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ISOLADOS

Desde que me entendo por gente, o cinema brasileiro é formado por três grandes gêneros: a comédia escrachada, o drama biográfico e o policial. Não consigo entender porque o cinema brasileiro não investe em outros tipos de filmes que são importados e fazem sucesso nos cinemas nacionais, como o faroeste e o terror. Então não consigo esconder a felicidade que senti quando assisti Isolados, um filme que, mesmo com seus problemas, representa um diferencial na nossa indústria.

O filme conta a história de um jovem casal que vai passar as férias na região serrana do Rio de Janeiro, mas acabam virando vítimas de dois assassinos misteriosos que atacam mulheres de maneira brutal. Com uma mistura de terror de cabana com suspense policial, o filme ganha contornos interessantes enquanto o público acompanha o passado dos personagens e o aumento da tensão no presente.

Logicamente, a história não é nada original. A quantidade de clichês pode até incomodar uma parte do público, mas não é o grande problema do filme, que deveria ter se preocupado com outros aspectos do seu roteiro que atrapalham muitos mais. Uma das coisas que mais me incomodou foi o intenso didatismo usado pelo filme, sendo que sua história nem é tão complexa para necessitar desse tipo de recurso textual. Qual a necessidade de fazer o dono do bar soltar  – literalmente do nada – uma explicação detalhada dos crimes cometidos na localidade para depois mostrar o legista (que é um profissional mais gabaritado, nesse caso) explicando a mesma coisa para os policiais? Sem contar que um dos crimes já tinha sido mostrado de maneira interessante na abertura do filme.

Essa repetição explicativa é repetida diversas outras vezes e acaba gerando mais confusão do que esclarecimento. Parece que Mariana Vieldman se perdeu completamente enquanto estava escrevendo a história e acabou prejudicando um filme que tinha um enorme potencial.

A tensão é muito bem construída e nada vai tirar esse mérito do filme, mas o roteiro também peca miseravelmente no desenvolvimento dos personagens. Os flashbacks estão lá pra isso isso, entretanto parece que algo ficou de fora na edição. Essas viagens temporais fazem sentido e dão algumas pistas do que vai acontecer no final, mas parecem não cumprir sua missão de maneira completa, já que sabemos muito pouco dos protagonistas e não criamos tanta empatia quanto seria necessário.

O texto fraco ainda prejudica a atuação de boa parte elenco. Bruno Gagliasso e Regiane Alves são atores versáteis que não tem que provar seus talentos, mas seus personagens tem poucos momentos realmente inspirados. As situações são tensas, mas toda a parte psicológica passada pelos atores é exagerada e fraca. Ainda assim, eles tem seus méritos por terem comprado a ideia de fazer parte de um filme tão diferente.

Diferencial que é marcado, principalmente, pela ótima direção de Tomas Portella em seu segundo longa-metragem. Ele tem um estilo muito interessante, que usa muitos planos-sequência, dando uma sensação de tempo real que amplia a sensação de claustrofobia e tensão passada pelo filme. Mesmo que não dê muitos sustos, toda essa tensão psicológica é construída de maneira inteligente e crescente até sua reviravolta final. Talvez alguns saquem qual é essa surpresa antes dela chegar, mas isso não tira o mérito da ambientação perfeita feita pela produção, usando muito bem a fotografia natural e a trilha sonora potente.

Ou seja, Isolados é um filme que tem mais erros do acertos, mas seu maior mérito supera qualquer problema. Seu grande acerto, no fim das contas, é mostrar que o cinema brasileiro pode apostar em novos gêneros e se aprimorar nesses. Se os produtos americanos fazem sucesso aqui, nossas obras similares podem fazer tanto quanto se forem bem produzidas. Isolados é um filme interessante que merece ser visto por ser algo diferente dentro do repetitivo cinema brasileiro.

OBS 1: Esse é o último filme do ator José Wilker que faleceu nesse ano. Ele aparece um apenas uma cena, mas recebe uma justa homenagem nos créditos do longa.

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1 Comment

  1. […] já falei na critica do Isolados e em várias outras que eu acho o cinema brasileiro extremamente quadrado e repetitivo. Claro que […]

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