1

Um filme emocionante (não para todos)


Dia 22 de novembro de 1963. Três tiros contra uma comitiva, um presidente assassinado em plena Guerra Fria, uma filmagem icônica e uma cena muito forte que ficou marcada na memória de toda uma geração de americanos. Atribuída a um suspeito nunca julgado, a morte de John F. Kennedy foi notícia por muito tempo, influenciou nas relações entre EUA e União Soviética, gerou milhares de teorias de conspiração e foi revisitada inúmeras vezes por Hollywood. Jackie entra para essa longa lista de filmes, mas ganha alguma importância por apresentar o olhar mais próximo de sua esposa.

Mas não se engane: esse longa não é uma cinebiografia de Jacqueline Kennedy. O roteiro de Noah Oppenheim (Maze Runner: Correr ou Morrer) acompanha os dias que seguiram o assassinato através de um jogo de memórias – um tanto desconexas – que a própria primeira-dama divulga para um jornalista sem nome. A ideia é basicamente explorar as reações das pessoas próximas e o combate ao luto, enquanto crianças precisam ser consoladas e o legado do presidente salvo.

O desenvolvimento do texto e a edição bastante picotada de Sebastián Sepúlveda (El Club) optam por um encadeamento mais afetivo do que linear e posiciona os fatos de acordo com as recordações de sua protagonista em meio ao processo de luto, alcançando a tão esperada (e brutal) reconstituição do crime apenas em seu clímax. O entendimento do crime e das decisões políticas que o seguiram são propositalmente dificultados, mas o longa encontra sua alma justamente no contexto emocional que acompanha a conversa com os filhos, a saída da Casa Branca e outras decisões que não deveriam passar pelas mãos de alguém tão ferido.

São situações dolorosas que vão pesando e mexendo com o espectador da mesma forma que acontece com a protagonista. A diferença é que Jackie está exatamente no meio desse turbilhão de emoções que confunde a mente e a transforma em uma das mulheres mais fortes da sua geração. Natalie Portman (Cisne Negro) compreende todas as inseguranças da personagem, cria uma caracterização corporal impressionante e carrega o filme com uma atuação cheia de camadas e emoções distintas. Sua vaga no Oscar pode ser facilmente validada pelas incríveis transições entre tristeza, determinação, medo, independência, alegria, desespero e desolação pela morte do seu grande amor.

A direção do chileno Pablo Larraín (Neruda) acompanha as memórias mais íntimas de Jackie com um olhar muito próximo e um tanto documental que pode emocionar, enquanto recria as cenas exibidas publicamente pela cobertura midiática como se as mesmas tivessem sido retiradas diretamente da televisão dos anos 60. A substituição da primeira-dama real e a fotografia granulada de Stéphane Fontaine (Capitão Fantástico) devem levar o público – principalmente, o americano – em uma viagem nostálgica realmente intensa.

No entanto, ele parece estar sempre manipulando a linguagem para gerar esses efeitos, seguindo o mesmo truque que a própria Jackie utiliza para obrigar o jornalista a publicar a sua versão dos fatos. É uma jogada de metalinguagem com o próprio filme que funciona no papel, mas afasta o espectador que não consegue decidir se está assistindo uma visão honesta daqueles sentimentos ou apenas algo que os roteiristas e personagens desejam que seja visto. Nesse aspecto, a forma como Larraín recria os momentos midiáticos mais icônicos e a confusão planejada pela montagem refletem esse sentimento de uma forma um tanto quanto incômoda.

Eu compreendo – e já alertei anteriormente – que a proposta do filme é apenas apresentar os fatos históricos pelo olhar de alguém mais próximo a JFK e isso funciona na maior parte do tempo. Jackie é internalizado, doloroso, pesado e consegue transmitir o sofrimento dela com sensibilidade e força, porém se perde na hora de estabelecer uma conexão emocional entre a personagem e os diversos tipos de público. Talvez essa fosse uma característica de Jacqueline Kennedy, mas eu não posso confirmar e fico com a impressão de que esse turbilhão de sentimentos deve mexer muito mais com aqueles espectadores mais próximos da realidade. Apesar de ser dirigido por um chileno e protagonizado por uma israelense, Jackie parece ser feito por encomenda para emocionar os americanos.


OBS 1: A Academia indicou o filme nas categorias de melhor atriz, melhor figurino e melhor trilha sonora. Todos bem justos!


Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

IBOY é o filme de super-herói da Netflix

Previous article

Vikings – 4ª Temporada/ 2ª Parte

Next article

You may also like

1 Comment

  1. […] Amy Adams – A Chegada Emily Blunt – A Garota no Trem Emma Stone – La La Land – Cantando Estações Meryl Streep – Florence: Quem É Essa Mulher? Natalie Portman – Jackie […]

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Filmes