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Filmes

Crítica: Jurassic World – Reino Ameaçado

Um passo rumo ao diferente...

15 de junho de 2018 - 12:51 - Flávio Pizzol

Jurassic Park é, sem dúvida nenhuma, um dos filmes que mudou a história do cinema, iniciando uma nova era no universo dos efeitos especiais e dando vida a seres que habitavam apenas os livros ou a nossa imaginação. O sucesso foi avassalador e, alguns anos depois de continuações questionáveis, Jurassic World chegou para reviver a franquia, completar nosso sonho de ver o parque aberto e provar que a marca ainda tinha valor através de uma bilheteria surpreendente. Agora era chegada a hora de uma nova continuação mostrar que os dinossauros poderiam viver além da nostalgia do primeiro longa e isso, apesar dos seus diversos problemas, Reino Ameaçado consegue fazer com louvor.

A trama começa acompanhando os esforços de Claire e Owen para resgatar os dinossauros de um Ilha Nublar ameaçada pela iminente erupção de um vulcão gigantesco. Um antigo sócio de John Hammond (que convenientemente nunca tinha sido citado) oferece o financiamento necessário pra transferir as espécies do antigo parque para um santuário natural, porém as motivações em torno dessa proposta podem ser mais obscuros do que qualquer um deles poderia pensar.

O roteiro de Colin Trevorrow (Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros) e Derek Connolly (Kong: A Ilha da Caveira) transformam essa premissa cheia de elementos estranhos em um texto bastante amarradinho e isso eu não posso negar. No entanto, essa amarração funcional chega através de diversas conexões forçadas que sobressaem principalmente na trama da menininha, um humor frágil e repetitivo na figura do seu alívio cômico e uma quantidade inumerável de coincidências – muito parecidas entre si, por sinal – que surgem pra salvar o dia de última hora. Esse combo torna tudo muito previsível e antecipável, logo não se surpreenda quando quem estiver do seu lado conseguir adivinhar o próximo passo do roteiro uns dois minutos antes deles acontecer.

Por sorte, a produção de Jurassic World: Reino Ameaçado foi salva pela Disney. Eu sei que isso soa estranho considerando que a casa do Mickey não possui nenhum envolvimento direto com o longa, porém a contratação – e posterior demissão por diferenças criativas – de Colin Trevorrow do comando do nono episódio de Star Wars foi o que abriu espaço para a chegada do verdadeiro salvador desse longa: Juan Antonio Bayona (O Orfanato, O Impossível e Sete Minutos depois da Meia-Noite). Trevorrow não fez um mau trabalho no primeiro longa, mas não é exagero nenhum dizer que o espanhol salva, literalmente, algumas cenas textualmente horrorosas com bons jogos de câmera e uma construção acertada do clima.

J.A. Bayona – que talvez seja um dos nomes mais talentosos dessa última geração de diretores – domina a arte de usar os efeitos especiais para completar a narrativa, gosta de transitar por gêneros distintos com muita fluidez e sabe como usar tudo isso para injetar sangue novo na franquia através de um filme que poderia ser facilmente dividido em duas partes. A primeira metade usa aquela aventura típica de Jurassic Park como combustível para situar o público no momento em que a trama se passa, e recriar de forma efetiva as conexões entre o espectador e alguns personagens. Já a segunda parte quebra esses paradigmas e deixa a direção brilhar de verdade, dando o já citado passo rumo ao diferente quando fica mais claustrofóbico e se entrega a um clima gótico suave que nunca tinha feito parte da franquia anteriormente.

Apoiado no olhar cinematográfico de um diretor que já bebeu muito da fonte do horror, Jurassic World: Reino Ameaçado consegue manter a tensão em alta durante muito tempo, brincar com a capacidade de camuflagem dos dinossauros em algumas sequências de tirar o fôlego e até mesmo arrancar alguns bons sustos. Tudo muito bem orquestrado e equilibrado por uma fotografia cheia de luzes e sombras de Oscar Faura (colaborador de Bayona desde O Orfanato) e uma trilha sonora claramente influenciada pelo gótico europeu de Michael Giacchino (Planeta dos Macacos: A Guerra). O melhor exemplo de como tudo isso funciona está numa pequena cena onde um dinossauro se posiciona de maneira assustadora como uma gárgula no telhado, sendo banhado apenas pela iluminação certeira da lua e orquestrado pelo toque agoniante do órgão clássico de Giacchino.

Uma mistura perfeita e bem balanceada que, apesar das diferenças para a franquia como um todo, também se reflete no ótimo trabalho de um elenco que parece mais à vontade do que no longa anterior. Chris Pratt (Vingadores: Guerra Infinita), por exemplo, mantém o carisma necessário para se enquadrar como herói, mas acerta todas as piadas propostas justamente por não ter a responsabilidade de ser o único alivio cômico da trama. O mesmo pode ser dito de uma Bryce Dallas Howard (Ouro) que ganha mais força e se equipara em protagonismo com seu suposto par romântico na luta contra vilões que, mesmo sendo extremamente genéricos, encontram bons intérpretes em Rafe Spall (Black Mirror), BD Wong (Mr. Robot), Ted Levine (The Alienist) e Toby Jones (Atômica). 

A colagem de todos esses estereótipos, personagens carismáticos, gêneros e boas escolhas visuais acaba sendo exatamente que Jurassic World: Reino Ameaçado precisava para superar seu roteiro defeituoso e resultar em um longa tenso e divertido. Não é nada parecido com tudo que já foi feito na franquia nas produções anteriores, mas talvez seja exatamente por isso que ele funcione, pegando o espectador desprevenido e funcionando tanto como um suspense de monstro, quanto como uma aventura cheia de dinossauros que, mesmo não sendo perfeita, honra e amplia o legado de Steven Spielberg e Michael Crichton nos cinemas.


OBS 1: A eficiência com que o longa consegue fazer o público se afeiçoar aos dinossauros é surpreendente. Você torce para a Blue o tempo inteiro, mas também sente a dor daqueles gigantes que gritam durante a erupção e até comemora quando o suposto vilão – entre os dinos – ataca certo personagem. Incrível!