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“O dia de sorte de qualquer fracassado”


409381O nosso alvo de hoje nasceu na Austrália, começou sua carreira de ator com 20 anos de idade e rapidamente colecionou grandes papéis em filmes de ação. Na sua vida pessoal, enfrentou vários problemas relacionados ao alcoolismo, ao preconceito e ao jeito explosivo de ser. Encontrou algum conforto na carreira de diretor, vencendo um Oscar e fazendo uma pausa de mais de 10 anos antes de comandar um novo filme de guerra. Mel Gibson (Mad Max e Máquina Mortífera) teve uma vida tumultuada, cheia de altos e baixos e marcada por alguns fracassos recentes. Herança de Sangue tinha tudo pra ser mais um até uma coisa chamada diversão bater na sua porta como sinal de boa sorte.

No longa, escrito por Peter Craig e Andrea Berloff, o ator interpreta John Link, um ex-presidiário que vive tranquilamente em um trailer isolado, trabalhando como tatuador e tentando se manter sóbrio por segurança. Pra variar, tudo muda quando sua filha teoricamente desaparecida (Erin Moriarty) volta com muitos problemas, que incluem uma morte nas costas e uma gangue de mexicanos em busca de vingança.

A premissa bem simples, genérica e repetida exaustivamente no cinema não chama atenção logo de cara, então eu comecei o filme sem nenhuma expectativa. Para minha felicidade, eu estava enganado. O roteiro (adaptado de um livro do próprio Peter Craig) aproveita toda essa simplicidade para estabelecer tudo o que o público precisa saber sobre os personagens nas três primeiras cenas, se desenvolver de forma muito ágil e prender a atenção do espectador com diálogos rápidos e muito divertidos. Inclusive, o texto acerta em cheio quando a menina conta toda a verdade para o pai antes da metade da projeção, evitando um draminha desnecessário que poderia atrapalhar o filme.

O mistério que se posiciona no centro da trama não é muito interessante, mas esse acaba sendo um daqueles casos em que o público se apega aos personagens rapidamente e desapega das resoluções com a mesma velocidade. Isso logicamente é fruto de uma construção razoável de personagens, uma química genuína entre os protagonistas e, principalmente, um carisma muito forte vindo de Mel Gibson e Erin Moriarty (Jessica Jones).

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Ele parece ter sido a base para a criação do personagem desde o início, afinal todas as características, dores e sentimentos relacionados ao fracasso já parecem estar ali há algum tempo. Ele não esconde as rugas e sente o peso da idade na cenas de ação, criando um contraponto muito interessante com a inexperiência de Erin em diversos aspectos. Apesar de algumas caretas exageradas e um diálogo sobre suicídio que surge do nada, ela entende o drama da personagem, evolui durante a trama e usa seu charme para liderar os coadjuvantes, que ainda incluem Diego Luna (Rogue One: Uma História Star Wars) e William H. Macy (O Quarto de Jack).

Tirando proveito do bom roteiro, a direção do francês Jean-François Richet – responsável pelo ótimo Inimigo Público nº 1 – não precisa ser muito elaborada para conquistar o público. O seu maior acerto é manter a agilidade do texto, abusando do uso da câmera de mão apenas nas cenas mais intensas e usando a edição de forma efusiva. Claro que a série Busca Implacável (principalmente o terceiro longa) já deixou claro que mudança constante de ângulos nem sempre significa velocidade, mas o truque aqui é usar isso, de forma cadenciada, para apresentar a confusão dos próprios personagens.

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Além disso, o diretor ainda consegue tirar do papel alguns planos cheio de significado para criar tensão e uma leitura mais poética, como, por exemplo, nos movimentos opostos de travelling que mostram o discurso de John no início do filme e o de sua filha no final. Por outro lado, Richet acaba cometendo um erro relativamente grave na questão temporal. Eu não sei como funcionam as distâncias na Califórnia, mas fiquei bastante incomodado em ver a câmera estabelecer que a cena se passa a noite, o personagem falar que vai voltar rapidinho e só chegar no seu destino de manhã. E io pior é que esse “logo ali” de mineiro volta pelo menos mais uma vez.

No entanto, eu acredito que isso vai passar despercebido, sem incomodar boa parte do público comum. As pessoas que só querem comprar o ingresso por diversão vão esbarrar exatamente com um filme ágil, despretensioso, divertido e cheio de boas cenas de ação. Claro que Herança de Sangue não chega nem perto de ser a grande produção do ano e as expectativas baixas podem ser muito positivas, mas ainda vale o ingresso para quem quiser acompanhar o retorno bem sortudo de Mel Gibson como astro de ação.


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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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