AODISSEIA
Filmes

Crítica: Jumanji – Bem-Vindo à Selva

A melhor adaptação de games do ano já estreou e você nem sabia...

4 de janeiro de 2018 - 13:25 - Flávio Pizzol

Habitante frequente das Sessões da Tarde que ocupavam minha infância, o Jumanji original é um bom filme – revi há pouco tempo na Netflix e ainda funciona – que se tornou uma peça nostálgica muito importante da minha vida. É justamente esse o motivo que me fazia torcer o nariz por esse possível remake/continuação que tinha tudo pra ser um Baywatch na selva. Com a expectativa mais baixa possível, essa sensação durou até Bem-Vindo à Selva começar e eu acabar me divertindo o suficiente. Mas vamos com calma…

A história, que começa inesperadamente de onde o longa de 1995 parou, acompanha quatro adolescentes que são apresentados com agilidade no melhor estilo Clube dos Cinco, reunidos na detenção da escola e sugados para dentro das selvas de Jumanji, após ligarem um video game perdido em meio aos entulhos do porão. Agora, para voltarem vivos para o mundo real, eles precisam assumir as habilidades de seus avatares, enfrentar o vilão que roubou a visão do jaguar, acabar com a maldição que está destruindo aquele universo e, obviamente, gritar o nome do jogo em alto e bom tom.

Escrito pelas oito mãos de Chris McKenna (Homem-Aranha: De Volta ao Lar), Erik Sommers (LEGO Batman: O Filme), Scott Rosenberg (Alta Fidelidade) e Jeff Pinkner (A Torre Negra), o roteiro não parece sofrer com a típica pressa de Hollywood quando se fala de grandes franquias e, mesmo passando por algumas notas erradas, acerta nas escolhas narrativas mais importantes. É uma gangorra que mantém, de um lado, um vilão extremamente genérico, tentativas falhas de flertar com o drama através do personagem de Nick Jonas (Kingdom) e a exigência de um um certo nível de descrença para aceitar tanto a forma como o jogo se renova quanto certos exageros visuais que já eram mais do que esperados. Enquanto isso, o outro lado reúne os elementos necessários para entregar uma aventura recheada com doses exageradas de comédia.

 

Tudo depende da sua expectativa e do seu ponto de vista, mas o fato é que o longa funciona tão bem como paródia do universo dos jogos que acaba sendo, ao mesmo tempo, a melhor adaptação de vídeo game já feita para as telonas. A estética particular, as cutscenes, os avatares, as habilidades especiais, a limitação de vidas, os personagens não-jogáveis como parte do didatismo, o esquema de fases e tantos outros elementos são incluídos no roteiro de forma divertida e coerente com o todo, gerando inclusive boas piadas como, por exemplo, o olhar dramático do explorador, interpretado por Dwayne Johnson.

Como uma continuação do filme de 1995 (sim, é isso que o filme se propõe a ser), o novo longa também acerta ao levar os espectador para uma jornada contrária àquela que fora feita anteriormente, expande a mitologia com a possibilidade de desenvolver uma boa franquia e lota todas as trilhas com easter eggs e/ou referências ao personagem de Robin Williams. Além disso, os roteiristas não esquecem das regras temporais que foram estabelecidas lá atrás e conseguem entregar conclusões de arcos que, apesar da subtrama romântica um pouquinho fraca, fazem sentido e passam longe de soarem piegas.

A direção de Jake Kasdan (Sex Tape: Perdido na Nuvem) acerta na apresentação ágil – e didática na medida certa – dos jovens protagonistas e dos seus respectivos avatares, encontra um tom que se mantém consistente durante as exageradas duas horas de duração, demonstra ter algum senso de timing cômico e, contando com ótimos efeitos especiais, faz um trabalho bacana nas muitas e empolgantes cenas de ação. Mesmo assim, é impossível negar que boa parte desses acertos acompanham um elenco que sabe como se divertir e levar o público na mesma onda.

Dwayne “The Rock” Johnson (Velozes e Furiosos 8) e Kevin Hart (As Aventuras do Capitão Cueca: O Filme) interpretam eles mesmos, mas funcionam tanto como líderes de grupo, quanto como opostos narrativos na hora de criar piadas. Karen Gillan (Guardiões da Galáxia Vol. 2) cumpre seu papel à risca, tornando-se uma boa surpresa quando envereda no ramo da ação dançante ou da crítica à sexualização feminina nos jogos. E, por fim, Jack Black (The Last Man on Earth) aproveita a dicotomia entre Bethany e seu avatar para se libertar de qualquer coleira e simplesmente brilhar com algumas das sequências mais hilárias da produção.

Fora isso, o roteiro de Jumanji: Bem-Vindo à Selva ganha alguns pontos por fugir acertadamente das piadas escatológicas ou ofensivas que tinham tudo para preencher o longa. Levando em conta o que tentaram fazer com adaptação cinematográfica de Baywatch, é possível perceber que essa possível nova franquia cresce em qualidade quando aposta na inocência do humor físico, na já citada paródia do universo em que está inserido e numa zueira mais inteligente que consegue alcançar até mesmo questões de gênero sem soar deslocado.

Com isso, o longa só vai divertindo o público, arrancando risadas de todas as idades presentes na sessão e acumulando pontos que o tornam uma surpresa positiva desse começo de ano. Claro que o longa passa longe de ser a grande produção do verão ou superar o original em qualquer aspecto, mas o novo Jumanji entende sua proposta, acerta na sua execução, coloca um sorriso na cara de quem, assim como eu, cansou de falar do trailer e ainda resgata aquele senso de aventura típico da Sessão da Tarde. É definitivamente um ótimo programa para as férias!