AODISSEIA
Filmes

Crítica: Gravidade

Gravidade é, até o momento, o melhor filme do ano.


12 de outubro de 2013 - 14:01 - Flávio Pizzol

 

Gravidade é, até o momento, o melhor filme do ano. Um filme inovador  (principalmente na parte técnica e estética) e milimetricamente produzido. Um filme sobre o ser humano, a solidão, o medo, a fragilidade e a vida. Gravidade é um ótimo drama, um grande suspense e uma ótima ficção científica. Eu esperava que o filme fosse diferente, mais focado no espaço – como o trailer indicava. Mas nem por isso me decepcionei com Gravidade. O filme é realmente espetacular e pode ser considerado um real candidato ao Oscar 2014 em várias categorias. As categorias de Melhor Filme, Direção, Atriz, Fotografia, Trilha Sonora e Efeitos Especiais podem ser vencidas facilmente por Gravidade (pelo menos até o momento). A premissa do filme é bem simples. Três astronautas estão no espaço consertando o telescópio Hubble, quando são atingidos por uma nuvem de detritos causada pela destruição de um satélite russo. Um desses astronautas morre e os outros dois ficam à deriva no espaço tentando sobreviver.

O roteiro do filme também é simples, se for analisado separadamente. Os diálogos são simples e algumas situações são previsíveis. Entretanto o conjunto formado pelo o roteiro e pela direção é muito forte. Desse junção surgem as metáforas (na maioria das vezes, relacionadas ao renascimento da personagem), a construção da tensão e a transmissão das emoções e sensações vividas pelos astronautas. O roteiro de Gravidade não funcionaria sem o visual criado pelo diretor. Esse, inclusive, é um tema recorrente em alguns filmes do Cuarón. O diretor gosta de fazer um certo estudo sobre a existência e a natureza humana dentro de situações extremas. Muito desse estudo pode ser observado em Filhos da Esperança, último filme do diretor mexicano, que também uma ficção científica dramática.

Mas nesse filme, Cuarón eleva o extremo ao seu nível máximo. Eu não consigo imaginar uma situação mais extrema e angustiante que estar sozinho na imensidão do espaço. Imensidão que é mostrada de maneira brilhante, enquanto mostra como o homem é inferior ao Planeta Terra e ao Universo. As metáforas são quase todas relacionadas a inferioridade dos seres humanos e ao renascimento da personagem da Sandra Bullock. As do renascimento são bem mais claras, como quando ela retira o traje espaciais e fica em posição fetal após uma cena de ação ou quando ela reaprende a andar (essa última pode ser relacionada também a frase “Um pequeno passo para o homem…” e ao filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço).

 

 

Falando apenas da direção, Alfonso Cuarón está em ótima forma. Ele controla o filme de maneira genial. Cada movimento de câmera é pensado para levar o espectador para dentro do filme. O filme gera um imersão espantosa, onde o espectador sente todas as sensações vividas pelos personagens. Tudo auxiliado por um 3D mais do que espetacular. O filme não foi fácil de ser filmado, mas mesmo nada parece fora do lugar. è um trabalho que merece ser recompensado. A equipe criou equipamentos para recriar a gravidade e fazer os atores flutuarem, enquanto atuavam sozinhos em um cubo escuro. Alfonso fez os atores sentirem essas sensações de medo e solidão, para que o público pudesse acreditar que aquilo é real.

Cuarón presenteia o púbico com cenas belíssimas do Planeta Terra, da nave e da Estação Espacial. Ainda temos uma câmera que faz ora movimentos suaves, inovadores e balanceados, ora cortes precisos e movimentos pesados, causando até vertigem. Isso pode ser percebido em toda a cena inicial do filme que é um plano-sequência de 20 minutos. Esse balanceamento faz com que a tensão não diminua em nenhum momento do filme. Mas só a direção espetacular do mexicano não seria o bastante para criar um filme desse, se a parte técnica e criativa não conseguisse acompanhar as ideias mirabolantes do diretor. A começar pela espetacular fotografia criada por Emmanuel Lubezki (mexicano parceiro de Cuarón e Terence Malick).

Os efeitos visuais também são perfeitos. Todo o “espaço” é impressionantemente real, mesmo sendo criado totalmente por animação. O visual do filme é impecável, ajudando a criar toda a situação imaginada por Cuarón. Os efeitos trazem o público para dentro do filme e ajudam a criar a tensão e a ação do filme. As explosões em gravidade zero são de tirar o fôlego. Os efeitos são complementados por um 3D usado de maneira brilhante. O pública vai aproveitar tudo o que o 3D  pode oferecer, desde os objetos saindo da tela até a profundidade que só esse formato consegue criar.

 

Outro ponto técnico muito importante em Gravidade é o som, incluindo os efeitos sonoros e a trilha sonora. O som de Gravidade é muito bem produzido. É muito interessante ver a alternância entre o som e o silêncio mortal em algumas cenas. É muito interessante como esse silêncio entra de maneira abrupta e seca, principalmente nas explosões lentas e silenciosas. A trilha sonora só entra em alguns momentos, geralmente para criar a tensão (o objetivo é atingido), introduzir o silêncio (de uma maneira que torne esse silêncio mais pesado) ou apenas para trazer o público pro filme. Sempre do jeito certo e na intensidade certa.

Só que em Gravidade está tudo interligado. A direção, a fotografia, os efeitos e o som não serviriam pra nada se as atuações não convencessem. O elenco é muito pequeno, mas é perfeito. Sandra Bullock e George Clooney estão muito bem no filme. Clooney consegue até surpreender, mesmo aparecendo pouco. Seu personagem é leve e engraçado, por isso suas aparições são muito importantes. Ele serve pra quebrar um pouco a tensão e dar ao público um momento de respiro.

Sandra Bullock passa para o público todas as sensações e emoções de sua personagem. E essas sensações não são poucas. Temos o medo, a tensão (em alguns momentos só ouvimos a respiração ofegante da personagem), a solidão, a tristeza, a perseverança, a vontade de viver, entre outras. Uma atuação complexa, tanto emocionalmente quanto fisicamente. A criação da movimentação lenta da personagem deve ter sido complexa e extremamente cansativa.

Gravidade é um dos melhores filmes espaciais que eu já vi e só não consegue bater o clássico 2001 – Uma Odisseia no Espaço. A tensão contínua, as emoções, o visual e tudo mais faz de Gravidade um ótimo filme que merece ser visto no cinema – e em 3D