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Critica: Godzilla


19 de maio de 2014 - 13:00 - Flávio Pizzol

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Um filme imperfeito e mal balanceado, que não atingiu todas as minhas expectativas. Entretanto, mesmo com muitos problemas, ver o Rei dos Monstros no cinema atingiu minha nerdice de uma maneira que só Círculo de Fogo tinha conseguido.

O filme não segue a história do Godzilla, mas sim o drama da família Brody. A história começa com um acidente que vitima Sandra, mulher de Joe (nosso querido Bryan Cranston), deixando Ford órfão de mãe. Quinze anos se passam e Ford está casado e tem um filho, enquanto seu pai está surtando por conta de mistérios não resolvidos do passado. De alguma maneira, todos eles vão se envolver em um evento global e catastrófico que envolve nosso querido Godzilla.

O roteiro, pensado por Dave Callaham (Os Mercenários), escrito pelo quase novato Max Borenstein e revisado por David S. Goyer (O Homem de Aço), Drew Pearce (Homem de Ferro 3) e Frank Darabont (The Walking Dead), tem muitos problemas. Tem mais problemas do que o próprio Círculo de Fogo, que pode ser incluído no mesmo gênero. Enquanto o filme de Del Toro deixou o roteiro de lado em detrimento da ação, Godzilla tenta não repetir a fórmula e erra.

Um dos principais erros é dar mais espaço que o necessário ao drama. Claro que a ausência total de um drama que convença e aproxime o público dos protagonistas não faz bem à um filme desse tipo, onde você tem que se importar com a destruição. Por outro lado, exagerar no drama também não é bom, já que torna a urgência do filme um tanto quanto pessoal e não global.

Como tentei explicar, esse drama é válido, mas faz com que o filme demore a engrenar. O início é importante para a definição desse foco humano que o filme decidiu usar, mas é bastante arrastado e lento. O próprio Godzilla, que é o motivo do público ir ao cinema, demora para aparecer e ainda é deixado de lado em momentos que poderiam gerar ótimas cenas de ação. A cena do aeroporto, onde o monstro é completamente revelado, é um exemplo disso, já que ela é cortada e a pancadaria é mostrada pela televisão, através do ponto de vista do filho do casal principal.

Outra coisa que me incomodou um pouco foi a forma como o monstro é pintado como herói desde o inicio, principalmente pelo Dr. Serizawa. Gosto dessa visão, que abre espaço para criticas ambientais e anti-nucleares, mas penso que essa descoberta deveria ser feita de maneira mais lenta, acompanhando o aparecimento do monstro. Para algumas pessoas, o Godzilla não aparece como ameaça em nenhum momento, sendo apenas uma força heróica da natureza. Essa decisão, que, provavelmente, foi tomada por conta da escolha de incluir outros monstros desde o primeiro filme, diminui o impacto das ações do Godzilla.

No fim das contas, o roteiro acerta muito pouco, tendo tantos problemas quanto o do infame O Espetacular Homem Aranha 2, que critiquei com veemência na semana passada. Aí você – principalmente quem não concordou com o que falei do filme do aranha – pode perguntar o que faz de Godzilla um filme melhor.

A resposta é simples. O filme tem uma catarse emocional que o amigão da vizinhança não apresentou. É o tipo de catarse que filmes, como Círculo de Fogo e Gigantes de Aço, trouxeram de volta aos cinemas. Aquele momento que surpreende, tira a respiração e faz o público vibrar enquanto solta um sonoro “Uau!”.

É verdade que essa catarse demora pra vir e poderia estar mais bem espalhada pelo filme, mas quando chega, o mundo para e é só uma sensação de emoção que aumenta a cada relance do monstro, a cada rugido e a cada raio azul (realmente não sei como denominar o que é aquilo) que ele solta. Entretanto, acredito que isso tudo é mérito do diretor Gareth Edwards, cujo o único trabalho de expressão – até o momento – foi o independente Monstros.

Gareth consegue salvar um pouco os estragos feitos pelo roteiro, mesmo não sendo perfeito. Se não fosse a tensão constante que o diretor cria desde o início do filme, os dois primeiros atos do filme beirariam o insuportável. Mas Edwards consegue abusar da ansiedade pela chegada do monstro e criar cenas de tensão que remetem aos filmes de suspense e terror de décadas atrás, sempre se apoiando em uma trilha sonora ressoante, marcante e apoteótica.

Também é mérito de Edwards usar o foco humano como pretexto para alguns movimentos interessantes de câmera. Ele transforma esse foco do roteiro em uma escolha estética que mostra grande parte do filme através de câmeras no chão (ou seja, na altura dos olhos de um humano normal). Câmeras que acompanham pessoas andando, enxergando toda a ação através de vidraças embaçadas e portas fechando.

A união dessa tensão baseada na ansiedade do público com essa “câmera humana” gera outra decisão interessante. Edwards decide, de maneira similar ao que fez em seu filme de estréia, mostrar o monstros aos poucos. A mesma cena do aeroporto começa com os integrantes U.S.S Saratoga vendo as espinhas e o sombra do que seria o Godzilla para depois vermos a pegada, partes do corpo e, por fim, o monstro em si.

Essa construção da tensão e da catarse é interessante, mas não funciona da maneira que o diretor pensou inicialmente, por que o marketing do filme estragou isso. Sei que vender um filme do Godzilla sem mostrar o mesmo é complicado, mas todos os principais trailers já mostravam o monstro por completo, logo prejudicaram a tensão pensada por Gareth.

O visual do filme é muito interessante e boa parte disso deve ter vindo de Gareth, que, além de dirigir, já trabalhou como supervisor de efeitos especiais, editor e diretor de fotografia em outras produções. Curiosamente, os efeitos visuais e a fotografia foram os elementos que mais me chamaram a atenção.

Os monstros e a destruição estão perfeitos, lembrando muito o trabalho feito no tão citado Círculo de Fogo, enquanto a fotografia funciona muito bem com seus tons avermelhados envoltos em poeira, névoa e escuridão. O fato do filme ter muitas cenas noturnas ajuda na construção dos efeitos, mas atrapalha o 3D, que fica mais escuro do que o normal.

Falando no 3D, infelizmente, ele é descartável. Os únicos elementos que funcionam são a névoa e a poeira que se projetam sobre o público e levam os mesmos para dentro do filme. Se pensarmos na profundidade do filme, ela se evidencia em poucas cenas, sendo atrapalhada pelas cenas escuras.

Uma das cenas mais bonitas do filme é o salto da estratosfera, que já foi mostrado em vários trailers. Essa cena em particular exalta a fotografia avermelhada e contrastante, além de usas muito bem a profundidade permitida pelo 3D. O próprio monstro também serve de exemplo para o contraste pensado no visual do filme, sendo maior e mais monstruoso do que o esperado. Não importa se ele está parrudo ou inexpressivo, ele é um monstro gigante e age como tal.

Enquanto acerta no monstro, na tensão e no visual do filme, Gareth peca na direção do elenco. Esse problema deve ser melhorado de acordo com o ganho de experiência do diretor, mas é crucial para esse filme, já que o roteiro opta por abrir um grande espaço para o dramas pessoais dos protagonistas.

O Godzilla não é coadjuvante, principalmente por conta da carga adicional que ele adiciona ao filme quando entra em cena. Afinal, protagonista é quem é mais importante e não quem mais aparece (pelo menos, na minha opinião). Entretanto, os humanos também tem muito espaço no filme e não correspondem a essa importância. Ou seja, acho que, junto com o roteiro, o elenco tem parte da culpa pelo início arrastado do longa.

Aaron Taylor- Johnson está muito mal no filme. É certo falar que os personagens são superficiais e caricatos, mas a falta de carisma de Aaron prejudica muito o andamento do filme. Elizabeth Olsen também sai prejudicada, já que sua química com Aaron soa apática e fraca. Vamos ver se isso muda em Vingadores 2, onde os dois atuaram juntos como Mercúrio e Feiticeira Escarlate.

Outros atores mais veteranos também são mau utilizados, deixando claro os problemas do roteiro. Ken Watanabe só está ali para transformar o Godzilla em herói e alegrar os fãs com a pronúncia em japonês do monstro (ver Ken falar Gojira, depois de insistir com os produtores, é emocionante). Bryan Cranston (os fãs de Breaking Bad que forem ao cinema por ele, vão ver pouco do grande ator e se decepcionar) e Juliette Binoche estão bem, mas aparecem pouco e não consegue salvar o filme. Fechando o elenco dos renegados, temos os versáteis Sally Hawkins e David Strathairn, que também são pouco utilizados.

Com o foco no fator humano, faltou alguém que fosse maior do que os problemas no roteiro e fizesse o que Idris Elba fez em Círculo de Fogo, que também não tem um roteiro muito bom. Faltou alguém que chamasse o público para o filme e nos fizesse torcer para os humanos. Entretanto, Godzilla põe o foco nos homens, mas faz o público torcer apenas pelo monstro.

No fim das contas, mesmo com inúmeros problemas de roteiro, os fãs não vão sair decepcionados do cinema. O final do filme é lindo e ver Gojira descer a porrada em outros monstros faz qualquer um vibrar e esquecer todos os problemas do longa. Não é o melhor filme do ano (como eu esperava), mas merece ser visto, principalmente por trazer de volta o verdadeiro Godzilla e não aquela coisa que eu via na Sessão da Tarde.

OBS 1: Cara Legendary Pictures, já estou esperando ansiosamente por um crossover entre Godzilla e Círculo de Fogo. E vocês?