AODISSEIA
Filmes

Crítica: Homem-Formiga e a Vespa

De volta ao reino cômico da Marvel...

6 de julho de 2018 - 01:57 - Flávio Pizzol

Muita gente comentou nas últimas sobre como Homem-Formiga e a Vespa precisa carregar o peso de ser um filme supostamente “pequeno” (sem trocadilhos) lançado poucos meses após um grande evento chamado Vingadores – Guerra Infinita. É claro que essa responsabilidade existe e não pode ser desconsiderada, porém pouca gente lembra que o primeiro longa do herói estreou em condições muito piores: logo após a aceitação mediana de Vingadores – Era de Ultron e marcado por uma polêmica troca de diretores. Peyton Reed, Paul Rudd e companhia superaram tudo isso e entregaram um longa independente, divertido e inventivo que me conquistou num piscar de olhos. Diante disso, não é tão surpreendente vê-los repetir essa proeza agora que já possuem uma franquia apresentada e bem estabelecida para trabalhar.

Só que, dessa vez, ao contrário do que costuma ser esperado numa sequência, a história começa com os protagonistas do primeiro longa separados: Scott Lang precisa conviver com uma prisão domiciliar adquirida após os eventos de Guerra Civil, enquanto os foragidos Hank Pym e Hope Van Dyne tentam encontrar uma forma de salvar Janet Van Dyne, a Vespa original, do Reino Quântico. Isso até que uma coincidência do destino os obriga a se reunirem nessa missão mirabolante que ainda envolve um vendedor de tecnologia no mercado negro, o FBI e uma vilã que consegue ficar invisível.

 

 

Pode parecer muita coisa quando disposto dessa forma, mas o roteiro escrito à dez mãos por Chris McKenna (Jumanji: Bem-Vindo à Selva), Erik Sommers (Lego Batman – O Filme), Andrew Barrer (A Face do Mal), Gabriel Ferrari (Homem-Formiga) e o protagonista Paul Rudd (Faça o Que eu Digo, Não Faça o Que eu Faço) é surpreendentemente bem resolvido e amarrado. Um desenvolvimento ágil que entrega tudo o que o espectador quer ver – como as maravilhosas histórias “dubladas” por Luís – ao passo que dá uma aula de como usar, seguindo a cartilha das continuações, novos heróis, novos poderes e aventuras cada vez mais perigosas como trampolim para ampliar um universo.

E isso realmente cria um filme com mais corpo, ainda que as maiores virtudes estejam na repetição dos principais acertos do primeiro longa em relação ao tom e ao escopo da trama. Em primeiro lugar, Homem-Formiga e a Vespa se assume como uma comédia surtada e descompromissada sem nenhuma enrolação ou vergonha. Isso significa que, por mais que a ação, o romance e algumas pitadas muito pequenas de drama também tenham sua devida importância no decorrer da narrativa, é o humor que surge como elemento indispensável com as piadas ditando o ritmo e os caminhos escolhidos pelo roteiro.

Além disso, o longa não esquece das suas origens e, mesmo sendo maior e mais importante para o MCU como um todo, mantém aquela pegada intimista que tanto me agradou no original. Em outras palavras: Homem-Formiga e a Vespa não é sobre enfrentar vilões que querem dominar/destruir o mundo e, sim, sobre ser feliz, recuperar laços familiares e encontrar maneiras de preencher vazios que podem destruir nossa vida. Não é coincidência nenhuma, nesse caso, que grande parte das subtramas construídas pelo roteiro sejam conduzidas e amarradas por um senso de paternidade muito forte, incluindo desde a relação de Scott com sua filha até a motivação da vilã.

 

 

Apoiada na liberdade oferecida pelo estúdio e em uma carreira que possui certa familiaridade com todos esses elementos narrativos, a direção de Peyton Reed (Sim Senhor) parece estar ainda mais confortável com seu trabalho na Marvel. Esbanjando domínio, ele acerta em cheio na inventividade das cenas de ação (com direito a uma referência brilhante a Bullitt), imprime sua identidade ao incluir um senso de humor mais ingênuo que talvez não tivesse espaço na trama de Edgar Wright pensou para o anterior e inova em certos aspectos visuais que já chamavam a atenção. Um deles está na forma como o diretor de fotografia Dante Spinotti (Los Angeles: Cidade Proibida) aprimora o trabalho com lentes desenvolvido por Russell Carpenter (Titanic) para os momentos encolhidos e renova essa estética quando o objetivo é capturar a visão do protagonista gigante.

Outra novidade importante está na participação da Vespa como heroína e co-protagonista do longa. Ela é a primeira da sua turma a alcançar esse status dentro do MCU e a importância desse passo – que já tinha sido dado, querendo ou não, no primeiro longa – fica escancarada no cuidado que Reed e a produção têm com a personagem desde sua primeira cena de ação. A sagacidade de Hope se encaixa muito bem na narrativa que o resultado não poderia ser outro além dela roubando todos os holofotes do filme pra si. Eu só fico com pena da Fantasma não conseguir ser uma vilã à altura da Vespa, ficando presa entre uma motivação mediana e uma interpretação sem impacto de Hannah John-Kamen (Jogador Nº 1). Mesmo sem ser necessariamente mal escrita, ela – junto com o tipo canastrão interpretado por Walton Goggins (Os Oito Odiados) – acaba sendo o ponto mais fraco de um filme cujo erro mais grotesco é justamente se perder vez ou outra nos seus antagonistas.

 

 

Por sorte, o resto dos personagens recebem materiais mais interessantes e brilham sempre que são acionados. Evangeline Lilly (Gigantes de Aço) e Paul Rudd (Tudo Por um Furo) estão nitidamente mais confortáveis nos seus papéis e isso permite que ela se dedique às cenas de ação e ele abuse do improviso na hora das piadas. Abby Ryder Fortson (Togetherness) retorna com a língua mais afiada e uma força emocional que é decisiva para o protagonista. Michael Peña (Perdido em Marte) arranca muitas risadas e, para nossa alegria, ganha mais coisa pra fazer na história, dando inclusive uns momentos de destaque a mais para David Dastmalchian (Os Suspeitos) e Tip ‘T.I.’ Harris (House of Lies). Já Michael Douglas (Instinto Selvagem), Laurence Fishburne (Matrix) e Michelle Pfeiffer (Ligações Perigosas) cumprem seus papéis sem o peso de carregar o filme nas costas.

Michelle, por sinal, tem uma participação muito menor do que seu nome indicaria, porém isso é consequência da decisão de manter a tão esperada excursão pelo Reino Quântico em um amontoado de cenas entrecortadas durante um clímax que acaba sendo um pouquinho mais longo do que deveria. No entanto, além de causar uma leve frustração, isso não é algo que incomoda ou prejudica uma produção que mantém o clima de Sessão da Tarde que combina com o personagem, evolui o universo e se encaixa com perfeição no Universo Marvel. Nessa onda, Homem-Formiga e a Vespa é simples, divertido na medida certa e pode até mesmo ser tachado como esquecível, mas sabe como se aproveitar disso para ser exatamente o que os fãs precisavam depois de toda a tensão deixada por Guerra Infinita.


OBS 1: Se você não é fã do lado piadista da Marvel, esse pode não ser o filme certo para você. O recado foi dado é não adianta reclamar…

OBS 2: Eu costumo ser contra dublagens que mudam contextos para nacionalizar piadas, mas esse filme faz uma com o Michael Douglas que queimou minha língua.

OBS 3: O filme possui uma conexão importante com Vingadores – Guerra Infinita. Ela não está realmente inserida na trama, explicando as regras do Reino Quântico, como eu estava esperando, mas a ligação existe e consegue impactar graças a maneira como a cena em si é construída.