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Séries

Crítica: Jessica Jones 2ª Temporada

O passado sempre volta a atormentar

14 de Março de 2018 - 11:34 - felipehoffmann

Jessica Jones carregava o peso de uma primeira temporada excelente. A série surpreendeu por trazer uma protagonista pouco conhecida do grande público, viciada em álcool e atormentada por um vilão fundamental pra fazer a trama rodar. Isso fez com que a produção se tornasse uma das grandes surpresas da Netflix pra essa nova leva de heróis da Marvel na TV.

Contudo, resolvidas as tretas da primeira temporada e encerrado o arco Killgrave, o que a showrunner Melissa Rosenberg (Dexter) tinha para falar sobre Jessica Jones?

Atormentar a personagem com traumas do passado parecia uma fórmula batida a ser explorada. Killgrave (David Tennant) foi o grande responsável por transformar totalmente a personalidade de Jessica. Uma parte de quem ela é hoje foi justamente dos traumas que o vilão deixará. A outra parte era a família. Ou a ausência dela. E foi justamente aí que a série se apoiou.

Essa temporada de Jessica Jones não tem um vilão, por assim dizer. Todos são humanos, uns com superpoderes, outros não. Mas todos com seus problemas e suas motivações. Quando compreendemos que a mãe da heroína está viva e é a assassina seriada misteriosa, viramos a chave para tentar entender onde a série quer chegar.

 

 

Até a metade da temporada, existe um vazio inócuo de acontecimentos. A narrativa noir investigativa se mostra realmente interessante, mas o ritmo dos episódios, e seu clima mais arrastado, cansa quem espera ver algo mais intenso e envolvente. Não que isso seja ruim, porém a forma como tudo é apresentado, com personagens surgindo, expondo problemas e simplesmente sendo esquecidos, pode dar uma indigesta sensação de WTF  pra quem acompanha a série.

A partir do ponto de virada da revelação parentesca de Jessica Jones e sua mãe, até então dada como morta, a série toma um outro rumo mas balança em saber onde quer chegar com isso tudo.

Kristen Ritter (Breaking Bad) e Janet McTeer (Livre Para Amar) são duas das melhores atrizes que a Marvel tem na TV. Que química as duas possuem. Janet, no papel de mãe, se orienta com uma personagem carregada de problemas mentais, lidando rotineiramente com surtos de raiva. Kristen faz a filha desorientada entre o amor por uma mulher, que se foi e subitamente retornou, e a necessidade de justiça em entregar uma assassina.

Aliás, os atores de apoio da série são muito bons. Malcolm (Eka Darville) tem uma das melhores evoluções em Jessica Jones. O cara sai do fundo do poço, afundado em drogas, vira investigador na ALIAS e se torna sócio de uma grande empresa, tudo muito bem amarrado. Já Trish Walker (Racheal Taylor) se divide em duas durante a série. E isso não foi nada legal. Trish forçava Jessica a investigar seu passado a todo modo. Depois, se contradizia, querendo eliminar os fantasmas da vida de sua irmã. Seu vício nas drogas da IGH consumiam a personagem, mas, quando era conveniente, o roteiro esquecia essa dependência e deixava Trish resolver por si só alguns problemas.

 

 

 

Carrie-Anne Moss (Matrix), na pele de Jeri Hogarth, mostra o poder de uma mulher bem sucedida depois dos 40. Forte e inteligente, Jeri mantém uma postura imponente no trabalho. O grande problema aqui é o roteiro forçar a personagem a lidar com uma doença e fazê-la cair no clichê da superação por meio do conhecimento interior. Isso deixa tudo muito forçado, com situações bobas e desfechos baratos. Apesar de Carrie atuar esplendidamente bem, seu arco é o mais desinteressante de toda a série.

Ao longo dos seus 13 episódios, todos escritos e dirigidos por mulheres, Jessica Jones passeia por altos e baixos. Os 8 episódios de Os Defensores talvez tenha sido o ponto ideal para essas séries da Marvel. Nesse tom investigativo de Jones, tudo fluiria com mais precisão, sem as barrigas que essa temporada teve.

No geral, a segunda temporada de Jessica Jones aprofundou ainda mais o passado da detetive. Aliás, o sétimo episódio é fundamental para entender a personalidade da heroína. Contudo, a série derrapou em algumas escolhas, deixou histórias abertas e sem explicação e forçou situações para explicar o que lhe era conveniente. Apesar de uma história forte e de família, o peso comparativo de uma primeira temporada incrível, jogou pra baixo o nível dessa sequência. O lado bom disso tudo é que o futuro tá muito mais aberto para explorar novas ideias em uma terceira temporada e enterrar de vez os fantasmas do passado de Jessica Jones.