AODISSEIA
Séries

A terceira parte de La Casa de Papel é bem mais ou menos

Uma temporada bem aquém do que poderiam fazer.


28 de julho de 2019 - 00:35 - felipehoffmann

A terceira parte de La Casa de Papel volta muito mais corrida e recheada de cenas de ação. Mas parece que a Netflix e perdeu no meio de tantas ideias e entregou uma temporada bem abaixo do esperado. Veremos na quarta parte…

 

Quando a terceira parte de La Casa de Papel foi anunciada, questionava-se muito a real necessidade de uma outra temporada em uma produção pensada como minissérie, fechada com seus episódios. O enredo estava organizado e criar uma nova temporada era pura e simplesmente pela grana que gerou pós sucesso estrondoso.

A grandiosidade de La Casa de Papel se fez, em parte, pelo seu teor novelístico. São episódios recheados de mini tensões, solucionadas dentro deles próprios, e mais outro, e outro, e outro. Terminando com um gancho F*DIDO para um próximo capítulo.

E assim a série voltou. Com mais orçamento, mais locações, mais ideias e a mesma essência que a consagrou.

 

Toquio la casa de papel viagem

 

Contudo, em 8 episódios, a Netflix teve em mãos um enredo que fugia bastante da calma e meticulosidade do professor. A terceira parte de La Casa de Papel aposta muito mais na ação e no desespero, confrontando os personagens após o assalto anterior. Mas o que seria positivo é transformado em uma salada confusa, com a série assumindo uma cara mais apressada, recheada de eventos instantâneos e um pouco desconexos entre si.

Parece que a série não tinha tanta história para contar e resolveu apostar em explosões e perseguições intensas para amenizar a falta de ideias. Tudo é muito confuso e os reais planos se misturam, confundindo a gente.

 

professor terceira parte la casa de papel

 

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Não fica muito claro se os planos do Professor (Álvaro Morte) eram os mesmos de Berlin (Pedro Alonso), que volta com flashbacks pontuais, ou apenas uma situação vingativa pela morte do irmão no fim da última temporada. Também não está às luzes se o amor estrondoso de Raquel (aka Lisboa – Itziar Ituño) e Professor foi posto a prova, quando todas as brigas pareciam meio sem pé nem cabeça.

Correr com a série é diferente de ser apressado. Essa vontade de criar tensões a qualquer custo, num tempo mais apertado, deixa o desenvolvimento dos personagens muito aquém do esperado, empobrecendo a história. E isso reflete na forma de entender e criar empatia com essas novas pessoas. Se não os desenvolve, não cria conexões emocionais e tudo parece mais artificial, muito distante de conquistar o público.

A figura de Palermo (Rodrigo De la Serna), por exemplo, tenta substituir a do finado Berlim. A amizadeaté mais que isso, dos dois era a fagulha para esse novo assalto e a série tenta colocar mais peso num plano orquestrado por eles e que o Professor acaba caindo de gaiato nessa história. Mas até certo ponto, ele apenas é um babaca egocentrista cheio de manias. Seu passado e suas ideias são pouco abordados, exceto por cenas onde ele já é esse tipo de pessoa, e seus chiliques soam tão artificiais quanto o plano do assalto dessa história. Nem mesmo os incríveis diálogos de chumbo trocado de Nairóbi e ele foram capazes de amenizar a falta de carisma do personagem.

Alicia Serra (Najwa Nimri), a nova inspetora, é muito mais badass que Raquel porém paira na caricatura de uma grávida que fuma e come doces o tempo todo. Impiedosa e meticulosa, Alicia passeia por momentos de pura sonseira e outros de grande genialidade. Tudo isso sem uma história que faça compreender de onde surgiu e quais conexões possui com o alguns dos personagens.

 

 

E aí fica a cargo dos antigos assaltantes sustentarem a parte realmente interessante da série. Tóquio (Úrsula Corberó) e Rio (Miguel Herrán) são as peças que fazem tudo girar. É a partir da captura de Rio que todos se reúnem novamente para tentar liberta-lo. Pelo menos subentende-se isso na cabeça do Professor, apesar de esconder as verdadeiras intenções desse assalto. Nairóbi (Alba Flores) e Helsinki (Darko Peric) formam dupla com uma amizade improvável, porém bem verdadeira e sincera. E Denver (Jaime Lorente) com Mônica (Esther Acebo), agora chamada de Estocolmo e seu filho, são o núcleo familiar carregados com peso da morte e de algumas culpas nas costas. O grupo clássico, no qual já nos apegamos e que temos alguma conexão.

Pesa contra a terceira parte de La Casa de Papel a conveniência do roteiro em transformar personagens mega inteligentes em sonsos e bobalhões quando lhe convém. É um artifício pra fazer a história andar mas que foge de todas as características de qualquer um deles. Tendo em vista que a ideia é apresentar um plano meticuloso para um assalto, com todos os passos à conta gotas, quando confrontamos essas situações, nos questionamos se de fato tudo foi pensado ou simplesmente jogado pra gente aceitar.

O gancho enorme que essa temporada deixa para próxima coloca a série numa situação que nunca esteve. De descontrole dos personagens e mudança do status de plano perfeito para o completo caos. Ponto positivo por ousarem mudar e exigir que as peças se movam para lugares fora da zona de conforto. Mas é muito pouco por tudo que La Casa de Papel já criara.

Recheadas de cenas de ação e com tensões construídas para nos tirar o fôlego, a série retorna, mas falta. Falta a sensibilidade de criar uma história de fato. E não apenas um pedaço de um todo que não fala por si só. A terceira parte de La Casa de Papel é simplesmente uma perna pra quarta parte. É como ser refém da série pois ela te obriga a assistir uma próxima temporada sem nem ao menos se resolver nos próprios problemas que desenvolvera.

Você pode não concordar, mas acho isso bem desonesto com o público.