AODISSEIA
Filmes

Crítica: Hereditário

Quando a sua vida é um filme de terror.

22 de junho de 2018 - 18:06 - Tiago Soares

Quando Annie, personagem de Toni Collete diz em determinado momento do filme: “Eu quero morrer”, está implícita a mensagem que o diretor e roteirista Ari Aster quer trazer com seu Hereditário. Pra algumas pessoas viver é um fardo, é o seu próprio filme de terror. Fantasmas, espíritos, demônios e suas seitas, as vezes não são necessárias para destruir a sua vida e a de sua família, só basta quebrá-la de dentro pra fora.

Após a morte da reclusa avó Ellen, a família Graham começa a trabalhar o luto (ou a ausência dele), ao mesmo tempo em que desvenda mistérios do passado da matriarca. Unido a isso, temos a adolescente Charlie, que tinha uma importante e quase manipuladora ligação com Ellen. A falecida permanece como uma sombra incômoda.

No terceiro filme de terror da produtora A24, a fórmula parece ser a mesma: baixo orçamento e um filme de terror que agradaria a maior parte da crítica – mas não tanto assim o público – pois não entregaria aquilo que os espectadores estão acostumados com o gênero. Se A Bruxa trabalhava o poder da sugestão e Ao Cair da Noite ia pro lado mais psicológico e paranoico da coisa, Hereditário sabe unir bem ambas as qualidades, apesar de ser bem mais explícito do que os filmes citados.

Em Hereditário as coisas ficam claras, mesmo que parte do mistério se mantenha até o último ato. O diretor Ari Aster (que estreia num longa), tem curtas perturbadores, que apesar de não ganharam a alcunha de terror/horror, sabem trabalhar com traumas familiares, problemas psicológicos e apresentar personagens vulneráveis.

Se Jennifer Kent caminhou na linha tênue entre a entidade demoníaca e a depressão em seu The Babadook, Ari vai além ao ampliar isso ao máximo. A dúvida persiste até o último minuto, aonde ele decide ir para um lado que pode deixar muita gente com um gosto agridoce, mas falaremos disso mais tarde. O certo é que Hereditário é um filme assustador. Não espere jumpscares excessivos (apesar da trilha sonora ter papel fundamental na construção de clima).

Estamos diante de um filme que foi feito para chocar o espectador. Seja nos planos estritamente simétricos (que dariam inveja a Kubrick e Wes Anderson) – seja na fotografia – permeando entre o azulado e o amarelado, sem perceptível distinção. Há vários planos longos e contínuos pela casa, e a arte em miniatura – peça fundamental a narrativa – valoriza o detalhe. O choque também está no doentio sadismo da história. Cada atitude dos personagens, por mais vã que seja, beira ao inacreditável.

Toda a tensão de pouco mais de 2 horas é potencializada, graças a atuações muito acima da média. Ari explora o máximo de seus atores com planos detalhe – tendo como foco os olhos – e planos médios na hora da “ação”, que aliás é muito bem dosada. A partir do segundo ato o filme não pára um segundo sequer. Quando abre em plano geral, é importante estar atento a toda a cena, já que movimentos de câmera espetaculares, revelam o que acontece ao redor de forma minuciosa.

A outra metade dos créditos fica por conta do elenco espetacular. O pai Steve (Gabriel Byrne) deseja reerguer tudo, ao mesmo tempo em que fica alheio as situações e parece ser a única voz sensata do lugar, a irmã mais nova Charlie (Milly Shapiro), traz toda a inocência misturada com doses de mistério. Em seu primeiro trabalho, a atriz se destaca com seus estalos. Peter (Alex Wolff, de Jumanji: Bem Vindo a Selva), é o jovem oco e sem objetivos, que revela inúmeras camadas no decorrer da produção, e no quesito brilho, só fica atrás de Toni Collette.

A mãe da Pequena Miss Sunshine e do garotinho de O Sexto Sentido rouba o filme pra si. É uma atuação cercada de dor, culpa, perda e raros momentos de descontração. Em dois segundos (literalmente falando), a atriz muda de expressão em uma das cenas mais marcantes do longa. Ela lidera uma família que já vinha desestruturada. Uma líder cansada, tentando mudar coisas que não estão mais no seu controle.

Por isso o que se vê é um filme de terror – muito antes dos elementos que caracterizam o gênero – começarem a aparecer. O excesso de plongées nada mais é do que falsa sensação de controle. Os Graham são uma família com casos de sonambulismo, demência e esquizofrenia, e se recusam a aceitar que tudo está ruindo, culpando forças além do seu alcance.

O limite entre a fantasia e realidade é sempre testado, tanto quanto a maravilhosa panorâmica que abre a produção. Referências a filmes de terror antigos (O Exorcista/O Bebê de Rosemary) e atuais (Corrente do Mal/A Visita) são apenas homenagens num filme que consegue andar livremente com as próprias pernas. Ari parece criar seu próprio monstro.

O final – que pode ser clichê para os fãs e conhecedores do gênero – quase estraga uma experiência transcendental e imersiva de uma história pé no chão. O forte vigor dramático e o fim incompreendido pode/deve ser um anúncio do que Ari buscou trazer em sua obra: Não há perdão, nem esperança quando se está dominado pelo mal. Hereditário é aquela filme que vai te deixar assustado e até animado se você gostar dele, mas é um dos poucos que vão te deixar tristes de verdade.