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Depois de muito tempo, William Friedkin, diretor dos perfeitos O Exorcista e Operação França, retorna à direção com um filme espetacular. Killer Joe não merece ser desconhecido.

O filme é focado em Chris, um jovem endividado, e sua família, que decidem matar a mãe para ganhar a apólice de seguro que estaria no nome da filha mais nova, Dottie. Para realizar o trabalho, Chris contrata Joe Cooper, um detetive que faz “bico” como assassino.

O roteiro de Tracy Letts, que é baseado em uma peça homônima escrita pelo mesmo Letts, tem uma premissa aparentemente simples, mas a construção da história e, principalmente, sua conclusão são ousadas. É interessante ressaltar que o trabalho de transposição foi muito bem feito, por que poucas cenas têm resquícios teatrais. Talvez o clímax, que se passa em um único cômodo, tenha me lembrado um pouco uma peça de teatro.

Voltando para o roteiro em si, a construção é extraordinária. O que começa simples – quase uma comédia de erros – vai crescendo aos poucos até tomar proporções gigantescas no terceiro ato. Parece que Letts quis ir preparando o espectador aos poucos, posicionando cenas pesadas no decorrer do filme para que o clímax não chocasse tanto.

Outro elemento muito interessante, que talvez lembre um pouco o teatro, é o humor negro. O filme não é engraçado, mas esse sarcasmo faz um ótimo contraponto ao suspense e à violência. Muitas piadas e criticas aos EUA – principalmente ao Texas – podem ser esperadas.

A direção de Friedkin também funciona com perfeição, sendo minuciosa como sempre. Movimentos de câmeras que insistem em dar uma perspectiva diferente para o público chamam a atenção, mas não é nada tão diferente. William acerta no que faz, mas não tenta ousar como fazia em O Exorcista.

Também é evidente que, mesmo com a minúcia, que a direção de William está mais leve. O diretor, que demorou dias pra gravar uma cena de bacon sendo fritado em O Exorcista, opta por fazer um clímax sem ensaio, deixando em evidência muitos momentos de improviso, principalmente de Matthew McCounaghey e Thomas Haden Church.

É por esse improviso, digno de teatro, que o elenco toma conta do filme. Matthew McCounaghey rouba todas as cenas pra ele e surpreende, se pensarmos que esse é um dos primeiros filmes da sua leva atual de atuações sérias e densas. Seu olhar é congelante e seu tom de voz calmo é mais ameaçador que qualquer grito.

Além de tudo, Matthew é responsável por duas cenas chocantes e inesquecíveis. A cena de sexo com Dottie, que tem uma sensibilidade diferenciada misturada com um erotismo assustador, e a cena do clímax onde ele obriga a mulher de Ansel a fazer sexo oral na coxa de galinha (eu fiquei em estado de choque com essa cena).

Entretanto, não é só Matthew que marca sua presença no filme. Todos os outros atores coadjuvantes têm seus grandes momentos, mesmo que as atrizes chamem mais atenção. Juno Temple está arrasadora como a falsa inocente Dottie – que também têm cenas de tirar o fôlego – e Gina Gershon destrói como a mulher de Ansel que eu não lembro o nome.

Thomas Haden Church e Emile Hirsch estão mais apagados que os outros, mas tem ótimas cenas, principalmente no terceiro ato chocante. Não vou dar mais detalhes sobre esse momento para deixar o espectador tão chocado quanto eu fiquei.

Uma direção sensacional, um roteiro sublime e um elenco perfeito e coeso marcam esse filme que não merece ficar escondido nas prateleiras das locadoras ou nos sites de download. Um filme chocante do inicio ao fim que merece ser assistido por quem gosta de terminar um filme e ficar 10 minutos com a boca aberta.

OBS 1: Esse não é filme pra qualquer público. É importante ter estômago – e talvez ser maior de idade – pra assistir Killer Joe sem ter problemas futuros.

OBS 2: Eu fiquei muito curioso para assistir a peça original, que deve ser uma obra prima.

OBS 3: Só pra vocês terem uma noção do teor do filme, essa é uma amostra da primeira cena do filme:

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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