técnicas e texturas completamente diferentes (é um show de pinturas de parede, lápis de cor, fita crepe e papel machê que constroem e desconstroem cenários e personagens de acordo com o desejo dos diretores), decide fugir do comum ao formar suas figuras enquanto a cena está rodando e tantas que só podem ser classificadas como incomuns. As transições entre cenas, sequências e cenários são tão loucas que eu não tenho capacidade ou vontade de tentar descrever em palavras.

É o típico produto artístico que se deve sentir antes de racionalizar e, gostar ou não, depende bastante do público. Eu não sou o maior amante dessas construções modernistas é preciso admitir que meus deram piscadas mais longas em certos momentos arrastados. Entretanto isso não me impediu de gostar da maior parte do que vi (principalmente no visual), mergulhar nos questionamentos propostos e sair impacto. Se o mesmo aconteceria com você, só você pode dizer depois de ao menos experimentar.