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Séries

Crítica: La Casa de Papel 1ª Parte

Sempre um passo à frente de você

20 de janeiro de 2018 - 13:25 - felipehoffmann

É muito bom ver conteúdo estrangeiro fazendo sucesso numa plataforma americana como a Netflix. Já nos acostumamos ao idioma inglês e aos tiques tipicamente hollywoodianos das produções. Quando séries como 3%, Marseille e La Casa de Papel batem à porta, causam um ar de satisfação por lembrar que ideias boas surgem em todos os cantos. E como o serviço de streaming se tornou global, é muito importante celebrar conteúdos como essas séries, pois geram um tom de pertencimento e reconhecimento da sua realidade.

La Casa de Papel não é original da Netflix. A série, criada por Álex Pina, é produzida pela espanhola Antena 3 e chegou no catálogo da empresa no finzinho de 2017. Originalmente, ela tem um total de 15 episódios, mas a Netflix pegou 9 desses e transformou em uma primeira parte, com seus já conhecidos 13 episódios.

Misturando ação, suspense, ideias fantásticas e viradas de mesa fabulosas, La Casa de Papel cativa pela sua inteligência. A série sabe onde quer chegar e cada passo dos personagens é construído com uma pegada que pode ser usada lá na frente.

 

 

Essa inteligência toda se reflete na mente do Professor (Álvaro Morte). O mentor recruta 8 criminosos e lhes oferece um plano meticuloso para roubar a Casa da Moeda Espanhola, cada um recebe o nome de uma cidade e passam a conviver durante 5 meses em uma casa, tramando o roubo. Pelo brilhantismo do assalto, chega até lembrar Prision Break, mas para por aí mesmo. La Casa de Papel cria um suspense tão grande durante a trama que te deixa com o c* na mão em cada cena mais ousada.

Por possuir um enredo complexo, com flashbacks, flash fowards e situações presentes, Pina utiliza a figura de um narrador onipresente para nos explicar as situações. Cabe à Tokio (Úrsula Corberó) destrinchar os detalhes da trama, porém em algumas ocasiões isso pode soar um pouco forçado, dizendo exatamente o que estamos vendo. Mas isso acontece raramente e pouco interfere na narrativa e no nosso entendimento sobre ela.

Trabalhar a Síndrome de Estocolmo foi um tiro certeiro para a grandeza de La Casa de Papel. Sejam os 9 assaltantes, os 67 reféns ou os policiais envolvidos, cada personagem tem uma história, nem boa nem ruim, apenas uma história. Desenvolvemos uma empatia por cada um e realmente somos capazes de torcer para que saiam de lá com a grana.

 

O público vai estar do nosso lado. Temos que criar empatia e ganhar a aceitação das pessoas. Diz o Professor em um momento.

 

Um dos grandes trunfos da série é a capacidade de reflexão entregue a nós. Aqueles monstros não são tão assustadores assim. Suas razões particulares levaram para aquela condição e o dinheiro distorce até quem era refém e deseja virar “sócio” do negócio. O dinheiro mexe com a sociedade e La Casa de Papel te deixa essa pergunta: “Você prefere ser libertado agora ou quer sair rico daqui?”

 

 

La Casa de Papel é muito bem construída e vai além de um sequestro. Sua pirâmide de cartas dá pistas que vai desmoronar mas se mantém firme, com exatidão, às ideias do Professor. Embora algumas situações possam parecer forçadas, elas dão continuidade nos momentos oportunos, com saídas interessantes e bem pensadas.

Seu incrível elenco deixa o enredo ainda mais interessante. A figura de Berlin (Pedro Alonso) passeia entre o assustador e o charmoso, como uma balança carregada igualmente. E o que dizer de Arturito (Enrique Arce)? Ele é o elo entre a inteligência dos reféns e o medo dos assaltantes, criando situações tão incríveis ou tão ridículas que engrandecem sua atuação.

A Netflix resolveu deixar um gancho bem safado ao fim dessa primeira parte, pronta para continuar em abril. Essa brincadeira de polícia e ladrão espanhola terminou em seu ápice e com mais uma pergunta no ar. O Professor pode ter sido tão burro assim? Vamos esperar a segunda parte.