AODISSEIA
Filmes

Crítica: Homem-Aranha no Aranhaverso é uma obra-prima

E uma das melhores adaptações já feitas sobre o amigão da vizinhança


12 de janeiro de 2019 - 14:09 - Flávio Pizzol

Além de ser o personagem que mais marcou minha vida, o Homem-Aranha repetiu o mesmo feito com outras milhões de pessoas. Número suficiente pra conquistar um merecido lugar na lista de principais heróis da Marvel e da cultura pop. Agora, depois de tantos quadrinhos, desenhos, filmes de enorme sucesso e uma gama de ideias que a Sony não parecia saber como tirar do papel, esses mesmos fãs recebem de presente uma experiência diferente, divertida, cartunesca e verdadeiramente espetacular chamada Homem-Aranha no Aranhaverso.

Partindo de uma trama que usa o passado cinematográfico do Homem-Aranha como fonte de brincadeiras acerca de sua origem e seus atos de heroísmo, o longa animado subverte boa parte dos seus possíveis clichês quando opta por conceder sem medo o protagonismo para outro personagem: o latino Miles Morales. E, por mais que o bom e velho Peter Parker (como o próprio trailer já mostra) não fique de fora da brincadeira, é o amigão da vizinhança do universo Ultimate que assume a função de dar cara nova ao produto final, ganhando sua história de origem ao mesmo tempo em que precisa salvar Nova York de um “colisor” de multiversos ao lado de heróis de outras dimensões.

E o grande mérito do roteiro de Phil Lord (Uma Aventura Lego) e Rodney Rothman (Ajuste de Contas) é justamente conseguir balancear tudo isso, dando o devido espaço para todos os personagens brilharem no meio de uma tonelada de emoções e referências. Para estruturar tudo isso sem criar confusões, o texto usa Miles como uma peça central que faz o papel de fio condutor para apresentar os outros Aranhas que, por sua vez, também recebem seus arcos próprios. Naturalmente, o peso não é o mesmo para todos, mas ainda assim é surpreendente como o longa consegue apresentar e desenvolver pelo menos Miles (incluindo sua família), Peter e Gwen em tão pouco tempo. Para ter uma ideia de como funciona a organização do texto, vale lembrar de como Joss Whedon conseguiu resolver um dilema chamado Os Vingadores, selecionando alguns protagonistas para guiarem o contexto geral, oferecendo palco para que eles se desenvolvam minimamente e usando outros coadjuvantes como peças que atuam em prol da dinâmica do grupo.

 

 

Homem-Aranha no Aranhaverso segue as mesmas regras e essa última parte é exatamente o que acontece com o Homem-Aranha Noir, o Porco-Aranha e a Peni Parker. Eles têm arcos menores e não passam por grandes aprendizados quando comparados ao trio principal, porém possuem personalidade suficiente pra conquistar o público logo de cara. Cada um tem um jeito próprio de falar, um senso de humor diferente, um jeito especifico de lutar nas cenas de ação e um traço que combina com o pacote, unindo com perfeição a dinâmica do roteiro e a direção da trinca formada por Bob Persichetti (O Pequeno Príncipe), Peter Ramsey (A Origem dos Guardiões) e o próprio Rodney Rothman. Eles são os responsáveis por aproveitar todas as deixas oferecidas pelo texto de uma maneira que só uma animação “surtada” permitiria, criando assim momentos icônicos que nascem justamente da pegada filosófica e mais old school do herói noir, do jeitinho meio Pernalonga que toma conta do Porco e das características típicas das animações japonesas carregadas por Peni.

É um balanceamento complexo que, por incrível que pareça, também se estende sem falhas para as emoções nesse caso. Em outras palavras, Homem-Aranha no Aranhaverso se mostra uma produção completa que consegue reunir boas doses de ação despirocada, um ar de aventura juvenil, um senso de urgência que prende a atenção do espectador, momentos de comédia que se dividem brilhantemente entre humor mais físico e piadas complexas, e um fator emocional que funciona mesmo sem ser um drama propriamente dito. E o truque mais difícil quando se tem um cardápio tão grande de possibilidades e sentimentos é achar o tom onde nada disso é desperdiçado. Objetivo que é alcançado com maestria aqui, usando a seu favor desde a trilha marcada pelo hip hop até uma montagem cujo o timing certeiro dá agilidade à narrativa, reúne gêneros e faz piadas visuais com uma pegada bem próxima do que tornou Phil Lord e Chris Miller famosos em Anjos da Lei.

Esse nivelamento entre todos os elementos citados é sim um dos grandes méritos da direção, mas também seria tremendamente injusto resumir o trabalho de Bob, Peter e Rodney a isso quando Homem-Aranha no Aranhaverso também é um espetáculo visual indiscutível e muito particular. O uso das cores é vibrante e perfeitamente justificada pela própria trama, a transformação de cenas em páginas literais de quadrinhos (com divisões e diálogos em balões) mexe com o íntimo dos fãs e o aproveitamento do elemento cartunesco encontra seu ápice quando uma bigorna surge na mão de certo personagem como se fosse algo normal. E eu acho muito importante ressaltar isso, porque os diretores realmente conseguem aproveitar todas as possibilidades oferecidas por uma animação para pensar fora da caixinha quando se trata de habilidades dos heróis, criar algo novo e fugir de tudo que vinha sendo feito para o Homem-Aranha em termo de visual dos personagens (exagerados principalmente nos vilões), cenas de ação e fluidez nas tomadas de voo.

 

 

E o mais importante de tudo é que eles encaixam todas as peças com uma perfeição que os permite fazer algo diferente sem desrespeitar o espírito do personagem em um momento sequer. Ou seja, Homem-Aranha no Aranhaverso é uma animação intensa e divertida que reverencia o material original, prende o público numa teia gigantesca de piadas autorreferenciais e faz todos – de fãs antigos a novos espectadores – saírem vibrantes do cinema. E olha que não estamos sequer falando de Peter Parker. Estamos falando de Miles, um personagem que chegou depois dos meus dias de leitor voraz e precisou fazer algum esforço pra me conquistar aqui também. E conseguiu através do seu bom-humor, da sua resiliência, da sua relação verdadeira com os outros personagens e outras características que fizeram o Aranha clássico marcar minha vida. E convenhamos que depois de um filme de origem genial e maravilhoso como esse, Miles, Gwen e sua turma ficaram com o caminho pronto pra também marcar a vida de outras gerações sem descartar o que vem sendo feito com o Peter original.


OBS 1: O meio dos créditos tem uma homenagem a dupla Stan Lee e Steve Ditko e o final deles tem uma ótima piada com a música natalina, mas o verdadeiro motivo pra você não sair é que a segunda cena pós-crédito é simplesmente genial.

OBS 2: Entre as piadas com os filmes antigos do Aranha, fica o destaque pra zueira brilhante com aquela dancinha ridícula do terceiro filme do Sam Raimi.