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Dentre os filmes indicados ao Oscar 2014 que eu já assisti, este é, provavelmente, o exemplar menos comercial da safra de premiações desse ano. Não se podia esperar menos de um filme diferente, caracterizado pela solidão e pela melancolia dos Irmãos Coen.

Inside Llewin Davis segue, como o próprio subtítulo indica um homem comum no início da década de 60. Llewin é um músico triste, solitário, melancólico e perdedor que tenta sobreviver de música quando seu estilo, folk, ainda não fazia sucesso nos EUA.

Um filme que não deve fazer muito sucesso no Brasil, mas que merecia ser conhecido e valorizado. Ser um dos grandes esnobados do Oscar também não ajuda na popularidade do filme, que é espetacular, mesmo com sua densidade sobrecarregada, sua estranheza e sua lentidão.

O filme tem uma qualidade técnica digna de um filme dos Irmãos Coen. A dupla de diretores é um nome de peso na indústria americana, mas não tem seus trabalhos reconhecidos no Brasil. Fazem filmes diferentes, repletos de humor negro e com alguns pontos que ajudam em sua comercialização. São diretores que estão no ramo por amor, só fazem filmes de sua autoria e não ligam muito para o que o público e a critica pensam.

Gosto muito dos filmes deles por conta desse tratamento diferenciado dado a temas pouco comerciais. A melancolia e a solidão são temas recorrentes em seus trabalhos, sempre acompanhados de algum personagem perdedor e de um humor sutil genial – que só pode ser comparado ao humor de Woody Allen. Joel e Etan Coen fizeram trabalhos geniais nos premiados Fargo, Onde os Fracos não têm vez e Bravura Indômita.

Todos os filmes acima contam com o estilo incomparável dos irmãos e Inside Llewin Davis não é diferente nesse aspecto. O roteiro é cuidadoso e inteligente, mas talvez este tenha um humor um pouco mais sutil, que vai sendo derramado em diálogos rápidos e brilhantes.

O maior acerto do roteiro é tratar Llewin como um sujeito normal. Ele viver de sua música e sofre muito por não estar conseguindo, enquanto amigos seus vencem na vida. Isso faz com que o compositor viva sua vida de maneira desleixada e resolva seus problemas banais com uma amargura gigantesca.

A direção é certeira em trabalhar essa personalidade do protagonista. Joel e Etan se contentam em acompanhar a vida do personagem de maneira próxima e natural. O estilo documental acaba tomando conta do filme, que não tem grandes malabarismos de câmera enquanto acompanha seu banal objeto de estudo.

Junto com os diretores, a fotografia e a direção de arte tem grande importância na criação desse cenário melancólico que acompanham Davis do começo ao fim da projeção. Eu gostei muito da maneira como esses dois quesitos se completam em cena e se tornam quase que personagens nessa perfeita recriação dos anos 60.

Outro quesito técnica importante para o filme é sua trilha sonora, já que ele trata da recriação do cenário musical americano daquela época. A trilha é genuína e linda e as canções utilizadas são espetaculares. Nem a trilha sonora, nem a ótima música “Please Mr.Kennedy” mereciam ter ficado de fora do Oscar desse ano.

O elenco também é genial. Os personagens encaixam de maneira surpreendente com os atores, parecendo que aqueles foram escritos com o elenco já escolhido. Para facilitar a analise, podemos dividir o elenco em três partes: protagonista, coadjuvantes e participações especiais.

O protagonista é o brilhante Oscar Isaac. O ator, que se destacou no ano passado, encarna toda a melancolia e solidão do complexo Llewin com naturalidade e perfeição. O filme é dele e ele é o filme.

Dentre os coadjuvantes, podemos destacar Carey Mullingan e Justin Timberlake. Outros personagens aparecem muito mais do que Jean e Jim, mas os dois são citados durante todo o filme. Mesmo quando eles não aparecem em cena, seus personagens continuam sendo importantes.

Carey é uma ótima atriz da nova geração, que se encaixa muito bem em personagens solitários e densos, e os seus diálogos com Oscar são alguns dos pontos altos do filme. Enquanto Timberlake merece destaque por ser um dos compositores da já citada música “Please Mr.Kennedy”.

Outros ótimos atores também compõem o elenco e marcam presença em ótimas participações especiais. Destaque para Adam Driver, Garrett Hedlund e F. Murray Abraham e um prêmio solene para John Goodman. Os outros estão bem, mas John é o único desses que toma conta do filme enquanto está em cena, conseguindo até ofuscar Oscar Issac.

Um filme complexo, por causa da sua grande profusão de temas e sentimentos. Depois de chegar aos créditos e passar pelo ótimo final, o público vai perceber o quão amarga é a história que acompanharam.

Os Irmãos Coen merecem ser mais reconhecidos no Brasil, mas esse filme provavelmente não é o caminho para isso. Mesmo sabendo que muitos não vão sequer acolher minha recomendação, sou obrigado a dizer que Inside Llewin Davis é um filme espetacular que mereceria ser assistido.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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1 Comment

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