0

Já Não me Sinto em Casa nesse Mundo conquistou o principal prêmio do Festival de Sundance com calmaria, brutalidade e exageros


Grande vencedor do Festival de Sundance deste ano, I Don’t Feel at Home in This World Anymore (Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo no original) chegou a Netflix, que não é boba e distribuiu o filme mundialmente. Vale lembrar que o mesmo festival já nos trouxe boas safras como A BruxaGreen Room e agora traz mais um filme que, a exemplo do último citado, sabe balancear momentos de calmaria e de total brutalidade, fazendo do primeiro filme de Macon Blair um retrato da realidade.

Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo conta a história de Ruth, uma auxiliar de enfermagem depressiva e sem nenhuma perspectiva de vida, que convive com a morte diariamente. Tem uma amiga que ignora seus desabafos, sendo que o marido da mesma a odeia, é ignorada na fila do supermercado e vê o aviso para cachorros não defecarem no quintal ser totalmente rejeitado.

Um dia Ruth é assaltada, levam seu computador e os talheres de prata deixados como herança por sua avó. Se sentindo invadida e sofrendo com o total descaso da polícia local, a moça resolve ir atrás dos assaltantes em um lapso de insanidade e, para isso, se une ao vizinho esquisito Tony. Ambos vão acabar se envolvendo em perigos que não imaginavam, mas que são reais.

Macon Blair utiliza muitos planos abertos para elucidar o vazio e a solidão de Ruth, mesmo em sua vizinhança. O fotógrafo Larkin Seiple utiliza de cores opacas pra mostrar um bairro sem nenhum glamour, com todas as casas parecendo acabadas, inclusive a de Ruth. Macon podia muito bem seguir um caminho intimista ao tratar a depressão de perto, algo que permeia todo o primeiro ato (o qual inclusive o diretor aparece), mas resolve seguir por outro caminho, o do gore, do impacto.

De certa forma ele faz isso de forma correta ao não mostrar Ruth como uma coitadinha e trazer um filme simplista. Em contrapartida ele não quer chocar o espectador com o que virá a seguir, seguindo de maneira gradativamente lenta para que não tenhamos um susto.

Ruth é vivida por Melanie Lynskey (A Rose de Two and a Half Men), que por ser uma mulher de aparência “comum” se encaixa perfeitamente no papel. A atriz de Já Não me Sinto em Casa Nesse mundo é pontual e está longe da loucura apresentada em sua personagem mais famosa. O Tony de Elijah Wood é surtado, e uma cena de oração antes da “batalha” serve para estabelecer o personagem logo de cara. A química entre os dois funciona, e os diálogos são fluídos e naturais. O filme conta com boas participações de Gary Anthony Williams como um detetive e de Jane Levy (O Homem nas Trevas) quase irreconhecível aqui.

O diretor de Já Não me Sinto em Casa Nesse Mundo claramente se inspirou em uma mistura de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez para encher o segundo e terceiro ato de situações absurdas, com bastante sangue na tela. Claro que o inexperiente Macon não tem a habilidade de ambos, mas consegue fazer boas cenas com competência, puxando mais pro lado de Rodriguez quando vai pro cômico. Nunca o engraçado em si, mas o sorriso de “canto de boca” pelo cenário parecer plausível. E de fato é para nossa protagonista.

É interessante notar que estamos no mesmo estágio que Ruth com tudo que acontece. Sabemos tanto quanto ela, cada reação é sincera e o simples fato da moça acertar um criminoso com a forma de um pé desencadeia uma série de eventos que não imaginaríamos, nem ela.

Talvez o único erro do diretor estreante é a sua falta de experiência. Macon Blair não sabe como terminar sua obra, fazendo vários finais, indo entre o feliz, o infeliz e o agridoce. Com uma última cena que achei genial e idiota ao mesmo tempo, Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo já uma das surpresas de 2017.


Acompanhe tudo sobre filmes, séries, games, músicas e muito mais aqui na Odisseia.

 

product-image

Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo

8.5

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

Atlanta – Entre a comédia e a ironia social

Previous article

÷ (Divide) – Ed Sheeran

Next article

You may also like

Comments

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Filmes