AODISSEIA
Filmes

Crítica: Ilha de Cachorros

Wes Anderson estética e politicamente impecável.

20 de julho de 2018 - 15:33 - Tiago Soares

Wes Anderson é um dos meus diretores favoritos da atualidade. Wes tem identidade, ele segue um padrão e muitos podem confundir isso com displicência ou até mesmo ausência de ousadia, eu prefiro ver como genialidade. Criar diferentes histórias mantendo a mesma identidade visual, transitando entre universos não é uma tarefa fácil – mas em Ilha de Cachorros – Wes vai além, já que torna a mais simples simbologia num comentário político.

Gosto de dizer que Wes Anderson tem três camadas em seus filmes. Primeiro a estética irrepreensível. É muito difícil ultrapassar essa barreira sem se deslumbrar com tudo que vê. Em segundo, a história e as sacadas. Wes faz filmes com personagens excêntricos e com piadas que muitas vezes – não possuem nenhuma linha de roteiro – apenas utiliza enquadramentos, cercados de silêncios profundos e constrangedores. Já na última camada, Wes traz a mensagem que tanto queria passar.

Em Ilha de Cachorros, as três estão mais que distintas. Se em Grande Hotel Budapeste falou sobre ao culto ao dinheiro e ao glamour, aqui ele usa a relação entre cachorros e humanos para criar uma história que traz xenofobia, discursos de ódio infundados e intolerância.

Na trama – o prefeito de Megasaki – Mayor Kobayashi (Kunichi Nomura), resolve banir todos os cães dessa cidade fictícia japonesa. Tirânico e fã de gatos, ele envia os cachorros para uma ilha cheia de lixo. Segundo ele, o objetivo é evitar que o surto de gripe canina prejudique os humanos. O sobrinho do político Atari (Koyu Rankin) não gosta da ideia de perder seu animal de estimação e com apenas 12 anos, sai em busca de seu cachorro Spots, acompanhado de outros cães da ilha.

Qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência. Wes alfineta a Era Trump, a situação atual dos refugiados sírios e até as fake news, com vários cientistas e ativistas dizendo que não há perigo, mas sendo rechaçados por grandes corporações. Tudo isso, com a beleza característica de sua filmografia. Wes já tinha mostrado talento no primoroso “O Fantástico Sr. Raposo“, mas aqui ele vai além e torna Ilha de Cachorros o filme mais bonito e impecável de sua carreira.

Usando muito do visual para mostrar o que sente e quer transmitir, Wes continua excessivamente simétrico e perfeito em seus movimentos de câmera, bem mais lentos dessa vez, mas não menos significativos. O stop motion parece ser o estilo em que o diretor se sente mais confortável e brinca demais com o que pode produzir, diferente das limitações do live-action.

O elenco também está excelente, com destaque para o debochado Chief de Bryan Cranston, o pomposo Rex de Edward Norton, o incrível Boss de Bill Murray, e o destemido Spots de Liev Schreiber. Participações de luxo que mereciam mais destaque são a Oracle de Tilda Swinton, a Nutmeg de Scarlett Johansson e o hilário Jupiter de F. Murray Abraham.

O núcleo humano é o elo mais fraco e o principal responsável pelo filme não ganhar uma nota máxima. Infelizmente, Wes gasta sequências inteiras com os personagens de carne e osso, que apesar do incrível prólogo, e da sacada genial com a personagem de Yoko Ono, se mostram desinteressantes. O único humano que está no mesmo nível de Wes é Alexandre Desplat.

O vencedor do Oscar por A Forma da Água, emula uma trilha cercada de referências e homenagens a cultura japonesa, em especial Hayao Miyazak e Akira Kurosawa, de quem Wes é fã. Menos presente do que nos filmes anteriores, a trilha de Desplat encaixa aonde deve, sempre deixando um gosto de quero mais.

Ilha de Cachorros ameaça diminuir sua qualidade ao abordar muitos temas – as vezes perdendo seu foco, eliminando personagens carismáticos da narrativa – para logo em seguida voltar aos eixos. Uma pena o filme chegar em poucas salas aqui no Brasil – e provavelmente para quem precisa de fato vê-lo e entendê-lo – vai passar batido.