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Séries

Crítica: Gotham (4ª Temporada)

Entre gângsters e vilões clássicos, Gotham acerta o seu caminho...

2 de junho de 2018 - 16:14 - Flávio Pizzol
[Aviso: Os spoilers são criminosos de Gotham e certamente estão escondidos nesse texto… Cuidado!]

Eu gostei da proposta de Gotham desde o início, mas nunca consegui curtir a série como gostaria. Muito preocupada em apresentar versões mais novas dos vilões, ela se mantinha constantemente rasa, desorganizada e inconsistente. Pra piorar, a produção nunca conseguiu cumprir a promessa de mergulhar no caos que transformou a cidade no que é, pecando no objetivo de estudar – como um bom prólogo faria – os alicerces que a fizeram precisar tanto do Batman. Até teve seus momentos de qualidade ali no segundo ano, mas caiu de vez no fundo do poço com a terceira temporada. Eu fiquei tão incomodado que nem cheguei a escrever uma crítica, e talvez seja exatamente essa falta de expectativa gerada pelo passado que, ao contrário do que aconteceu com Arrow, ajudou Gotham a queimar minha língua.

Pra começar, a série corrigiu um dos seus principais problemas: a organização dos exagerados 23 episódios de cada temporada. Sabiamente, os roteiristas fugiram dos dois arcos que dividiam o ano pela metade (com direito a uma troca de subtítulo desnecessária) e quebraram ainda mais a narrativa, criaram três histórias centrais e sólidas. É lógico que elas acabaram sendo rodeadas e influenciadas por aquelas pequenas subtramas paralelas que são obrigatórias nesse tipo de produção, mas o foco permaneceu firme no que precisava ser mostrado.

Admito que o começo foi morno, mas soube trabalhar a guerra entre mafiosos como um elemento essencial de Gotham, apresentando Sofia Falcone como uma vilã de peso e construindo um ambiente mais realista em torno do trabalho policial. Ao mesmo tempo, Bruce já começava a experimentar seu bico como vigilante noturno, incluindo boas referências aos quadrinhos na relação do garoto com James Gordon. Mais direta do que nunca, a série não titubeou em criar bons momentos: uma separação crível entre James e Harvey Bullock (o incrível Donal Logue); uma divisão mais interessante do tempo de tela entre Gordon e Bruce Wayne, sem exigir que suas histórias se cruzassem a cada esquina; e, principalmente, a introdução do Professor Porko como um dos melhores inimigos da história da série.

Ele levou todo mundo ao limite com limites com ataques engenhosos, muita tensão e uma violência exagerada que sempre fez falta em uma produção sobre a cidade mais violenta dos quadrinhos. O trabalho de Michael Cerveris (Mosaic) elevou Gotham a outro patamar sem nenhuma dúvida, mas foi essencial para tirar certos personagens de seus respectivos status quo e proporcionar uma evolução que não aconteceu na última temporada. O destaque fica para a experiência prazerosa de finalmente ver Gordon (o suposto protagonista interpretado por Ben McKenzie) aprender com seus erros, enfrentar as consequências de suas decisões sem precisar andar para trás na esperança de resolvê-las e terminar o ano em um ponto diferente daquele em que estava no começo, entregando a verdadeira representação de uma evolução em produtos audiovisuais.

E, por sorte, o mesmo também aconteceu com o já citado Harvey Bullock, Edward Nygma (Cory Michael Smith), Selina Kyle (Camren Bicondova), Barbara Kean (Erin Richards) e Leslie Thompkins (a brasileira Morena Baccarin). É claro que nem todos eles tiveram o privilégio de ter subtramas realmente boas ou acabaram com o mesmo nível de desenvolvimento que a maioria, porém ver algo assim acontecer em Gotham é, na minha humilde opinião, um tremendo avanço. Foi bom, por exemplo, ver que o subaproveitado Pinguim (Robin Lord Taylor) conseguir se livrar das amarras amorosas que o prendiam a uma ridícula subtrama de novela mexicana. Ele ainda não conseguiu sair do segundo plano e isso é um fato, mas nenhum vilão da incrível galeria de inimigos do Batman merece o tratamento que ele vinha tendo e essa mudança merece ser celebrada.

Também foi muito bom ver o roteiro abrir espaço para o Charada completar sua transformação e brilhar, enquanto a novata Crystal Reed (Teen Wolf) também roubava uma parte dos holofotes como Sofia. Contando com o suporte do visual arrojado que sempre chamou atenção em Gotham, eles lideram uma série de ótimas reviravoltas e cenas de ação que tiraram proveito de interações inéditas, versões mais maduras de certos vilões (como a Hera Venenosa e o Espantalho) e, mais uma vez, da violência que, se não é necessária, cumpre sua função no quesito credibilidade. Ter cabeças voando e algumas tripas na rua é o que torna essa cidade o cenário perfeito para mafiosos brigarem, vilões nascerem e loucos como Jerome (Cameron Monaghan) garantirem que o último arco da temporada elevasse novamente o nível da série.

O único problema aqui foi essa trama cheia de potencial e decisões corajosas ser influenciada pelo elemento mais fraco da história da produção: Ra’s al Ghul. A atuação de Alexander Siddig (Game of Thrones) até cumpre seu papel com uma carga de mistério interessante, mas o roteiro não parece saber lidar com o sobrenatural que chega de carona com o personagem. Seu diálogo “revelador” com Jeremiah Valeska é extremamente forçado e só não consegue ser pior do que toda a sua relação com Bruce Wayne. É um tal de morre e ressuscita que surge de acordo com as conveniências dos roteiristas e vai destruindo, aos poucos, o desenvolvimento do Batman em pessoa.

A desculpa do personagem passa pelo fato de sua missão ser justamente criar o Homem-Morcego, mas a verdade é que todos os tiros saíram pela culatra e só me obrigaram a retirar o garoto da lista de personagens com bom desenvolvimento. Sua evolução até acontece no final das contas, mas as voltas que o texto dá pra chegar no que importa são tão grandes e incoerentes que o público acaba perdendo a conexão com alguém que deveria ser um dos melhores personagens da série. A atuação de David Mazouz (Touch) está muito mais madura, mas a repetição dos erros, as decisões estúpidas e a pressa para corrigir alguns desses mesmos erros criam bolsões de tédio e incompetência que atrapalham inclusive as decisões tomadas por Alfred (Sean Pertwee). Eu, por exemplo, não consigo comprar a velocidade com que Bruce demitiu o mordomo e se reconciliou com o mesmo com verdade suficiente para que este decidisse te presentear com um carro blindado.

Apesar disso, a missão de vida de Ra’s al Ghul funciona como gancho para uma conclusão de temporada tão intensa quanto a maioria dos episódios, contando princialmente com o universo de possibilidades que foi aberto com a destruição quase completa da cidade. Gotham só garantiu mais treze episódios durante a onda de cancelamentos da FOX e, graças a esse final, pode aproveitá-los com um orçamento mais alto e uma precisão narrativa que já provou ter, preparando assim o caminho para algo que finalmente recompense os fãs e ilumine as memórias dos fãs sobre a série. Assim como aconteceu com a cidade depois da inauguração do nosso querido BatSinal