AODISSEIA
Filmes

Crítica: Jogador Nº 1

Aviso: Esse filme pode causar múltiplos orgasmos nerds...

3 de Abril de 2018 - 13:57 - Flávio Pizzol

Eu nunca li a obra literária que deu origem ao filme, logo não sabia muito bem o que esperar. Os trailers davam algumas pistas e enchiam a tela com milhares de referências/homenagens, mas, lá no fundo, o meu coração sabia que só queria uma coisa: o retorno daquele Steven Spielberg que praticamente criou os blockbusters, mudou a história do cinema para sempre e marcou minha vida de maneiras inexplicáveis. Jogador Nº 1 passa longe de ser perfeito ou até mesmo de garantir um espaço na seleta lista de melhores trabalhos do diretor, mas cumpre essa proposta ao mesmo tempo em que diverte, encanta e consegue imergir qualquer pessoa comum na mente de um verdadeiro amante de cultura pop.

Baseada nos escritos originais de Ernest Cline (nerd raiz, dono de um DeLorean e roteirista do ótimo Fanboys), a trama se passa em um futuro distópico onde as pessoas usam um sistema digital, chamado Oasis, como rota de fuga da escassez de recursos e trabalho. As coisas mudam quando o criador do Oasis morre e deixa um easter egg – literalmente, um ovo – escondido na sua própria criação, prometendo uma fortuna e controle do jogo para quem encontrar essa peça.

Não tem como uma história ser mais nerd do que isso, assim como não existe ninguém melhor do que Steven Spielberg para comandar essa bagunça. É muito gostoso ver o diretor retornar para esses trabalhos mais aventurescos e aproveitar da melhor forma possível a fluidez da sua câmera, incluindo os planos abertos que apresentam ambos os mundos com uma precisão de detalhes visuais absurdas, os típicos planos-sequência que brilham quando o objetivo é explorar cada centímetro do Oasis e a injeção precisa de agilidade nas cenas de ação que caminham por vários gêneros sem nenhuma dificuldade. A corrida entre dinossauros e macacos gigantes, a reconstituição dos corredores assustadores de O Iluminado e aquela boate cheia de personagens icônicos vão demorar pra sumir da minha imaginação.

É óbvio que parte da funcionalidade dessas três cenas citadas envolve a presença de uma quantidade absurda e incontável de referências e homenagens a filmes, séries e jogos eletrônicos de formatos diversos. Cada cartaz, menção em diálogo ou aparição especial é um deleite para o coração de qualquer nerd que se preze, porém acaba funcionando como uma faca de dois gumes dentro da narrativa quando alguns momentos-chaves dependem exclusivamente da compreensão de certos easter eggs. O nerd – que é indiscutivelmente o público-alvo do longa – vai entender sem nenhuma dificuldade e se divertir na busca por cada rostinho que surge em segundo plano, mas o mesmo não pode ser dito daquele espectador comum que não necessariamente conhece a cena em que John Cusack levanta o rádio na janela do amor da sua vida em Digam o Que Quiserem. Nesse caso, por exemplo, existem grandes chances de você não sentir o impacto necessário no discurso que o protagonista faz o terceiro ato.

No entanto, isso é muito mais culpa do roteiro do que do nosso grande tio Spielberg. A adaptação para as telonas, realizada pelo próprio Cline em parceria com Zak Penn (Os Vingadores), até acerta nos primeiros minutos quando estabelece o contraste entre esses dois mundos diferentes com um número suficiente de diálogos expositivos, mas parece se perder aos poucos no decorrer da projeção. As motivações do vilão e qualquer uma das suas justificativas são pífias, os personagens são um tanto quanto unidimensionais demais e as relações entre eles abusam de algumas falas bem pobres. Eu preciso admitir que não me incomodei tanto com esse último aspecto durante a sessão e comprei basicamente todas as relações de amizade ou amor propostas pelo texto, porém entendo (mais uma vez) que o parte público pode ter alguma dificuldade para se conectar de verdade com Wade, Art3mis ou qualquer outro membro pouco explorado dos “Cinco do Topo”.

O fato do elenco de Jogador Número 1 não sair da sua zona de conforto em praticamente nenhum momento também ajuda nesse afastamento entre público e personagens. Tye Sheridan (X-Men: Apocalipse), Olivia Cooke (meu crush de Bates Motel), Ben Mendelsohn (O Destino de uma Nação), Lena Waithe (Master of None), Simon Pegg (Missão: Impossível – Nação Secreta) e companhia não estão mal, mas também nunca fazem nada além do básico. Tudo funciona muito melhor dentro do Oasis e, graças a Steven Spielberg, o próprio ambiente virtual ajuda o completar o trabalho dos atores com cores deslumbrantes e efeitos de tirar o fôlego.

E, pra falar a maior verdade de todas, ter Spielberg na direção é definitivamente o maior – e talvez único – trunfo de Jogador Número 1. Ele sabe como construir o clima, lançar o espectador em uma experiência realmente imersiva e, acima de tudo, consertar alguns erros de roteiro através da pura catarse. Entre referências old school e algumas participações mais moderninhas, Spielberg é responsável por transformar cada cena de ação em um deslumbre, usar as referências como “catapultas narrativas” e arrancar comemorações desse nerd que vos escreve quando certos hadoukens ou robôs japoneses gigantes surgem em cena. Se Jogador Número 1 consegue superar as dificuldades do roteiro para virar uma daquelas aventuras divertidas que tem cara de Sessão da Tarde (no bom sentido, é claro), o motivo é muito claro: o Spielberg clássico está de volta e parece ter muita vontade de deixar seus fãs em puro êxtase.


OBS 1: Eu vou precisar rever esse filme diversas vezes e, quem sabe, ficar pausando “frame a frame” pra identificar todas as referências…