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Séries

Crítica: Good Girls – 1ª Temporada

Diversão e relevância

17 de julho de 2018 - 13:33 - Tiago Soares

Se eu perguntar quantos filmes de assalto protagonizados por homens você já viu ou ouviu falar, a lista é enorme. Com exceção do recente Oito Mulheres e Um Segredo, a maioria dos filmes de assalto femininos denotam a busca pela vida luxuosa e o prazer, não colocando motivos “justificáveis” para tais atos, quando suas vidas começam a desencadear.

Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro, filme que trazia Katie Holmes, Diane Keaton e Queen Latifah, brincava com uma premissa parecida a de Good Girls, mas por se tratar de um filme, não aprofundava as reais motivações de suas protagonistas. Podemos chamar Good Girls de Desperate Housewives da atualidade, já que flerta bastante com esse sucesso do início dos anos 2000.

Beth, Ruby e Annie são três mulheres que passam por momentos distintos na vida, mas igualmente difíceis. Beth é casada com Dean (Matthew Lillard, o eterno Salsicha), descobre que foi traída, e que seu marido acumula inúmeras dívidas. Annie sua irmã mais nova é mãe solteira de Sadie (Izzy Stannard), um menino transgênero e está prestes a perder sua guarda, além de trabalhar num supermercado aonde tem um chefe escroto. Ruby é a que tem a família mais “tradicional”, mas sofre com a doença da filha, que exige remédios e filas de espera muito caras.

Quando surge a oportunidade, as três resolvem assaltar o supermercado de Annie e pegar em torno de 30 mil dólares, o que resolveria seus problemas. Quando vêem que pegam muito mais que isso, se encontram envoltas em um caso de lavagem de dinheiro e um grande esquema, liderado por Rio (Manny Montana). Cabe as três sair das encrencas em que se meteram, ao mesmo tempo em que desembolsam uma grana com isso.

A série de Jenna Bans (Desperate Housewives/Greys Anatomy) na realidade é exibida pela NBC, mas a Netflix comprou os direitos de transmissão internacional, tornando-a uma Original Netflix, e não poderia ter acertado mais. Good Girls é daquelas séries divertidas e perfeitas pra maratonar. O humor é rápido, eficaz e lotada de referências ao mundo atual e a cultura pop. Vi a maior parte da série dublada, e posso dizer que mais uma vez, nossa dublagem está incrível.

Por se tratar de uma série de comédia, as consequências não são tão sentidas por longos minutos, e logo são quebradas com uma piada, mas isso não tira o senso de urgência em que se encontram nossas protagonistas. O trio funciona perfeitamente. É nítido notar o desespero no rosto de Christina Hendricks (Mad Men), cada vez que se encontra em uma furada, assim como todo o amor de Mae Whitman (As Vantagens de Ser Invisível) pelo filho. Retta (Parks and Recreation), está no seu papel mais dramático, mas não menos cômico, sua personagem tem os momentos mais emocionantes e igualmente engraçados.

Good Girls quebra a barreira de uma série de comédia e se torna relevante já em seu primeiro episódio ao lidar com um caso de tentativa de estupro. Muitos discursos feministas são introduzidos – seja de forma sutil ou escancarada – nos vários diálogos entre Beth e seu marido e também nos pensamentos ultrapassados de Boomer (David Hornsby).

A sensação de empatia é imediata, e é interessante não julgar os atos que são claramente criminosos, pois sabemos tudo o que as meninas sofreram ou ainda sofrem. Essa afinidade é parecida com a que temos com Walter White em Breaking Bad, com a diferença que – enquanto ele vai ficando mais escroto a cada temporada – nossas meninas vão ganhando mais ainda nossa torcida e simpatia.

Good Girls surpreende, mas as vezes passeia por caminhos fáceis e previsíveis, o que não deixa a série (já confirmada para sua segunda temporada), menos intrigante. É gratificante ver mulheres fortes, ganhando cada vez mais espaço e importância, não apenas em suas próprias casas, mas na sociedade em si – mesmo que muitas vezes – por caminhos tortuosos.