AODISSEIA
Filmes

Critica: Invencível


16 de janeiro de 2015 - 13:00 - Flávio Pizzol

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Por mais que seja um filme de guerra, não espere por muita ação no novo filme de Angelina Jolie como diretora. Na verdade, esse é o filme que é a cara do Oscar: cinebiografia, filme histórico e drama de superação. Infelizmente, nenhum desses aspectos consegue se ver representado com a intensidade que Louie Zamperini merecia.

O filme conta a história de Zamperini, um descendente de italianos que vivia de pequenos roubos até conhecer o esporte. Com a ajuda do irmão, Louie se torna um corredor de ponta e até participa dos Jogos Olímpicos de 1936. Depois disso, ele vai pra guerra, fica à deriva por 47 dias e é aprisionado em um centro de detenção japonês.

Esse é definitivamente um prato cheio de superação em todos os níveis possíveis. Mas aos mesmo tempo, é muita história para se contar e esse é o primeiro problema do filme de Jolie. O roteiro, que foi escrito por Richard LaGravanese, William Nicholson e os irmãos Coen, é bom, mas peca ao não conseguir abordar todas essas histórias da maneira certa. Todas as histórias são tratadas de maneira rasa (e não é por falta de tempo, já que o filme é bem longo) e isso acaba afastando o espectador.

Os personagens também são fortes, mas não são bem desenvolvidos emocionalmente. E isso é muito estranho, porque um filme de superação precisa que o público se apegue fortemente a algo dentro da história para poder funcionar. Geralmente esse algo é o protagonista, mas aqui o foco recai sobre suas ações e não sobre o seu emocional. Sabemos quais são suas motivações e elas não são fracas, mas o roteiro evita explorá-las na maior parte do longa.

Isso nunca vai ser o bastante para tirar a força da história de Louie, porque suas ações conseguem sustentar o filme. Afinal, não é qualquer que apanha de milhares de pessoas por um amigo. O problema é que nos intervalos das suas grandes provas de amizade ou força, ficamos querendo mais dele e não temos. Sua fé, sua moral e sua família são seus pilares, mas eles não ganham a devida importância no longa.

E o quesito emocional ainda deixa mais a desejar quando personagens cativantes desaparecem sem nenhuma explicação ou quando o filme não tem um clímax adequado. No primeiro caso, eu fiquei extremamente decepcionado com o sumiço repentino de Phil. Tudo bem que o filme é sobre Louie, mas um personagem tão importante na parte do naufrágio não pode ser retirado do longa sem explicação e colocado lá de volta quando for necessário. E eu não caio nessa de que o filme é muito fiel à realidade, porque eu duvido que Zamperini não ficou sabendo o que aconteceu com seu amigo durante esse período de separação.

E para completar, como já disse, o filme não tem um final catártico ou emocionante o bastante para justificar toda a existência do filme. Aquele momento onde lemos que Louie aprendeu que o perdão é melhor do que a vingança e vemos ele carregando a tocha olímpica no Japão são bons o bastante para justificar a adaptação, mostrar porque Zamperini merecia esse filme e até emocionar. Aquele momento onde ele é obrigado a levantar uma viga de madeira do nada não tem força para isso, assim como o fim da guerra ou o reencontro com o sua família não são o bastante para satisfazer meu lado emocional.

A sorte do filme é que a história do ex-atleta é forte o bastante para segurar pelo uma parte do filme, porque, se dependesse do roteiro, esse filme não valeria de nada. Além de todos esses problemas de desenvolvimento, a maior parte dos diálogos são fracos e apoiados em frases de efeito. Todo filme de superação tem isso, mas geralmente isso vem junto com personagens que se relacionam com público e cargas emocionais recompensantes.

Realmente me decepcionei com um roteiro que passou por tantas mãos talentosas, mas o outro aspecto que me deixava curioso conseguiu me surpreender positivamente. Ao lado de uma boa edição, belíssima direção de arte e uma fotografia sensacional de Roger Deakins, Jolie consegue explorar muito bem visualmente aquele período histórico e a vida de Louie. Claro que existem alguns ângulos estranhos e fora do lugar, mas seu trabalho é muito acima da média e erra muito menos que o roteiro.

Ela também acertou na escolha e na direção do elenco, mesmo considerando que alguns deles sejam engolidos ou ignorados pelo roteiro. A jovem revelação britânica Jack O’Connell, que tinha tido seu maior papel até agora na continuação de 300, é um destaque imensamente positivo. Não se é uma atuação que já merecia um Oscar, mas ele consegue representar muito bem a experiência física e emocional de Zamperini e tem talento para crescer muito mais no cinema.

Dos seus companheiros de tela, os mais conhecidos são Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund e Jai Courtney. Os dois últimos tem papéis muito pequenos e pouco conseguem fazer, enquanto Gleeson surpreende por sua grande transformação física. Seu personagem conseguiu, mas infelizmente desaparece e acaba sub-utilizado no longa. Não custava nada, Jolie ter continuado com um pedaço da história de Phil para que seu desaparecimento não fosse tão brusco.

Dois desconhecidos que também conseguem algum destaque são Finn Wittrock e Takamasa Ishihara, mas eles não tão bem e acabam construindo personagens secos e caricatos. Isso faz com que eles desperdicem seus momentos de destaque, que não são tão pequenos dentro da história de Louie.

É um filme que tem muitos problemas de roteiro, mas consegue se segurar na força de sua história, nas ótimas atuações e na direção interessante de Jolie. Ainda assim, se compararmos o filme com o que ele poderia ser e considerarmos os grandes nomes envolvidos no todo, Invencível acaba sendo decepcionante e apenas mediano.