AODISSEIA
Filmes

Crítica: Invasão Zumbi


3 de janeiro de 2017 - 11:00 - Flávio Pizzol

Pegue o trem para o melhor filme de zumbi dos últimos anos!


O cinema oriental tem alcançado cada vez mais visibilidade mundial com alguns elementos muito próprios, mas ainda concentra sua maior força em um mercado do horror que muitas recebe refilmagens inferiores em Hollywood. Vindo direto da Coréia do Sul, Invasão Zumbi (Train to Busan, em inglês) se tornou o blockbuster da vez, bateu recordes de bilheteria pela Ásia, foi exibido em Cannes e, de forma quasse inédita, chegou ao Brasil com muitas sessões garantidas.

O filme – que segue os passageiros de um trem após a proliferação de uma infecção zumbi inexplicada – possui um roteiro extremamente simples, mas ganha o espectador pela honestidade. A trama não foge do feijão com arroz de outros filmes sobre sobrevivência nem fica presa em explicações desnecessárias, marcando sua presença nos primeiros 25 minutos com a apresentação dos personagens que supostamente devem durar um pouco mais, estabelecer o arco de redenção do protagonista e ainda traçar um certo maniqueísmo que vai permear o filme até o final. É aquele típico caso de filme que não foge do simples, mas executa bem o que se propôs a fazer.

O próprio elenco (desconhecido para mim) compreende isso e aproveita tanto a separação entre bons e mais quanto os momentos pontuais onde surgem algumas discussões morais para fazer um trabalho eficiente. É o suficiente para se conectar com o público e gerar alguma emoção quando os típicos sacrifícios começam em direção a uma conclusão desoladora. Eu mesmo me peguei segurando algumas lágrimas ou torcendo com todas as minhas forças para que o suposto vilão morresse da forma mais sangrenta possível.

Fora isso, Invasão Zumbi é uma correria sem fim que começa logo após a primeira transformação no trem. O ritmo é frenético, as transformações acontecem de forma quase instantânea e a direção do jovem Sang-ho Yeon (da animação Saibi) aproveita o movimentação do trem, dos zumbis velocistas e da sua própria câmera para trabalhar a ação, o terror e a tensão com muita habilidade. Isso sem contar um controle muito bom de uma linguagem própria que usa a câmera tremida, os corredores apertados e os ângulos fechados para superar a falta de orçamento.

Nessa onda, o destaque vai quase todo para a sequência em que alguns personagens bebem da fonte do Expresso do Amanhã e precisam atravessar quatro vagões cheios de zumbis, sendo que o primeiro carro gera uma cena de ação eletrizante (e parecida com aquela cena do corredor de Old Boy), o segundo e o terceiro obrigam os sobreviventes a usarem a inteligência e o último cria tensão a partir justamente de um confronto moral com outros passageiros. São quase 30 minutos que praticamente resumem a essência e as maiores qualidades do filme.

Infelizmente, o filme tem um pequeno problema com os efeitos especiais que se intensifica no terceiro ato, quando o ângulo precisa ficar mais aberto para mostrar as grandes hordas e um acidente um tanto quanto desnecessário de trem. O próprio roteiro – que também foi escrito por Sang-ho Yeon – faz escolhas que nem a criatividade do mesmo como condutor da câmera não consegue superar de forma alguma. Eu entendo o que levou Yeon a optar por esse caminho pelo clima do final, mas ainda me incomodo um pouquinho com o terceiro ato no geral.

Mas, como eu já disse, isso não afeta a resolução do filme e suas maiores qualidades são infinitamente superiores a esses defeitos citados. Invasão Zumbi sabe como aproveitar o frenesi do “apocalipse”, entrega cenas de ação intensas que tiram o fôlego com muita facilidade e ainda possui os últimos minutos mais pesados do ano em uma conclusão incomum para um longa pontuado pelo maniqueísmo. É a comprovação de que – com uma pequena dose de honestidade – ninguém precisa reinventar a roda para bater recordes de bilheteria, conquistar o coração do espectador e virar um dos melhores filmes de zumbi dos últimos tempos.